{"id":2506,"date":"2024-02-01T11:54:00","date_gmt":"2024-02-01T14:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/enois.org\/?p=2506"},"modified":"2024-02-01T11:54:00","modified_gmt":"2024-02-01T14:54:00","slug":"a-primeira-da-diretora-trans-negra-e-periferica-de-uma-organizacao-de-jornalismo-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.enois.org\/en\/a-primeira-da-diretora-trans-negra-e-periferica-de-uma-organizacao-de-jornalismo-do-brasil\/","title":{"rendered":"A primeira da diretora trans, negra e perif\u00e9rica de uma organiza\u00e7\u00e3o de jornalismo do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Sanara Santos&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ol\u00e1, Rede \u00c9nois! \u00c9 muito bom reencontrar voc\u00eas neste come\u00e7o de ano. Coube a mim a miss\u00e3o de escrever a nossa primeira Diversa de 2024 e trago boas novas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira \u00e9 que iniciamos este ano olhando para a frente de uma maneira muito potente, olhando para o futuro. Sim, somos um laborat\u00f3rio que experiencia o jornalismo com a \u00f3tica da diversidade, representatividade e inclus\u00e3o. Uma organiza\u00e7\u00e3o que completou 14 anos de exist\u00eancia cultivando ecossistemas de jornalismo local e sendo cultivada por eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2024, escolhemos dar novos passos nesse cultivo\u2026 E um exemplo disso \u00e9 a minha entrada para a dire\u00e7\u00e3o da \u00c9nois.<\/p>\n\n\n\n<p>Me chamo Sanara Maria dos Santos Araujo, nasci e fui criada na favela da Ilha, uma pequena comunidade que fica entre a zona leste de S\u00e3o Paulo e Santo Andr\u00e9, no ABC Paulista. Por estar nesta fronteira, fui esquecida e pouco cuidada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas. Assim como meu corpo, assim como o jornalismo local.<\/p>\n\n\n\n<p>Viver entre as ruas, becos, lajes e vielas moldaram minha vis\u00e3o sobre o mundo que vivemos, crescer em um ambiente t\u00e3o complexo onde as viol\u00eancias, vulnerabilidades, potenciais e culturas coexistem, me levaram desde nova a entender que \u201csozinha eu n\u00e3o aguento\u201d. Para quem mora na favela, essa \u00e9 uma das primeiras&nbsp; percep\u00e7\u00f5es: a coletividade \u00e9 necess\u00e1ria para garantir a nossa exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>E como mulher trans e negra, dentro da comunidade, encontrar uma coletividade que abarcase quem eu era e quem eu sou foi desafiador. Por muito tempo, eu vivi na sombra do que eu queria ser. At\u00e9 que chegou o momento em que meu corpo tomou a frente e decidiu por ele mesmo se mostrar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse Angela Davis, \u201cquando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela\u201d. Mas, \u00e0s vezes, esse movimento n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil de vivenciar. Em 2017, me encontrei expulsa de casa carregando apenas a minha vulnerabilidade e sendo acolhida por um coletivo anarquista no ABC Paulista. Neste momento, nascia Sanara Santos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"169\" src=\"https:\/\/dev.enois.org\/wp-content\/uploads\/sites\/18\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2024-01-30-at-07.51.49-300x169-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2507\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>(Sanara \u00e0 \u00e9poca do coletivo anarquista, em 2017. Foto: Arquivo pessoal)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim a vida se apresentou. Dura, real e implac\u00e1vel. Foi onde o destino cruzou meu caminho com a \u00c9nois. Primeiro com uma plaquinha escrita \u201cEste restaurante \u00e9&nbsp;Prato&nbsp;Firmeza\u201d. Anos antes de eu entrar para o coletivo anarquista, a \u00c9nois j\u00e1 tinha passado l\u00e1 mapeando restaurantes e iniciativas de comida para o&nbsp;<a href=\"https:\/\/pratofirmeza.com.br\/\">Prato Firmeza<\/a>, o nosso guia gastron\u00f4mico das quebradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Meses depois da nossa atual Agente de Dados e Impacto,e tamb\u00e9m minha<strong>&nbsp;<\/strong>grande amiga, Mel Oy\u00e1, entrou para a Escola de Jornalismo, que foi o<strong>&nbsp;<\/strong>principal projeto da \u00c9nois durante anos. Dez jovens das periferias de S\u00e3o Paulo eram convidadas e convidados a se aprofundar sobre conhecimentos<strong>&nbsp;<\/strong>ligados a um jornalismo diverso e inovador, no per\u00edodo de um ano. Foi neste ano que a \u00c9nois produziu o seu segundo Prato Firmeza e um<strong>&nbsp;<\/strong>document\u00e1rio chamado&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=EqjlU_z6QbQ\">Jovens e a Grana<\/a>,&nbsp;em que&nbsp; fui convidada para mostrar a minha viv\u00eancia com o dinheiro sendo uma jovem que sobrevivia da arte e sem apoio familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter a oportunidade de contar a minha hist\u00f3ria para jovens comunicadores acendeu uma chama em mim, quem \u00e9 jornalista sabe muito bem do que estou falando. Eu senti o poder da comunica\u00e7\u00e3o e queria aquilo pra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidi me aproximar da \u00c9nois n\u00e3o apenas como uma espectadora, mas como algu\u00e9m determinada a fazer parte dessa transforma\u00e7\u00e3o. Ingressei em 2018 nos programas oferecidos, \u00e1vida por aprender e crescer. Hoje posso afirmar que cada oficina moldou minhas habilidades e expandiu minha vis\u00e3o de possibilidades de exist\u00eancia pessoal e profissional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se colocando para jogo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E como tudo \u00e9 um via de m\u00e3o dupla, o pessoal da \u00c9nois (na \u00e9poca, Amanda Rahra, Simone Cunha, Nina Weingrill, Gisele Brito, Simone Freire, Vinicius Cordeiro e Vicente Go\u00e9s), tamb\u00e9m identificou algo meu que era importante para a organiza\u00e7\u00e3o. Quando terminei a Escola de Jornalismo, n\u00e3o sai da \u00c9nois, me coloquei para jogo assim como fui colocada e incentivada a permanecer. Foram freelas, caf\u00e9s com bolos, risadas e acolhimento que desenharam um lugar pra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2019, a \u00c9nois passou por uma reestrutura\u00e7\u00e3o&nbsp;e acabei entrando para a equipe fixa. Primeiro, como residente e depois como produtora chefe de forma\u00e7\u00e3o. No ano seguinte, me tornei Coordenadora de Forma\u00e7\u00e3o, totalizando mais de 200 encontros formativos dentro dos projetos da \u00c9nois, aprendendo com o DNA educador da organiza\u00e7\u00e3o e compartilhando a minha ess\u00eancia. Me descobri aqui uma boa educadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, os anos passaram voando e em 2024 aqui estou eu. N\u00e3o como participante, mas como membro ativo da diretoria da \u00c9nois. Esta jornada foi uma montanha-russa de aprendizado, desafios e conquistas, sempre com coletividade. Tornei-me uma testemunha viva da capacidade da \u00c9nois de transformar vidas, inclusive a minha. Assumir o papel de diretora \u00e9 um privil\u00e9gio e uma responsabilidade que levo com orgulho. Estou ansiosa para continuar contribuindo para o impacto positivo da \u00c9nois e inspirar outros jovens a escreverem suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias de sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui come\u00e7amos o ano com novos planejamentos, novos desafios, uma nova diretora e muita vontade de continuar transformando o jornalismo, juntas, porque \u00e9 mais legal e podemos ir mais longe. E foi assim que esse sonho se tornou realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero deixar um breve agradecimento a Nina Weingrill e Leticia Tavres, minhas antecessoras no cargo de Diretora, a toda rede \u00c9nois que passou pelas nossas forma\u00e7\u00f5es, e \u00e0s minhas colegas de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o poderia esquecer que esse espa\u00e7o \u00e9 celebrado ap\u00f3s o&nbsp;m\u00eas da Visibilidade Trans, enquanto muitas mulheres trans, travestis, homens trans, trans masculinos e n\u00e3o bin\u00e1rios, lutam para conquistar sonhos e escapar de uma realidade regada de dor e \u00f3dio. Mas tamb\u00e9m encontram momentos como este para celebrar utopias.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Que a gente nunca esque\u00e7a: Nada sobre n\u00f3s, sem n\u00f3s!<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sanara Santos&nbsp; Ol\u00e1, Rede \u00c9nois! \u00c9 muito bom reencontrar voc\u00eas neste come\u00e7o de ano. Coube a mim a miss\u00e3o de escrever a nossa primeira Diversa de 2024 e trago boas novas\u2026 A primeira \u00e9 que iniciamos este ano olhando para a frente de uma maneira muito potente, olhando para o futuro. 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