Que a COP30 seja a da comida  

O acesso à alimentação e o combate à fome se tornaram meta climática e ganharam centralidade nas discussões

Simone Cunha (*)

Enquanto parte das conversas e da cobertura sobre COP30 se ocupam dos preços da comida na cúpula e do preconceito em relação à alimentação tradicional do Pará, há uma construção mais urgente acontecendo em Belém: o acesso à alimentação e o combate à fome se tornaram meta climática e ganharam centralidade nas discussões. É por conta disso que essa COP pode ficar conhecida como COP da comida.

Já na organização da conferência, a organização estabeleceu metas práticas para implementar a mudança que se discute diplomaticamente: 30% da alimentação servida durante a conferência deve vir da agricultura familiar, de práticas agroecológicas ou da sociobiodiversidade. Dois dias da programação oficial serão dedicados à discussão sobre sistemas alimentares (19 e 20/11). E na pré-COP, a Cúpula do Clima, 44 países assinaram a “Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas”, que coloca o combate à fome como prioridade climática.

texto reconhece que agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores rurais são, ao mesmo tempo, os mais vulneráveis à crise climática e os principais agentes de resiliência dos sistemas alimentares globais. Por isso, a declaração defende que o financiamento climático apoie meios de subsistência sustentáveis para essas populações, garantindo que a ação climática também gere empregos dignos, acesso a direitos e oportunidades econômicas para quem produz.

Já na abertura, o presidente Lula reforçou que a crise climática precisa ser combatida e compreendida pelo cotidiano, ao afirmar que “as pessoas podem não entender o que são emissões ou toneladas métricas de carbono, mas sentem a poluição”. Da mesma forma, podem não entender que é a evapotranspiração que abastece os rios e mantém a temperatura da terra, mas são impactadas quando não encontram certos alimentos na feira por falta seca.

A carta de Belém contra a fome reconhece que a crise climática já impacta o cotidiano e está aumentando a desigualdade, exacerbando a pobreza e fome, e isso precisa ser levado em conta na ação climática, ou irá piorar. O documento aponta que os pequenos produtores, de comunidades tradicionais estão entre os mais vulneráveis à crise climática e também são fundamentais como resposta, construindo sistemas alimentares sustentáveis, com desenvolvimento econômico e estabilidade social local – ainda mais se decentemente apoiados. Para isso, prevê investimento em soluções de prevenção a riscos climáticos, maior acesso a estruturas de financiamento e políticas públicas.

Em meio a essa virada na narrativa climática global, iniciativas locais que tratam a alimentação como ferramenta de transformação são fundamentais para estourar a bolha da COP e manter essa agenda de pé e na mesa das pessoas.

O recém-lançado Prato Firmeza Amazônia, produzido por comunicadores periféricos do Tapajós de FatoPuxirum do Bem Viver e Pavulagem, é um exemplo. O guia mapeia ingredientes, receitas e histórias que mostram como a cultura alimentar pode ser ao mesmo tempo resistência, regeneração ambiental e acesso a direitos com base nas comunidades.

Que a COP30 fique conhecida como COP da alimentação e traga para a mesa a justiça climática como prática e os pratos com comida tradicional e local como realidade. E que a segurança alimentar, além de pauta de urgência e de COP, se estabeleça como agenda de implementação – fome e crise climática andam juntas e as soluções também.

(*) Diretora de desenvolvimento institucional da Énois, organização que apoia o desenvolvimento de iniciativas nascentes de comunicação e cultura nas periferias do Brasil e criou o Prato Firmeza como plataforma que conecta informação e alimentação nas periferias brasileiras.

Texto originalmente no Sul 21

O papel da filantropia na sustentabilidade no jornalismo e desafio das lideranças periféricas e pretas

Durante o 20º Congresso da Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, participei de uma mesa sobre um tema urgente: o papel da filantropia na sustentabilidade das organizações de jornalismo no Brasil. A conversa foi atravessada por questões como raça, território, identidade e desigualdade.

No ano passado, assumi a direção do laboratório Énois, onde me formei como jornalista. Hoje, como mulher preta, travesti e periférica em posição de liderança, vivo os desafios concretos de dialogar com quem detém os recursos – geralmente em contextos muito distintos dos nossos.

A ausência de redes de contato privilegiadas impacta diretamente nossas relações institucionais. Enquanto operamos em cenários de emergência, a filantropia muitas vezes atua em outro ritmo, distante das urgências do nosso cotidiano.

Quando pessoas negras e periféricas apresentam projetos, eles são vistos como “bonitos” ou “necessários”, mas raramente como estratégicos. E o campo da comunicação ainda é um dos menos priorizados no investimento filantrópico. A disputa por recursos é desigual.

Não se trata de pedir menos critérios, mas de afirmar: comunicação não é acessório. É eixo estruturante da transformação social. E para isso, precisamos de investimento institucional, estrutura, equipe, contratação digna, continuidade.

A filantropia é importante, mas não pode ser nossa única via. Precisamos também criar outras fontes de receita: produtos, serviços, leis de incentivo, captação direta. Sustentabilidade real exige caminhos diversos e sintonizados com nossos territórios.

Também é preciso fortalecer a base institucional. Isso passa por práticas de cuidado: códigos de conduta, políticas de enfrentamento ao assédio, compromisso com a diversidade, e contratação formal. Mas poucos financiadores apoiam esse tipo de estrutura.

Apesar dos desafios, há movimento. Segundo o Instituto Beja, o investimento filantrópico no Brasil gira em torno de US$ 4 bilhões/ano, com potencial de chegar a US$ 28 bilhões. Além disso, até 30% das fundações já apoiam projetos de outras organizações, o que mostra abertura para redesenhar esse campo – se houver vontade política.

A mesa que participei era composta por três mulheres, duas negras. Levamos dados, mas também vivências. Esse texto não é uma denúncia. É um chamado. Um convite à reflexão sobre como o jornalismo e a comunicação nas periferias são percebidos e financiados.

Fazer jornalismo nas periferias é, por si só, um grande projeto. Seguimos. Criando, resistindo, informando.

Texto por Sanara Santos, diretora da Énois

Filantropia precisa desconcentrar poder e riqueza na prática

O Congresso do GIFE, que reúne fundações, institutos e empresas responsáveis por mais de R$ 5 bilhões ao ano, trouxe a desconcentração de poder, conhecimento e riqueza como tema central. Em Fortaleza (CE), de 7 a 9 de maio, mais de 30 mesas deram palco e público à diversidade racial e territorial, com lideranças negras e periféricas em destaque. Mas faltou algo essencial: prática e transparência nas estratégias de apoio e financiamento.

Como acessar os financiadores presentes? Como entrar em contato com quem sequer ocupou os estandes? Quem são as pessoas por trás da filantropia? Para muitas organizações da Rede Énois, era a primeira vez tão perto da filantropia – e ainda assim, tão longe. A maioria dos operadores segue sendo branca, de classe alta, distante das realidades das periferias e territórios rurais, por exemplo.

As falas mais fortes – como a de Bianca Santana, pedindo “parem de fazer planejamento estratégico”, ou de Lígia Batista, exigindo reciprocidade nos relatórios – foram aplaudidas. Mas a operacionalização prática dessas provocações seguiu ausente. Raras mesas promoveram diálogo real, trocas concretas ou caminhos de articulação.

É urgente uma filantropia comprometida com coletividade, construção de agendas comuns e abertura de caminhos conjuntos. Precisamos superar o culto ao fundador, a competição entre organizações e os processos verticalizados. Um exemplo positivo veio da roda de conversa que ocupou o estande vazio da Open Society: quase 30 mulheres negras discutindo os desafios da liderança social e reivindicando estratégias acessíveis para quem não encontra o financiador na fila da escola dos filhos.

Como disse Yane Mendes,comunicadora e cineasta periférica, em uma das mesas: “a paz é branca”. A filantropia pode ser parte da construção da paz, mas precisa agir com urgência. As eleições de 2026 já começaram – e sequer foram mencionadas no congresso. É hora de parar de planejar e começar a redistribuir esse poder.

A filantropia não tem todas as respostas. Quem cuida das agendas e da articulação são as organizações sociais. A filantropia é só um dos caminhos.

texto por simone cunha, diretora de desenvolvimento institucional da Énois.

O ano é 2025, e os olhos do mundo estão voltados para a região Norte do Brasil

O ano é 2025, e os olhos do mundo estão voltados para a região Norte do Brasil. Mas a relação da Énois com esse território não é de agora. Mesmo nascida em São Paulo, nossa conexão com o Norte vem sendo construída há anos, em parceria com coletivos e comunicadores que hoje fazem parte da rede que fomentamos.

Em 2022, fortalecemos os laços com a segunda edição do programa Diversidade nas Redações, dedicado ao desenvolvimento institucional de iniciativas de jornalismo independente no Norte e Centro-Oeste. Foi um período intenso de trocas e aprendizados ao lado do Tapajós de Fato (PA), Carta Amazônia (PA), Correio do Lavrado (RR), Rondon Oficial (RO), Redação News (PA), Portal Manaós (AM) e Tocantins em Foco (TO), para destacar somente as organizações da região Norte.

Entre 2022 e 2023, aprofundamos ainda mais essa presença ao realizar cinco ciclos de formação do programa Jornalismo e Território – edição Justiça Climática, voltado para comunicadores de toda a região. Durante essa jornada, estreitamos laços com iniciativas como Abaré Jornalismo (AM), Maré Cheia Produtora (PA) e Na Cuia Produtora Cultural (PA), além de diversos outros comunicadores e comunicadoras.

Foi no TechCamp, em 2023, que essa conexão ganhou um novo significado. Pela primeira vez, representantes de iniciativas periféricas de todo o Brasil puderam vivenciar Belém e a região Norte de uma forma mais afetiva e visceral. Para muitas dessas organizações, esse contato direto com os saberes, territórios e comunicadores locais foi uma experiência transformadora.

Ao longo do evento, reunimos 60 representantes de iniciativas de jornalismo e comunicação independente de todo o Brasil para formações e mentorias. Além de um momento de muito aprendizado para a Énois, o TechCamp marcou uma virada de chave na forma como co-criamos nossos projetos: agora, com uma abordagem ainda mais descentralizada e fortalecendo pontes que antes pareciam distantes.

Ter construído essas relações ao longo dos anos significa muito para a Énois. Mais do que uma presença institucional, essa trajetória reflete um compromisso real com o território, com as pessoas e com a comunicação popular que nasce a partir dessas conexões.

Agora, em 2025, começamos o ano com uma edição especial do Prato Firmeza, o projeto mais longevo da casa, desta vez mergulhando na culinária de Belém e Manaus. Essa iniciativa vem sendo gestada desde 2021, com a consultoria da Clarinda Sateré Mawé, antropóloga e chef de cozinha da Casa de Comida Indígena Biatüwi, de Manaus.

Junto ao Tapajós de Fato, Puxirum do Bem Viver, Rede de Comunicadores da COIAB, Amanda LeLibras e outros profissionais da região, estamos cocriando um livro sobre a gastronomia das quebradas de Belém e Manaus. Porque contar essa história é também resgatar as raízes da culinária brasileira e sua conexão com os territórios e saberes ancestrais.

Texto por Jessica Mota, coordenadora do laboratório Énois

É com presença nos territórios que desarmamos a desinformação

Se por um lado vemos o enfraquecimento de maneiras de qualificar o acesso à informação nas redes sociais, e o avanço de estratégias de desinformação também no offline, por outro, aqui na Énois, temos experimentado maneiras de fortalecer o tecido social por meio de acesso de informação verificada e de qualidade.

Entendemos que fortalecer o tecido social é fortalecer as conexões e discussões no “mundo real”. Em encontros que acontecem corpo a corpo. No ano passado, com o programa Diversidade nas Redações 3: Desinformação e Eleições, tivemos diversas experiências que promoveram esse fortalecimento.

Pudemos perceber como, ao abraçar a proposta de promover eventos de discussão sobre desinformação, esses espaços se tornaram potência de articulação territorial entre as iniciativas de comunicação popular e jornalismo com outras organizações e pessoas nos territórios que atuam. São pessoas se juntando a outras pessoas com o objetivo de melhorar o acesso à informação verificada em cidades como Belém, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Juazeiro e São Paulo.

Para algumas iniciativas de comunicação, não foi uma novidade, mas um impulsionamento para ir mais longe. Para outras, foi uma virada de chave.

O evento da Agência Carta Amazônia, em Belém, reuniu a diretora de uma escola municipal localizada na Ilha do Combu, um vereador, membros dos sindicatos de jornalistas e familiares.

Em Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, a Agência Lume reuniu organizações de diversos setores que atuam na favela para promover a troca de experiências e diálogos em prol da região de Rio das Pedras e da Baixada de Jacarepaguá.

O Nonada conseguiu articular com um coletivo de Slam para realizar uma batalha de poesias sobre desinformação para uma turma do Ensino de Jovens e Adultos de Porto Alegre, durante a Feira do Livro local.

O Sul21, também de Porto Alegre, encerrou o programa com um encontro sobre informação falsa junto a um grupo de trabalhadoras domésticas.

O Carrapicho Virtual, de Juazeiro, na Bahia, realizou eventos com jovens que passaram a mapear a desinformação em seu território, no sertão baiano, e a carregar esse conhecimento consigo.

A gente acredita que a desagregação social é também uma estratégia de desinformação. Promover encontros e seguir apoiando iniciativas que fazem o debate acontecer no chão pode parecer pequeno, mas tem efeitos profundos e transformadores para quem vive esses encontros. Que lembremos disso durante os próximos meses.

Texto por: Jessica Mota, coordenadora do Laboratório Énois

A gente sempre foi um bonde

A gente sempre foi um bonde

Oi! Aqui é Glória Maria, comunicadora institucional da Énois. 

Continuo com a missão de ocupar a newsletter Énois que tá junto! com histórias dos nossos 15 anos de existência. 

Pois bem.. eu e Helena Dias, coordenadora de Comunicação Institucional da Énois, no final de junho, fomos à casa de Amanda Rahra, co-fundadora e diretora de Mobilização, acompanhar o preparo do bolo de aniversário da organização, apesar da nossa festa estar prevista para o final do ano. Foi tipo o primeiro bolo da comemoração. 

Enquanto Amanda misturava os ingredientes e ajustava o forno, a gente conversava sobre o nascimento da organização e, principalmente, sobre o nome “Énois”. Para mim, é uma gíria que demonstra coletividade como “Tamo junto!”, por exemplo. 

Amanda Rahra lembrou que a ideia do nome surgiu na Casa do Zezinho, nosso primeiro espaço de atuação, onde ela e Nina Weingrill, também co-fundadora da Énois, davam formação para jovens do ensino médio e produziam a Revista Zzine, revista que por cerca de três anos foi a materialização da Énois. 
A escolha foi feita com a própria turma de jovens. Todos estavam de acordo que seria uma Escola de Jornalismo das quebradas. Mas, como nomear? A dúvida durou por um bom tempo. Vieram outros momentos, trabalhos e projetos. Captações e parcerias (muito bem contadas no nosso livro de 13 anos… Já leu?). 

Em meados de 2012, o entendimento de que a Énois precisava se tornar uma organização tomava corpo e a decisão coletiva foi fazer acontecer. Neste momento, a galera disse: "É nós, vamos fazer!". E assim o nome ficou. 

Pesquisando sobre a expressão, Amanda compartilhou com o grupo a definição de Noemi Jaffe que diz que "Nois é tudo", uma concordância do "é" com "nós". "Esse conceito sintetiza perfeitamente a ideia de grupo, de coletividade. Foi essencial para fortalecer o nosso coletivo, pois sempre fomos um bonde, um grupo unido. A escolha do nome 'Nois' refletia essa união", acrescenta Amanda. 

Nessa altura da história, na casa de Amanda, em 2024, direto de São Paulo, o bolo de cacau já estava no forno… E refletimos sobre como a receita que fez a Énois é parecida com a mistura de ingredientes que a gente acabava de ver acontecer. 

Enquanto Amanda batia o bolo, ela pontuava que estava fazendo sem saber fazer. Ficou uma delícia! E com a calda de cacau e morangos, então? 

A Énois nasceu assim, ninguém sabia direito como fazer uma Escola de Jornalismo. Cada pessoa envolvida tinha uma parte do conhecimento. Um sabia fazer clara em neve, outro tinha cacau do Pará e outro sugeriu ralar o chocolate em vez de derretê-lo. 

"Fomos construindo esse bolo juntos, experimentando e aprendendo na prática. Essa é a essência da Énois: um processo coletivo de construção, em que cada uma contribui com o que sabe e todos aprendem juntos", conta Amanda. 

A nossa caminhada desses 15 anos é como um bolo que nunca está totalmente pronto. Acreditamos e estamos sempre compromissadas em melhorar. "E se colocássemos um pouquinho de canela? E se tivéssemos adicionado pedaços de chocolate no meio? E as castanhas?". 

A nossa jornada é contínua, uma construção constante. Nois não é um bolo de pote, com fatias pré-definidas. É um bolo com muitas fatias, sempre em transformação.

Estamos aqui, crescemos nesses 15 anos. Erramos, acertamos e expandimos. O objetivo, que mais tem cara de processo, é entender como podemos impulsionar cada vez mais a nossa Rede Énois. 

Cada iniciativa que integra a nossa rede traz um ingrediente novo com o qual aprendemos. A receita do bolo e da Énois pode se renovar diversas vezes, mas a essência é inegociável: coletividade e partilha. 

Gostou dessa história? Fica por aqui! A gente ainda tem muito o que contar nesses 15 anos. 

Eu tenho uma história de amor com a Énois

Oi! Aqui quem escreve é Glória Maria, comunicadora institucional da Énois.

Se você acompanha o trabalho da Énois com frequência, deve ter notado que colocamos a nossa campanha de 15 anos na rua, com um manifesto que resgata a história da organização no mesmo passo que alimenta as nossas perspectivas de futuro impulsionando o jornalismo diverso, feito em territórios populares Brasil afora e, quiçá um dia, na América Latina.

Falo sobre isso porque trago novidades na volta da nossa newsletter “Énois que tá junto!”. Esse espaço continuará sendo ocupado por histórias do jornalismo local com a Énois, mas toma uma nova roupagem… Após um mergulho da nossa equipe nesses 15 anos de caminhada, elegemos alguns marcos que precisamos compartilhar com vocês.

Eu diria que, a partir de hoje, contarei histórias de amor com a Énois. E escolhi começar com a minha.

Sou ex-aluna da Escola de Jornalismo da organização, mãe da Emanuele e moradora de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, localizada na Zona Sul da cidade. Me recordo como se fosse ontem… Em 2017, eu era uma jovem negra e de periferia, com 17 anos, que buscava oportunidades gratuitas na área de comunicação. Logo depois de finalizar a formação “Você Repórter da Periferia” do Desenrola e Não me Enrola, encontrei a Énois pelas redes sociais e mergulhei em mais um processo formativo que durou um ano. 

Um ano que mais parecia 10, de tanta transformação e aprendizado…

Neste período, acabei mergulhando também em reflexões e experiências que forjaram muito do que sou hoje. Fui parar no Rio de Janeiro, em meados de novembro do mesmo ano, com minha turma formada por 10 jovens das periferias de São Paulo, para produzir uma reportagem “Conexão Quebrada” em colaboração com o data_labe, em que pautamos o problema de acesso à internet nas periferias cariocas e paulistas.

Minha filha Emanuele, mais conhecida como Manu pelas amizades e a família, tinha 4 anos de idade e pode me acompanhar nessa empreitada. Enquanto eu vivia um intercâmbio de vivências com diversos jovens por meio do jornalismo, ela via o mar pela primeira vez. Amanda Rahra, co-fundadora e diretora de Mobilização da Énois, junto a Gilberto Vieira, co-fundador do data_labe, passaram o dia com ela na praia do Leme.

Manu fascinada pela imensidão azul e com os pés na areia. Eu de olhos, ouvidos e coração atentos à pauta, também parecia ver o mar pela primeira vez. Um outro mar que se chamava jornalismo feito por quem vive a realidade do nosso país.

Foi com essa sensação que me formei jornalista na Énois,  em 2017. O começo de uma trajetória que se conecta com a cultura e diversos outros projetos sociais. Dei umas andadas pela área de cinema, quando peguei experiência com produções audiovisuais. Fiz um freela para a Énois e me tornei residente da área Formação, em que atuei por dois anos, e depois fui para a comunicação. Daqui, escrevo como comunicadora institucional de uma organização em que me formei…

Hoje, toco projetos sociais em Paraisópolis, como o 7 Notas, um estúdio comunitário que realiza formações para músicos das periferias, e que agora toma outros rumos com parceiros como a Canguru Records, um selo da Universal Music, onde nos juntamos dando origem a Canguru Paraisópolis, assim, continuamos abrindo espaço para esses jovens, que muitas vezes não tem condições de pagar para produzir seu som, e distribuir com toda formalização em dia. A estruturação do 7 Notas, também veio de muitas experiências e acessos que tenho dentro da Énois, como uma estruturação de relatório de prestação de contas, meios de captação de recursos, escrita de projetos e outras mil e uma coisas. A Énois também é esse lugar que compartilha e troca conhecimentos,  apoiando iniciativas das periferias como o 7 Notas. 

Hoje, celebro a Énois como uma escola da vida.
Minha história de amor e transformação regada ao compromisso com a diversidade. Em 15 anos, a Énois conseguiu se conectar com muitas pessoas assim como eu. Aqui, tem gente de Paraisópolis, gente da Zona Leste de São Paulo… Gente de todas as regiões do país que vêem no jornalismo um lugar para combater desigualdades e fortalecer seus territórios.

Esse relato é um pouquinho da minha história de amor com a Énois. Me conta… Como chegou aí para você? Por cá, ainda vamos contar bastante coisa nas próximas edições dessa news.

Nas redes sociais, levantamos a tag #EueaÉnois para quem também quiser contar com a gente a sua história de amor com a organização. Bacana, né? Vem com a  gente!

As inteligências artificiais vão acabar com o jornalismo?

De tempos em tempos, quando uma nova tecnologia é criada, surge com ela uma pergunta apocalíptica para o jornalismo.

Se a sua preocupação é com a possibilidade de uma máquina te substituir enquanto jornalista, fica tranquila. Isso não vai acontecer tão cedo. O seu cérebro, o seu corpo e a sua vivência são bem mais complexos e eficientes que um algoritmo.

Existem cenários sombrios? Sim. Também existem muitos questionamentos sobre o impacto do uso das inteligências artificiais no ecossistema da informação e na própria democracia – o que inclui a própria Internet como a conhecemos e a já aguerrida batalha contra a desinformação. 

A newsletter Farol Jornalismo fez um ótimo apanhado sobre essas discussões nesta edição aqui (para os conteúdos em inglês, sugiro a tradução que o navegador Google Chrome possibilita). 

Mas de cara, arrisco a dizer que quanto menos nos deixarmos agir pelo automatismo na cobertura e mais exercitarmos um jornalismo focado nas pessoas, que responda às perguntas óbvias que todos os dias o noticiário deixa passar, mais distante de sermos assimilados pelas máquinas estaremos. Ou de apurarmos e escrevermos como elas.

Afinal, para a pergunta-clichê-apocalíptica temos também a resposta-clichê-renovadora: de que jornalismo estamos falando? Daquele que reproduz estereótipos? Daquele que se baseia numa cobertura cheia de vieses de confirmação? 

Desconfio que nutrir as relações de jornalistas com suas comunidades, fazer de dentro para dentro, nas favelas, periferias e interiores do país, é o que pode garantir não só a integridade da informação, mas a confiança de que essa informação vem de alguém que vive e conhece aquele território. Além disso, é o que pode fortalecer a pluralidade de fontes de informação na Internet, das quais as próprias inteligências artificiais se alimentam e reproduzem. 

"A inteligência artificial é um grande algoritmo de rede neural que analisa um grande volume de dados do que tem na internet”, explicou Rosângela Menezes, jornalista e fundadora da Awalé, na última Redação Aberta. “Na verdade, a gente tem, como comunicadores, o desafio de produzir mais conteúdo focado em quebrar estereótipos. É através dessa produção que nós, enquanto rede de jornalistas, poderemos em algum momento, lá na frente, fazer o ChatGPT identificar não-estereótipos. Na Awalé, por exemplo, a gente só fala de mulheres negras e indígenas".

Pois é. Vamos lembrar que a Internet e seus algoritmos se conformam dentro do mundo em que vivemos. O ChatGPT, por exemplo, se baseia muito em formas de textos e imagens comuns em culturas anglófonas, eurocêntricas, masculinas e brancas.

Toma aí mais um clichê: talvez as inteligências artificiais estejam aí pra nos lembrarem da importância daquilo que nos torna humanos. Nada mais humano que a diversidade e a complexidade.

Dito isso, também é importante reconhecer a potência que o desenvolvimento das inteligências artificiais trazem para esse jornalismo que é produzido a partir e para as periferias do Brasil, sejam elas periferias territoriais, raciais ou de gênero.

Em contextos de poucos recursos financeiros e humanos, ter uma ferramenta para auxiliar gratuitamente cada profissional de uma organização, em diversas tarefas simultâneas, é um ganho e tanto.

"A gente não tem o tempo e nem o privilégio de outros grupos e pessoas que já aprovam grandes projetos têm, de ir pra uma casa de praia escrever projetos de lá”, compartilhou Yane Mendes, da Rede Tumulto, que fica no Recife, na última Redação Aberta. “A gente de favela escreve projeto no meio do ônibus, nas correrias do dia a dia. Isso da gente ficar dizendo que não consegue usar o ChatGPT, a gente tá replicando o que a branquitude quer. Não é sobre capacidade. Quem domina a ferramenta sai na frente e tem o privilégio nessa corrida de acessos a recursos".

Para começar, se você trabalha com informação e trabalho criativo, é preciso estabelecer alguns limites para você, sua equipe e seu público.

"Nossa maior preocupação foi como garantir a credibilidade para o nosso leitor”, explica Lucas Maia, jornalista e sócio-diretor da Agência Tatu, uma equipe de comunicação de Alagoas, focada em jornalismo de dados, inovação no jornalismo e jornalismo investigativo. “A gente criou uma política de uso de IA na redação. A máquina é uma ferramenta, e a responsabilidade de tocar um veículo de comunicação é dos jornalistas. Nunca vamos culpar o erro na máquina. Quando a gente errar, a gente errou".

Na Awalé, startup de impacto social que dá treinamento para mulheres negras e indígenas e tem sede em Santa Catarina, o caminho foi parecido. Rosângela conta que passaram a ter um uso bastante orientado do ChatGPT para não perderem a qualidade no conteúdo, que tem a premissa de ser escrito de humanos para humanos. 

"É o que eu vendo, todo mundo que escreve na Awalé é jornalista. Então tivemos todo um trabalho com a equipe pra entender como usar. Toda vez que a gente tem uma freelancer nova trabalhando com a gente, temos esse trabalho de apresentar os limites e orientar o uso. A gente não usa nas redes sociais, por exemplo, porque em todos os testes que fiz com o ChatGPT, nenhum teve um retorno satisfatório com o que a gente entrega nas nossas redes sociais".

Seja para automatizar tarefas repetitivas ou ajudar com o pensamento criativo de um conteúdo, as inteligências artificiais precisam que você dê comandos bem explicados, objetivos. Você pode escrever do jeito que fala, é até melhor. Mas provavelmente vai precisar de algumas tentativas até chegar a uma resposta satisfatória da ferramenta. Isso porque é preciso saber direcionar bem seu pedido. Se estiver dando muito trabalho, bom, aí a gente volta pro começo: a máquina não vai saber fazer o que só você pode.

Numa conversa que tive com Lucas e Rosângela para a realização da última Redação Aberta, Lucas comentou sobre a diferença entre os resultados de uma imagem que ele e o designer da Tatu pediram para a inteligência artificial produzir. A do designer foi infinitamente melhor, dizendo ele, pelo próprio conhecimento que o profissional carrega.

Reúno aqui algumas dicas compartilhadas por Rosângela e Lucas. Para mais detalhes e para continuar as reflexões sobre o tema, confira a gravação completa do nosso encontro sobre inteligência artificial como ferramenta de apoio nas redações.

1. Produção de roteiro de eventos: quando inserimos o máximo de informações, melhor o ChatGPT responde. Descreva o tema do evento, o perfil das ou dos palestrantes, moderadoras ou moderadores, o objetivo do evento e peça para o ChatGPT perguntar A ideia não é copiar exatamente a proposta, mas usar as informações como guia, principalmente se você não tem experiência em realizar eventos de debate.

2. Resumo de editais: copie e cole o texto do edital no ChatGPT. A ferramenta vai resumir. Depois, você pode fazer várias perguntas pro ChatGPT sobre este edital, como quem pode ou não participar, qual o prazo, etc. Essa utilidade pode ser especialmente útil quando se tem vários editais para ler.

3. Formatação de tabelas de PDFs: esse uso é ótimo para jornalistas que trabalham na apuração de dados fornecidos em tabelas dentro de PDFs. Você copia as informações da tabela no PDF, cola no ChatGPT e pede para que a inteligência artificial produza uma tabela com aquelas informações. Pronto, agora é só copiar e colar para uma planilha, por exemplo.

4. Sugestão de pautas: contextualize sobre o que se tratam as informações fornecidas na tabela anterior e peça para que o ChatGPT dê sugestões de pauta. De novo, a ideia não é seguir exatamente o que a ferramenta propõe. Faça uma análise crítica e utilize as referências para desenvolver suas pautas.

Se quiser continuar essa conversa, responda a esse e-mail! Vou adorar saber o que você pensa sobre o assunto.

Até mais!