2026 chegou. Copa, eleições com IA… e você já está sentindo os desafios deste ano?

Não é novidade que este é um ano que já começou desafiador para a comunicação e para comunicadores das periferias do Brasil. Todos os dias, esses profissionais constroem, tijolo por tijolo, uma comunicação que forma opinião pública em seus territórios e sustenta a democracia no cotidiano.

Apesar de ser uma palavra muito presente no discurso, a democracia ainda carrega fragilidades profundas. A ausência de informações que impactam diretamente a vida nos territórios — em um país onde 30 milhões de pessoas vivem em desertos de notícias — cria um cenário fértil para a desinformação. As consequências são graves e recaem, sobretudo, sobre quem sustenta este país: o povo.

Em 2026, esse contexto se intensifica. O ano é marcado por eleições gerais e por um ambiente informacional cada vez mais complexo. Segundo o DataSenado, sete em cada dez brasileiros já tiveram contato com alguma notícia falsa. Com o avanço da Inteligência Artificial, o volume de vídeos e imagens manipuladas cresce assustadoramente, tornando ainda mais difícil distinguir o que é real. Informar as comunidades, nesse cenário, se torna um dos maiores desafios da comunicação da ponta.

Por aqui, na Énois, temos apostado em novas formas de combater a desinformação e ampliar o acesso à informação. Uma dessas estratégias é o projeto Arte é Informação, que reconhece a arte como linguagem potente de comunicação popular. Apenas no ano passado, a iniciativa formou e interagiu com mais de 100 artistas, comunicadores, lideranças e produtores culturais de cinco periferias da cidade de São Paulo (SP).

12 de julho de 2025 – Turma de pessoas trans do Arte é Informação, no Grajaú (SP)

O objetivo é informar a partir das linguagens que as populações já produzem. Seja por meio de um som, de um grafite ou de uma fotografia, a arte se torna ferramenta de mobilização, diálogo e fortalecimento da democracia.

Em 2026, ano eleitoral, essa estratégia ganha ainda mais centralidade ao manter no foco do debate público temas estruturantes como sistemas alimentares, justiça climática e justiça social. Essa abordagem também se conecta ao Prato Firmeza, ampliando o olhar para outros biomas, como o resultado do Prato Firmeza Amazônia, e traçando outras possibilidades de articulação e mobilização coletiva.

25 de outubro de 2025 – Lançamento do Prato Firmeza Amazônia, que uniu arte, alimentação e clima, em Manaus (MA)

A Énois tem se consolidado como uma fomentadora e articuladora de redes de comunicação periférica em todo o Brasil. Nosso compromisso é fortalecer iniciativas que prestam serviços essenciais às suas comunidades, garantindo que a comunicação tenha condições mínimas de atuação, com estrutura, recursos e equipes capazes de prestar informações de interesse público com continuidade e responsabilidade.

Equipe de colaboradores fixos da Énois

Em 2025, esse compromisso se traduziu em resultados concretos: foram 90 pessoas contratadas em todo o Brasil; mais de 70% das pessoas contratadas são pretas, pardas ou indígenas, e mais de 55% são mulheres. São essas profissionais que tornam possível o exercício coletivo da cidadania e seguem construindo democracia a partir dos territórios. Em um cenário de tantos desafios, é fundamental seguir abrindo trilhas para garantir condições dignas de trabalho para comunicadores e artistas periféricos, assegurando sustentabilidade, cuidado e longevidade para quem informa o país.

O Relatório Institucional da Énois 2025, que estará disponível ainda esta semana no site da Énois, reúne as ações, aprendizados e caminhos trilhados ao longo do último ano, além de nos provocar a seguir fortalecendo perspectivas para 2026. Em um ano decisivo para o Brasil, reafirmamos nossa missão: fortalecer a comunicação comunitária brasileira, apoiar quem informa a partir dos territórios e apostar na comunicação como prática fundamental para a garantia de direitos.

Comer é um ato político e climático: o manifesto do Prato Firmeza Amazônia

A primeira Conferência Climática na Amazônia começa hoje, dia 10, e manterá os holofotes voltados para as negociações e as ações para reduzir os efeitos da crise climática.

Na Énois, falamos dos efeitos do clima no dia a dia, na comida, nos territórios e na justiça social. Nesta COP 30 falaremos por meio do Prato Firmeza Amazônia – Raízes da Culinária Tradicional Brasileira, que valoriza a cultura alimentar da região e registra modos de fazer e produzir o alimento amazônico; sabores da cidade em empreendimentos locais; e mestres e mestras da comida.

Capa: Prato Firmeza Amazônia

Em parceria com Tapajós de Fato (Belém/PA) e Puxirum do Bem Viver (Manaus/AM), essa edição mostra pratos feitos com base em tecnologias de cultivo, conservação e preparo integradas com a vida em volta. Saberes, histórias e resistências que são contadas também nos episódios produzidos por Maickson Serrão, do podcast Pavulagem.

Só que é difícil garantir pratos cheios e saudáveis sem falar também do preço da comida. Afinal, os impostos podem representar até 35% do valor dos produtos de supermercado. Para as famílias mais pobres, o impacto é ainda maior: nas classes D e E, até 50% da renda é comprometida com alimentação, afetando diretamente as periferias. Por isso, esta semana lançaremos no site do Prato Firmeza a Cartilha Prato Firmeza – alimentação, clima e justiça tributária.

Para a Énois, falar de clima na COP da Amazônia é falar da alimentação que adia o fim do mundo e da justiça tributária que aumenta o acesso à comida boa para quem ganha menos.

Se junte ao Manifesto do Prato Firmeza:

Comer é um ato político. E é também um ato climático. O que no prato revela o que cultivamos como sociedade, seja nas políticas públicas, nos territórios ou nas relações com o meio ambiente.

A Énois nasceu da ação nas periferias e nelas aprendemos que a comunicação tem força para mover o cotidiano e transformar realidades. Com o Prato Firmeza Amazônia, afirmamos que a comida é uma das linguagens mais importantes para falar de clima, cultura e justiça socioambiental.

Em dez anos, o Prato Firmeza conectou comunicadores, cozinheiras, chefs, empreendedores e comunidades em todo o país. Mapeamos restaurantes periféricos e fortalecemos o direito à alimentação saudável, valorizando saberes e ingredientes locais.

Discutir alimentação é discutir clima. Os sistemas alimentares, da produção ao descarte, respondem por mais de ⅓ das emissões globais de gases de efeito estufa. Apoiados em monocultura e exportação, envenenam a terra e ameaçam culturas alimentares locais.

As agricultoras familiares e as cozinheiras de bairro, por outro lado, já praticam caminhos sustentáveis, baseados na diversidade e na cooperação. É o que mostra o Prato Firmeza Amazônia, que traduz esses caminhos em histórias reais e experiências que podem inspirar políticas públicas e apontar o papel da cultura alimentar na adaptação à crise climática.

Esses caminhos são resistência. Os sistemas alimentares recebem menos de 3% do financiamento climático global e é urgente investir em práticas justas e sustentáveis nas periferias, com os territórios e para o país. Chamam de blended finance e nós chamamos de rede. Uma coalizão entre filantropia, empresas e poder público para manter viva a comida de verdade, de origem e de futuro.

O Prato Firmeza é a síntese da agenda climática no cotidiano das pessoas. É biodiversidade, saúde e cultura. É o direito de existir e se alimentar no próprio território.

E é também um convite: para que financiadores, parceiros e instituições que acreditam em uma transição justa façam parte dessa construção.

Acesse os produtos do Prato Firmeza Amazônia gratuitamente:

📖 baixe o livro digital [aqui] 🎧 ouça o podcast [aqui]

O prato como chave para entender sistemas alimentares

Comer um prato típico não é só uma questão de gosto, mas também de biodiversidade, saúde, cultura e justiça socioambiental. A culinária local de um território guarda técnicas e conhecimentos essenciais para a nutrição e sobrevivência de um povo. São os sistemas alimentares locais que podem ser vistos como soluções para a vida e para a maior crise que a humanidade enfrenta no momento: a climática.

Sistemas alimentares são as redes que conectam produção, distribuição, consumo e descarte de alimentos, incluindo seus impactos sociais, culturais, econômicos e ambientais. É por meio deles que entendemos como o que vai à mesa está ligado a políticas públicas, ao uso da terra, à preservação da biodiversidade e até à saúde de comunidades inteiras.

Segundo a ONU, eles são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa — e por isso estão no centro das negociações climáticas. De acordo com o Observatório do Clima, “isso ocorre porque os sistemas de produção baseados em monoculturas extensivas e na abertura de pastagens para alimentar rebanhos têm seu modelo econômico fortemente amparado na abertura de novas áreas e no uso de queimadas como ferramenta de manejo.”

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apenas cinco safras – arroz, trigo, milho, painço e sorgo – fornecem cerca de 50% de nossas necessidades energéticas.

Em contraponto, historicamente, modos de vida tradicionais já sustentavam sistemas alimentares diversos, nutritivos e resilientes. Povos indígenas, por exemplo, preservaram cultivos nativos como a mandioca, o açaí e a castanha, fundamentais não apenas para sua sobrevivência, mas também para a segurança alimentar global. No entanto, ainda hoje as políticas públicas de agricultura tendem a priorizar monoculturas de exportação, que envenenam a terra e as águas, empobrecem solos e fragilizam o futuro.

O Prato Firmeza Amazônia, uma iniciativa da Énois, materializa esse debate ao traduzir conceitos complexos em experiências cotidianas. Isso porque, a produção alimentar amazônica é chave para reduzir emissões e fortalecer sistemas sustentáveis de produção. E cada história contada no livro e no podcast mostra a relação direta entre um prato e o bioma que o sustenta. Em Manaus, a lanchonete J&J compra direto de agricultores orgânicos locais. Em Belém, o Delícias do Bosque serve açaí vindo de quilombolas do Tororomba. São exemplos que revelam como a gastronomia de base comunitária, periférica e orgânica tende a ter baixa emissão de carbono, ao evitar grandes cadeias de produção e transporte, valorizando a biodiversidade e fortalecendo economias locais.

E essas também já sentem nitidamente os impactos da crise climática. Em época de cheia do rio Negro, em Manaus, seu Frank Hudson, que está à frente da Peixaria do Jokka, negócio familiar, observa que as alterações no movimento das águas influencia o custo do pescado. “Às vezes o rio não chega a passar do nível dos lagos, para que saiam os peixes que estão dentro dos lagos. Só quem conhece mesmo pode pegar esse peixe lá nas fronteiras, para poder trazer para casa. Isso tem um custo muito alto. Quando chega aqui, está caríssimo.”, completa.

Em Santarém, Orleidiane Tupaiú, na Aldeia Aminã, nos lembra que alimentar é também preservar território, cultura e saúde frente ao contexto.“As mudanças climáticas podem afetar a produção e a disponibilidade de alimentos tradicionais e principalmente, muita perda de conhecimento tradicional”, afirma com preocupação. Ou seja, manter a lógica do sistema alimentar que se baseia na monocultura que visa a exportação e o desmatamento, predominando apenas o lucro no lugar da segurança alimentar brasileira é uma sentença de morte para culturas alimentares locais e para comunidades que vivem do que plantam, e do que podem fornecer, em pequena escala, para comunidades vizinhas. Esse olhar para sistemas alimentares e para a gastronomia local se torna ainda mais urgente quando lembramos que apenas um em cada três jovens no Brasil sabe em qual bioma vive, segundo pesquisa de 2023 da Aliança Em Movimento. Sem compreender os biomas, fica impossível construir soluções justas para a crise climática que discutam o papel da indústria da alimentação e das opções que governos e empresas têm feito quando privilegiam a monocultura e a produção de gado extensiva. O dado escancara uma desconexão perigosa entre vida cotidiana e território, que só pode ser revertida com educação, cultura e informação acessível.

E você, conhece as frutas, carnes e vegetais típicos do bioma em que vive? Consegue encontrá-los com facilidade e a um custo acessível? Responder a essas perguntas já é se colocar dentro da discussão sobre sistemas alimentares e clima.

“Ao levantar essa discussão a partir de histórias de empreendedores das periferias e lideranças comunitárias com o Prato Firmeza, queremos trazer a conversa pra concretude do dia a dia. Mostrar como discutir sobre alimentação é indissociável do debate sobre racismo ambiental, sobre crise climática e sobre políticas públicas”, afirma Jessica Mota, coordenadora do projeto na Énois.

O Prato Firmeza Amazônia mostra, por meio de textos e do podcast, que comer é também um ato político e ambiental e que, para isso, democratizar informações sobre cultura alimentar pode ser um caminho para garantir o acesso de mais pessoas a uma alimentação adequada. Ele é um espaço de mapeamento, valorização e informação sobre as espécies usadas na alimentação amazônica.

Valorizar ingredientes, saberes e histórias locais significa preservar patrimônio genético e cultural. O Prato Firmeza Amazônia convida as pessoas a se reconhecerem em seus territórios, a defenderem os biomas e a perceberem que escolhas alimentares são escolhas de futuro. Afinal, se a crise climática é global, a resposta pode começar no prato.

Empreender ou precarizar? O nó do trabalho em jornalismo e comunicação

Em apenas uma década, quase 1 em cada 5 empregos formais no jornalismo desapareceu. No mesmo período, ganharam corpo iniciativas independentes de jornalismo e comunicação, alternativas aos grandes conglomerados, e que buscam, em meio a tantas dificuldades, reinventar sua própria sustentabilidade.

Temos então, um ecossistema frágil de trabalho: menos estabilidade e mais precarização, marcada por terceirização e pejotização. Onde empreender, muitas vezes, não é opção, mas necessidade. Nós já falamos um pouco sobre isso em artigo publicado pela diretora de sustentabilidade da Énois, Simone Cunha, e pela coordenadora da pesquisa da Retrato do Jornalismo Brasileiro, Angela Werdemberg.Como o estudo Retrato aponta, nesse ecossistema temos, de um lado, muitas mulheres negras e periféricas que têm de pagar para manter suas iniciativas. São CEOs voluntárias, como descreve o CEERT, parceiro da Énois na pesquisa. De outro, jornalistas homens brancos desenvolvendo suas iniciativas e conseguindo contratar até 5 funcionários.Você pode ler mais sobre isso nesse post.

A professora Roseli Figaro, coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (ECA-USP), que estuda as mudanças trabalhistas na área há 20 anos, aponta que essa não é uma crise pontual do jornalismo ou da comunicação. Outras áreas, como a educação e as artes, passam pelo mesmo. Isso porque, como destaca Figaro, “a agenda contemporânea dos últimos 20 anos do neoliberalismo é extrair mais valor do trabalho”. O que, por meio de uma campanha narrativa e ideológica, transformou a luta por direitos em “coisa de quem não quer trabalhar”. Esse processo, agravado pela crise de 2008, pela ascensão das empresas de plataformas digitais e pela pandemia, caminhando para um agravamento.

Figaro alerta que com a chegada da inteligência artificial generativa, há risco de uma banalização do trabalho humano, transformando quem não se encaixa no modelo de “empreendedor de sucesso” ou “influencer”, em cidadãos de segunda categoria, forçados a sobreviver em condições cada vez mais frágeis.”Isso não vai parar, isso vai se aprofundar. Com a inteligência artificial generativa, nós vamos ter um aprofundamento ainda maior com a precarização e a desespecialização e a banalização do trabalho humano. Quem não pode ser um influencer, quem não é um sucesso como empreendedor, passa a ser um cidadão de segunda categoria que tem que trabalhar em condições vis para sua sobrevivência”, alerta Roseli.

Enquanto se enfrenta esse cenário, as condições de trabalho obrigam a ceder um recurso valioso que comunicadores e jornalistas têm em suas mãos: o conhecimento sobre nosso ofício.

Todos os dias, sem sequer perceber, quando ligamos o computador ou pegamos o celular para trabalhar, livremente fornecemos dados que são usados por Google, Meta e Microsoft para gerarem novos produtos que serão vendidos a nós para seguir fazendo um trabalho precarizado. O centro de pesquisa tem estudado essa realidade e também acompanhado de perto, desde 2010, organizações fundadas por jornalistas para produzir jornalismo de qualidade, voltado a causas populares e democráticas.

Depois da pandemia, os pesquisadores e pesquisadoras da USP queriam saber como estavam as iniciativas. Das 70 inicialmente levantadas, 47 ainda estavam ativas. Essas iniciativas resistem, mas em condições de dependência tecnológica cada vez maiores.

Diante do cenário de precarização e dependência das plataformas digitais, surgiu no CPCT a pesquisa “Datificação da atividade de comunicação e trabalho de arranjos de comunicadores”, financiada pela FAPESP. Ela analisou os termos de uso dessas empresas, revelando que todas reivindicam posse e uso dos dados de usuários de forma dissimulada.

“Você tem que se aprofundar na leitura e na investigação pra chegar nessa conclusão de que todas elas fazem isso. E ainda assim, não temos clareza para que usam os dados”, aponta Figaro.

O CPCT também levantou como as big techs operam financeiramente, como os dados são capturados, como registram patentes e transformam dados em novos produtos. No início de novembro, um relatório sobre o perfil das empresas será publicado no site da pesquisa.

O ponto é que a questão é estrutural e coletiva: exige movimentos organizados que reconheçam o trabalho comunicacional como valor e reivindiquem direitos também sobre os dados gerados no processo.

Exigem o entendimento do campo da comunicação como uma classe de trabalho, uma articulação pela valorização do trabalho, que traria benefícios e estabilidade a todos.

“Se essas iniciativas jornalísticas têm de fato interesse na democracia e no bem estar da população, precisam se ver dentro desta luta. Não existe um planeta em que a gente possa se refugiar dessas condições. Não é com a verba do Soros, da Ford, etc, que nós vamos resolver esse problema. Essa é uma saída individual”, provoca Figaro.

“O problema é muito maior. A gente tem que se olhar nesse conjunto. De fato ter elementos pra provar que o nosso trabalho está sendo espoliado e estamos passando por uma despossessão do nosso saber fazer, e isso vale muito dinheiro. Precisamos provar isso e fazer um movimento pra exigir o que é nosso.”

Enquanto o STF não decide sobre a legalidade da pejotização, sindicatos e coletivos lutam por contratos mais justos, pisos salariais e canais de denúncia.

Paralelamente, o Atlas da Notícia 2025 mostra uma queda nos desertos de informação, puxada por veículos digitais e comunitários.

É um sinal de resistência, mas a manutenção e sustentabilidade a longo prazo dessas organizações é ponto crucial para que não reproduzam e nem se deixem capturar pelos mecanismos de exploração.

Na Énois, acreditamos que empreender na comunicação deve significar estruturar trabalho justo e digno, e não precarizar. Debater sobre direitos e a datificação do trabalho é disputar também as condições de vida e de democracia para quem faz comunicação nas pontas. Como você e sua iniciativa têm refletido sobre esses temas? Esse debate têm sido levantado nos grupos com os quais você se relaciona? Que soluções têm sido pensadas coletivamente?

Arte periférica e comunicação popular caminham juntas

Nas periferias, a arte e a comunicação andam de mãos dadas para promover acesso à informação, reflexão crítica e mobilização social

Informação que comunica é aquela que toca, conecta e circula. Não é de hoje que a arte, com sua multiplicidade de formatos e linguagens, é aliada da comunicação. Brasil afora, coletivos de periferia têm dominado práticas artísticas que se transformam em estratégias comunicativas autônomas e sensíveis às realidades locais.

No Maranhão, acompanhamos o Reocupa, coletivo que realiza ações artístico-culturais para mobilização social. Este ano, produziram um mural em grafite junto a artistas parceiros, no muro de uma escola de São Luís, para fomentar a discussão sobre crise climática. Para o segundo semestre, o coletivo segue com um projeto de empena e intervenções artísticas focadas na Amazônia Legal. “Acreditamos que o grafite tem o poder de comunicar questões sociais e ambientais de maneira direta, sensível e transformadora”, destaca Kadu Vassoler, um dos coordenadores do projeto. “Além disso, a iniciativa contribui para a revitalização de espaços públicos e para a promoção da identidade cultural local.”

Durante crises, esse tipo de comunicação ganha ainda mais força. Na pandemia, por exemplo, ações como a coalizão #CoronaNasPeriferias provaram que materiais criados com linguagem local — como vinhetas, lambe-lambes e conteúdos digitais — salvaram vidas ao distribuir informação confiável nos territórios.

A criação de narrativas com linguagens próprias permite que comunidades interpretem e ressignifiquem os conteúdos que normalmente chegariam apenas pelas mídias institucionais. Funciona também como uma estratégia transmídia. Em vez de apenas replicar o conteúdo, cada meio (vídeo, poesia, mural, podcast, reportagem, performance etc.) contribui com uma parte nova da narrativa, ampliando a experiência de quem consome — e, principalmente, de quem participa da criação.

No contexto das periferias, essa abordagem permite que artistas e comunicadores ocupem diversos espaços de circulação da informação — das redes sociais aos muros da quebrada, dos saraus às rádios comunitárias — usando múltiplas linguagens para engajar, informar e mobilizar.

Aqui na Énois acompanhamos e fomentamos o trabalho de pessoas que caminham de mãos dadas com a arte e a comunicação desde nosso surgimento. Em diferentes momentos, em slams e saraus, levamos informações apuradas e embasadas, por meio de formações ou ações culturais. “Disputamos, inclusive, o nome jornalismo, que vem carregado de um formato, formalidade e distanciamento”, comenta Simone Cunha, diretora de sustentabilidade da Énois. 

“A arte é uma ferramenta de combate para chegar às pessoas e fazer parte de suas vidas ao escutar, conectar e emocionar. São atributos que estão em falta no ecossistema tradicional de informação, mas que são essenciais quando a gente tem a função social de fortalecer o tecido social, aquilo que o jornalismo busca fazer”, completa Simone.

Equipe Énois, participantes e facilitadores do Arte é Informação no espaço das Travas da Sul, no Grajaú, zona sul de São Paulo. Crédito: Divulgação/Énois


Foi com essas premissas que colocamos de pé o Arte é Informação, projeto novo da Énois que mira em promover encontros para que artistas periféricos acessem conhecimentos sobre justiça climática, comunicação, jornalismo e profissionalização. Os encontros aconteceram em São Paulo, nos bairros do Grajaú, Brasilândia, São Mateus e Paraisópolis, nos meses de julho e agosto.

Não se trata apenas de distribuir conteúdo. É sobre traduzir temas urgentes como crise climática, racismo ambiental e direitos básicos em linguagens acessíveis, emocionantes e enraizadas. E isso é importante para o desenvolvimento de sujeitos críticos e informados, com autoestima e laços coletivos reforçados.

“A formação sobre clima e periferia me fez pensar na intersecção entre arte e clima e em como podemos comunicar essa grande questão que chega nas periferias. Saber mais sobre a Lei de Acesso à Informação me fez entender que tenho o direito de saber, e vai me ajudar a fazer minhas próprias pesquisas”, compartilhou DasNuvens, grafiteira e produtora cultural que participou do encontro em São Mateus.

Ao lado de artistas como Soberana Ziza (@soberanaziza)Brisa Flow (@brisaflow)APÊAGÁ (@apoetapeaga) e Mano Mike (@manomikemc), os encontros do projeto revelaram como a arte comunica o território e ressignifica espaços desvalorizados — transformando paredes em telas, ruas em galerias vivas e a comunicação em construção coletiva. As oficinas com Nazura, sobre portfólio e autoestima profissional, e com Lucas Veloso, sobre jornalismo de quebrada, fortaleceram práticas de documentação e apresentação do trabalho artístico como forma legítima de informação. Já a formação sobre crise climática e racismo ambiental, com Amanda CostaGabriela Alves e Mahryan Sampaio, conectou arte, política e território a partir da vivência das juventudes periféricas.

Equipe Énois, participantes e facilitadores do Arte é Informação no espaço do São Mateus em Movimento, em São Mateus, zona leste de São Paulo. Crédito: Divulgação/Énois


Para Kevin Nascimento, fotógrafo da Brasilândia que participou dos encontros, “todo artista que trabalha com imagem também deveria ter esse viés da comunicação com a arte, porque é comunicar sua quebrada, seu bairro, onde você mora, através da arte.”

A escolha dos territórios do Grajaú, Brasilândia, São Mateus e Paraisópolis não foi aleatória. São espaços pulsantes de produção cultural, organização política e narrativas próprias. As atividades aconteceram em parceria com os coletivos locais Travas da Sul, PiPA, São Mateus em Movimento e Estúdio 7 Notas, com parceria do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis (PECP) e financiamento do Consulado da Alemanha e da emenda parlamentar municipal de São Paulo.

Equipe Énois, participantes e facilitadores do Arte é Informação no espaço PEC (Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis), em parceria com Estúdio 7 Notas, zona sul de São Paulo. Crédito: Divulgação/ Énois

Ao reunir artistas, comunicadores e lideranças locais, o projeto reforça que a arte periférica é uma estratégia concreta de comunicação comunitária, capaz de gerar informação confiável, fortalecer identidades, promover engajamento e influenciar políticas públicas. Nas falas, grafites, poesias e músicas, vimos uma comunicação feita de corpo presente, com escuta, responsabilidade e pertencimento.

Acompanhe os próximos passos do Arte é Informação nos canais da Énois e siga com a gente fortalecendo essa rede. Que tal buscar os artistas periféricos do teu território, acessar seus trabalhos e ampliar seus trabalhos?

A comunicação que constrói, não odeia

Tem algo no DNA da Énois que atravessa o tempo e as pessoas que fazem essa organização. Se resume em uma palavra com a qual quem nos acompanha também se reconhece: diversidade. Com ela, vem o cuidado, que se tornou a metodologia da Énois de trabalho, de relacionamento e de fazer comunicação.

Em um cenário em que o ódio virou linguagem política e o desamparo é estruturado, comunicar com afeto e respeito à inclusão é uma escolha radical. Uma escolha que inspira a Énois e é fio condutor do que fortalecemos e transformamos — e que se aprofunda nas palavras da jornalista, professora e conselheira da Énois Fabiana Moraes, ao defender um humanismo radical como única saída.

Foi o que ela escreveu em uma coluna publicada em janeiro deste ano, em resposta a um cenário de retrocessos democráticos no Brasil e no mundo, se referindo a um conceito cunhado pela escritora Sylvia Wynter. “Ele só é possível quando não permitimos que certos seres humanos sejam considerados mais humanos do que outros. Parece óbvio. Mas não é”, disse ela no texto.

mapeamento de Gênero, Raça e Território (GRT), feito pela Énois, é um exemplo concreto disso. A partir dele, entendemos que mais de 50% das pessoas que participam dos nossos projetos são mulheres negras periféricas, lideranças de comunicação em seus territórios.

Rede Énois reunida para o TechCamp Belém, que aconteceu em 2023. Foto: Glória Maria/Énois

Esse olhar para gênero, raça e território orienta o quem, o como e o porquê das nossas ações. “Olhar para gênero, raça e território se tornou o cerne da nossa atuação. Nossa comunicação não faz sentido se não enfrentar o machismo, a cisnormatividade, o racismo e a exclusão dos territórios periféricos”, comenta Jessica Mota, gerente na Énois.

Criamos práticas que integram metodologias de escuta ativa às rotinas da comunicação, reconhecendo o afeto como ferramenta de gestão e criação. Desenvolvemos um protocolo de saúde mental para redações que propõe práticas de cuidado coletivo como resposta ao adoecimento de quem comunica — especialmente nas periferias.

Ao lado do cuidado, a descolonização das narrativas também se tornou parte da nossa prática cotidiana. Compartilhamos caminhos sobre isso no texto Como colocar escuta e descolonização em prática no jornalismo, onde propomos uma comunicação que reconhece os saberes populares, enfrenta os apagamentos simbólicos e amplia as vozes que historicamente foram silenciadas.

Para a Énois, comunicação tem sentido quando impacta positivamente as comunidades que a produzem e recebem. Foi com essa premissa que sistematizamos um conjunto de orientações em Como fazer e medir um jornalismo que impacta as comunidades. É um convite a avaliar o sucesso de um projeto não apenas por números, mas pela transformação real no território.

“No campo da comunicação, esse humanismo pode ser compreendido como uma prática que tensiona as hierarquias narrativas. Ele exige que questionemos não só quem fala e quem é ouvido, mas também quais vidas são reconhecidas como dignas de serem narradas com profundidade e complexidade. Trata-se, portanto, de uma postura ética e política que recusa a objetificação ou a estigmatização das pessoas retratadas — especialmente quando essas pessoas pertencem a grupos racializados, periféricos ou subalternizados”, explica Fabiana.

Fabiana Moraes (à direita) participou do Lançamento de livros no 18º Congresso da Abraji (2023). Foto: Pedro Moreira/Abraji

Sabemos que estamos na difícil disputa por um futuro que fortaleça as relações comunitárias para a maioria da população brasileira, que é negra e está nas periferias. Relações essas que são fundamentais para a manutenção do tecido social.

Sabemos que a informação, em texto, em imagem, em áudio, é fundamental para esse processo. Se não fosse, não haveria tanto dinheiro e tempo sendo investido em financiar narrativas de segregação, discriminação, ódio e desinformação, das mais escancaradas às mais sutis, com o objetivo de enfraquecer comunidades para manipular decisões políticas.

“A comunicação comunitária e periférica pode, sim, ser vista como expressão concreta desse humanismo radical. Esses projetos — muitas vezes fora dos grandes centros de produção midiática — não apenas informam, mas criam sentido a partir de vivências locais, resistindo a uma lógica centralizadora e desumanizante que ainda estrutura boa parte da mídia tradicional”, ressalta nossa conselheira. “Eles constroem outras epistemologias, pautadas na experiência direta, na escuta coletiva e na atuação política enraizada. Aplicar o humanismo radical à comunicação significa também recusar o distanciamento seguro, muitas vezes confundido com neutralidade, e compreender o fazer jornalístico e comunicacional como parte ativa da disputa por reconhecimento, memória e justiça.”

A premissa do humanismo radical é também algo que acompanha a estrutura e a área de Relações Humanas (RH) da Énois. “Com escuta, diálogo, conhecimento e adaptação — nossos novos valores — seguimos firmes no propósito de fortalecer coletivos de comunicação nas periferias, sem perder de vista quem torna isso possível: a nossa própria equipe”, explica Alexia Oliveira, responsável pelo desenvolvimento de dois novos movimentos internos muito importantes na organização.

Um deles é a avaliação de desempenho, que teve seu primeiro ciclo rodado em junho, e que trouxe a possibilidade de humanizar o trabalho ao propor um momento em que cada pessoa pode olhar para o seu caminho, reconhecer suas potências, identificar pontos de atenção e, principalmente, construir planos de desenvolvimento de forma conjunta com suas lideranças. Também é uma forma de garantir mais justiça nas decisões, promovendo um ambiente mais coerente entre entrega, reconhecimento e oportunidade.

O outro é a política de cargos e salários, que ainda está em aprovação, e vem pra organizar nossa casa com mais transparência. Ela propõe um modelo estruturado de níveis, faixas salariais e escopos de trabalho, pensado de acordo com a realidade da Énois — e com o compromisso de reduzir desigualdades internas, dar mais previsibilidade para quem está aqui e orientar processos futuros de contratação, movimentação interna e crescimento.

Mas, como fazer isso num cenário em que nossa sustentabilidade financeira ainda depende majoritariamente da filantropia e de leis de incentivo que quase nunca destinam recursos para o fortalecimento institucional? Transparência, valorização e cuidado com as pessoas não são luxo — são base pra qualquer organização que queira existir de forma coerente com os valores que carrega. Alô, filantropia:fortalecer o institucional é fortalecer o impacto.

Nossa atuação pode ser uma gota no oceano. Mas como fala um personagem do filme “A Viagem”: “o que é um oceano se não um infinito de gotas?”

E por aí, qual tem sido sua contribuição nesse oceano de gotas da comunicação que abraça o humanismo radical? Responde pra gente ou compartilha no grupo da Rede Énois no WhatsApp. A gente te escuta.

Thiago Castanho: “Amazônia pode saltar do estereótipo da ‘comida diferente’ para protagonismo global”

Há milhares de anos a cultura alimentar amazônica aponta caminhos de resiliência à crise climática, diz chef paraense na introdução do próximo Prato Firmeza, raízes da culinária brasileira.

Estamos a todo vapor na produção de uma edição do Prato Firmeza voltada à culinária amazônica. O “Prato Firmeza Amazônia: raízes da culinária brasileira” nasceu três anos atrás, antes sequer de sabermos que se avizinhava o anúncio da realização da Conferência das Partes (COP) na região e, especificamente, em Belém, capital paraense. A COP, para quem ainda não está totalmente por dentro, é a reunião anual dos representantes de países e territórios signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

Já naquele momento, entendemos que mais que um guia que mapeia iniciativas de gastronomia nas periferias, o Prato Firmeza havia se tornado uma plataforma para discussão sobre comida, segurança e cultura alimentar. Mergulhamos na discussão sobre as raízes da comida brasileira por meio da comida indígena e do olhar para esse território que ocupa mais da metade do mapa brasileiro. Porque é na Amazônia onde ainda estão preservadas culturas, saberes e tecnologias alimentares e medicinais que remontam a civilizações milenares. Hoje já sabemos que a floresta amazônica foi construída por um processo agroflorestal, técnica que remonta à presença dos povos indígenas desde doze mil anos atrás, como afirma João Paulo Tukano, doutor em antropologia pela Universidade Federal do Amazonas. Ou seja, o manejo de espécies e plantações que utilizamos até hoje foi impulsionado pela vida em grandes agrupamentos duradouros dos povos amazônicos, com trocas constantes com outras populações, como as andinas.

“Foram desenvolvidas técnicas de cerâmica, arquitetura, de manejo da floresta, da terra, das cachoeiras e rios, técnicas de manipulação e conservação de alimentos, seja de frutas, pescado, caça…”, enumera o professor João Paulo. “Esses conhecimentos se tornaram essenciais para outros povos que habitam a Amazônia e são utilizados atualmente por famílias nesse território. São saberes que foram incorporados não apenas pelos colonizadores europeus, mas também por populações urbanas e ribeirinhas”, conta.

Crédito: Daniel Vinagre / Prato Firmeza Amazônia

Como fala Thiago Castanho, cozinheiro paraense e pesquisador da culinária amazônica, na introdução desta nova edição do Prato Firmeza, “a Amazônia tem a chance de saltar do estereótipo da ‘comida diferente’ para uma posição de protagonismo global. Enquanto o mundo discute como alimentar populações de forma sustentável e regenerativa, a resposta já vem sendo praticada há séculos pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais da Amazônia, que ao longo dos anos vem também perdendo sua soberania alimentar para ultraprocessados da grande indústria”, afirma.

Ele lembra como a mandioca foi classificada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) como uma “cultura do século XXI”, por sua incrível resiliência às mudanças climáticas. Algo que já é de conhecimento de quem planta e colhe mandioca todos os anos.

Crédito: Mácio Ferreira / Agência Pará

As populações das florestas, áreas rurais e periferias urbanas são, ao mesmo tempo, as que carregam saberes essenciais para a segurança alimentar do futuro e as mais sentem os impactos da crise climática. Os rios secam, as cheias acabam com as plantações, as espécies morrem, os frutos e vegetais perdem a qualidade nutricional e o sabor. O alimento fica mais caro, o prato vai ficando vazio. Para quem empreende nas periferias, os insumos vão rareando e tornando o preço final do produto mais caro. O espaço para alimentos ultraprocessados, como Thiago pontuou, se amplia como opção. Do açaí com peixe, passamos ao açaí com mortadela. E mesmo esse fruto típico está escasso nas tigelas e cuias amazônicas, por conta do aumento do preço decorrente da moda procura no mercado externo.

O Prato Firmeza fortalece caminhos possíveis, olhando para a ancestralidade: existem soluções sendo colocadas em prática não só agora, como há milhares de anos, que devem ser valorizadas, conservadas e resgatadas. Destacamos a cultura alimentar amazônica para apontar que existem caminhos que aliam segurança alimentar e conservação, que são resilientes à crise climática, que são tecnologias referência para o planeta.

A discussão sobre alimentação e mudanças climáticas só ganhou força na COP em 2021, com a a Declaração de Glasgow sobre a Alimentação e o Clima. Com a COP chegando a Belém, é urgente colocar a Amazônia como protagonista desse debate.

O Prato Firmeza vem para somar nesse esforço, pautando inclusive a alimentação no próprio evento. Em vez de coordenada por grandes redes de fast-food globais, como costuma ser, a comida na COP deve fortalecer sistemas alimentares justos e locais, como tem pleiteado o Instituto Regenera, a Assobio e a iniciativa Comida do Amanhã com a frente de atuação “Na mesa da COP-30”. Nosso papel está em trazer a macro discussão ambiental para a mesa periférica. Enquanto negociações entre governos e empresas ocorrem longe do cotidiano, as comunidades locais têm dado respostas concretas. Registrar e compartilhar o trabalho de comunidades e pequenos empreendimentos amazônicos é uma ação potente pelo clima. A partir das mesas e da cultura periférica, o Prato Firmeza promove pratos e receitas que estão adiando o fim do mundo.

Cuidar da narrativa é parte da pauta: cobrir pessoas trans com responsabilidade

A forma como contamos essas histórias importa — e pode reforçar preconceitos. Como fazer diferente?

A pauta trans tem ocupado o centro dos debates públicos – e com isso, também os feeds, as redações e os trending topics. O caso da deputada Erika Hilton, que teve seu visto emitido com nome morto e gênero incorreto pelo governo dos EUA, acendeu um alerta. Enquanto isso, empresas e instituições como a USAID anunciam retrocessos em políticas de apoio à população trans. Esses sinais mostram que estamos diante de uma ofensiva coordenada, que usa cargos de poder para minar direitos e identidades.

Organizações trans estão atentas, refletindo as consequências desse cenário, como pontua Caê Vatiero, diretor institucional da Transmídia Jornalismo.

“A avaliação da Transmídia é de que vivemos um momento de tensionamento. Embora haja avanços importantes em termos de visibilidade e reconhecimento, como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) de reconhecimento de gênero neutro e mais universidades aderindo cotas trans, esses direitos continuam sendo sistematicamente atacados por discursos conservadores, políticas excludentes e pela ascensão de uma extrema direita que instrumentaliza o ódio contra pessoas trans para mobilizar sua base. Somado a isso, temos a desinformação, que na nossa avaliação é uma das principais estratégias para atingir vidas trans e travestis.”

Nesse contexto, a comunicação tem um papel decisivo. Não basta acertar nos pronomes ou fazer perfis celebrativos em datas comemorativas. A forma como construímos nossas narrativas pode, mesmo sem intenção, alimentar a transfobia. Quando uma matéria não contextualiza o preconceito estrutural ou destaca polêmicas sem cuidado, ela se torna munição para quem já está mobilizado contra os direitos dessa população. A comunicação não pode, portanto, esquecer que também tem função educativa.

“Não queremos nossas matérias virando combustível para comentários de ódio ou para reforçar a vilanização de pessoas trans. Precisamos reeducar os nossos públicos – e também a nós mesmas – para narrativas mais éticas, cuidadosas, plurais”, alerta Sanara Santos, diretora da Énois e da Transmídia Jornalismo.

Isso não significa que não se deva falar sobre temas sensíveis, como transição de gênero na adolescência ou amamentação por pessoas trans. Mas é preciso saber como contar essas histórias. Quem são as fontes? Qual o título escolhido? Que imagem acompanha o texto? Qual o impacto provável na audiência? O caso recente da Folha de S. Paulo, por exemplo, cuja matéria desembocou em transfobia a partir da realidade da amamentação realizada por pessoas trans, mostra como os veículos podem falhar na abordagem e abrir espaço para o preconceito.

“Acertar o pronome ou incluir uma fonte trans é só o básico. Uma cobertura ética exige centralidade trans na narrativa, com pessoas trans falando por si e também sobre outros temas. É preciso contextualizar as pautas, mostrando as causas estruturais da transfobia e as suas interseccionalidades com o racismo e a misoginia, por exemplo. A presença de jornalistas trans nas redações é outro fator essencial para transformar o jornalismo brasileiro”, reforça Caê Vatiero.

Ser aliado, na comunicação e no jornalismo, não é só ampliar a voz e as pautas, é garantir que essas vozes sejam ouvidas com respeito, contexto e humanidade. E isso exige responsabilidade. Felizmente, existem caminhos e ferramentas para isso.

A Caixa de Ferramentas da Énois reúne materiais que ajudam comunicadoras e comunicadores a repensar suas práticas e a evitar que suas reportagens, ainda que bem-intencionadas, reforcem discursos de ódio. 👉 Bora repensar a cobertura? Acesse e compartilhe com sua rede:

  1. Cuidados básicos com a linguagem ao produzir sobre questões trans
  2. Como falar sobre infância e adolescência trans
  3. Como garantir uma cobertura precisa e sensível das comunidades trans

 Corte de financiamento internacional afeta a comunicação periférica

Contratos cancelados e redução de investimento fragilizam mídia popular – e um caminho é se voltar para o Brasil.

O cenário global vem mudando — e a comunicação popular e o jornalismo independente no Brasil estão sentindo o impacto. De acordo com um levantamento da Repórteres Sem Fronteiras, a decisão de desativar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) congelou US$ 268,38 milhões em financiamentos ao jornalismo globalmente em 2025. Já a Ajor, a Associação de Jornalismo Digital, levantou que mais de dez organizações jornalísticas brasileiras tiveram contratos cancelados ou projetos interrompidos, com perdas estimadas em cerca de U$230 mil — além de outros projetos em fase de contratação que somam mais U$200 mil em risco.

A Énews ouviu uma pessoa da direção de uma organização de comunicação que viu o financiamento de um projeto cancelado, com o fim da USAID. Ela não quer se identificar por medo de represálias, já que as tratativas com o governo dos Estados Unidos ainda não foram encerradas.

O público do projeto era de jovens periféricos, com foco de trabalho na comunicação sobre a crise climática (esse inclusive foi o perfil dos projetos afetados no Brasil, de acordo com a Ajor). Vinte dias após a posse do presidente dos EUA, Donald Trump, a equipe recebeu um e-mail pedindo a paralisação do projeto até segunda análise.

“Pouquíssimos dias depois, fomos informados que o projeto estava terminado, para aguardarmos informações de como proceder. Veio um contrato de cancelamento, com justificativas bizarras.”

O contrato apontava que o projeto era contra as prioridades da gestão, entre elas a de proteger a população estadunidense contra invasões e defender as mulheres do extremismo da ideologia de gênero e restaurar a verdade biológica no governo federal. A organização vai precisar devolver o dinheiro, mas não há informações sobre como essa devolução será feita, se será em dólar ou real, qual o câmbio a ser considerado, entre outros detalhes.

“Pegou muito a saúde mental da equipe, parecia que estávamos fazendo algo errado. Somos uma organização pequena tendo que lidar com o governo dos Estados Unidos. Foi nosso primeiro financiamento internacional, aprendemos bastante e vamos usar esse aprendizado pra ir atrás de outros caminhos de financiamento.”

Segundo análise de Carolina Oms, diretora de Sustentabilidade e Comunicação do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ), “este recuo da filantropia internacional afeta diretamente projetos jornalísticos que dependem desses recursos para operar em regiões periféricas e vulneráveis”.

Ela observa que essa dependência torna o campo ainda mais vulnerável em um momento em que as prioridades geopolíticas mudam — conflitos como os da Ucrânia e do Oriente Médio têm redirecionado recursos que antes eram voltados para a América Latina. A filantropia americana volta seus recursos para questões internas e esse movimento é acompanhado por muitos países doadores, o que reduz orçamentos de cooperação internacional.

Carolina também aponta que “o impacto é mais severo para veículos que cobrem temas como questões ambientais, direitos humanos e transparência pública, que tradicionalmente recebem mais ataques e menos acesso a recursos privados”. Vale ler o relatório produzido pelo FAJ para um mergulho nesse tema.

E esse vazio de recursos não é só um problema de sustentabilidade: é um risco direto à democracia. “Esse corte abrupto de financiamento evidencia a vulnerabilidade estrutural do setor, já destacada em alertas internacionais como o da carta recente do GFMD (Fórum Global para o Desenvolvimento da Mídia), que aponta o enfraquecimento da mídia independente como uma ameaça à democracia, aos direitos humanos e ao desenvolvimento sustentável”, comenta Maia Fortes, diretora-executiva da Ajor. “Frente a esse cenário, Ajor tem buscado não apenas apoio jurídico emergencial às organizações afetadas, mas também articulações internacionais para mitigar o impacto desse ‘fechamento de torneiras’ que compromete a resiliência e a pluralidade do jornalismo no país.”

Para Douglas Calixto, doutor em comunicação e professor de Linguagens no Mackenzie, que atuou como Consultor Sênior de Comunicação da Porticus, ainda existe também um movimento a ser feito no campo da filantropia nacional e internacional em direção à compreensão da importância da comunicação para mobilização social e manutenção da democracia.

“Os cortes têm a ver com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, que é um campo ideológico que não reconhece a filantropia como algo de valor, e tem os direitos e garantias fundamentais como algo descartável.”

Ele aponta que, em paralelo a esse movimento da extrema direita, no campo progressista ou liberal, “a comunicação precisa deixar de ser vista pela filantropia como um trabalho de divulgação. Precisa passar a configurar algo estratégico, que mobiliza as bases, que faz parte da democracia do cotidiano. Acho que a filantropia ainda não entendeu isso.”

O próprio Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ) “precisa de engajamento significativo do setor privado brasileiro e da sociedade civil para atingir a escala necessária para compensar a redução dos investimentos internacionais”, como ressalta Carolina.

Énois tem atuado para sensibilizar novos financiadores sobre a importância da comunicação periférica para fortalecer o bem viver. No 13º Congresso GIFE (Grupo de Investidores Sociais do Brasil), que vai acontecer entre 7 e 9 de maio, iremos com uma missão urgente: pautar o financiamento nacional à comunicação popular, feita em territórios periféricos, como estratégia central de redução das desigualdades.

Estamos levando para o centro do debate aquilo que muitas vezes é deixado à margem — a comunicação feita por, com e para as comunidades. Queremos abrir essa roda com fundações, investidores, sociedade civil e setor público: quem vai garantir que a informação continue sendo um bem público acessível a todes?

Como buscar mudanças estruturais sem investir na estrutura?

Existe um movimento do capitalismo, que não é nenhuma novidade, de atrair investimentos em torno de eventos. É quase como a pergunta do ovo e da galinha: os investimentos existem por conta do evento ou o evento é o que mobiliza os investimentos? Fato é que grandes eventos movimentam a economia. Quando falamos da Conferência do Clima, não é diferente. Esse grande evento mobiliza o mercado imobiliário, turístico, hoteleiro, de serviços e, claro, o terceiro setor.

Na Énois, temos observado como as instituições filantrópicas têm se voltado a financiar organizações em Belém e na região amazônica em razão da COP-30 acontecer ali. O que chama a atenção é a maneira como isso tem acontecido.

“Muitos desses financiamentos são voltados exclusivamente para ações pontuais, não têm um compromisso com a continuidade e o fortalecimento institucional a longo prazo e estão sendo direcionados para grandes organizações”, diz Marcos Wesley, Assessor Político e Institucional do Comitê COP-30 e co-fundador do Tapajós de Fato.

Financiadores se veem às voltas sem saber como atuar para apoiar o desenvolvimento territorial voltado à sustentabilidade ou escolhem deliberadamente manter ações pontuais, evitando mudanças estruturais? O ovo ou a galinha.

A situação é ainda mais difícil para a comunicação popular e para ações voltadas às periferias e comunidades tradicionais – geralmente fora do foco de financiadores socioambientais e com dificuldade para se enquadrar nas exigências dos editais. Assim, coletivos e veículos de comunicação seguem sem conseguir garantir sustentabilidade após a COP.

“Há muita grana rolando em relação à COP e há promessa de mais grana ainda, mas isso não está chegando na ponta”, relata Cecília Amorim, co-diretora da Agência Afroindígena Carta Amazônia de Jornalismo Ambiental. Ela conta que a organização tem sido sondada para financiamentos, mas nenhum apoio se confirma.

Rio de Janeiro (RJ) 20/09/2024 – Manifestação Marcha pelo Clima, que se realiza anualmente em diversas cidades do mundo e alerta para a crise climática e o aumento dos eventos climáticos extremos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Quando voltamos ao campo, vemos que as respostas já existem. Consultar as iniciativas, escutar e redesenhar as metodologias de financiamento é um caminho corajoso diante da cacofonia salvacionista. E comunicação é uma ferramenta de transformação social quando falamos de clima, porque falar de clima é falar de alimentação, transporte, políticas públicas e sobrevivência diária.

Quem está pautando isso nas periferias? E como?

A comunicação precisa ser vista como pilar estratégico da agenda climática, mas não é. “Pouquíssimas filantropias apoiam comunicação. Menos ainda o jornalismo. É visto como secundário, mesmo quando se reconhece seu papel”, aponta Gave

Sabemos que a maioria das iniciativas de comunicação popular existe porque indivíduos e pequenos grupos acumulam outros trabalhos e mantêm esses projetos por conexão com sua comunidade – como já mostrou a pesquisa Retrato do Jornalismo Brasileiro.

A Conferência do Clima é importante. Mas tão importante quanto ela é a construção diária de soluções resilientes, de cooperação comunitária e de educomunicação nos territórios. As iniciativas periféricas precisam de mais do que doações pontuais e agendas sazonais – precisam de estrutura, continuidade e investimento real.