Énois: 15 anos de jornalismo, diversidade e territórios

Cuidar do jornalismo local é fortalecer pessoas e organizações que atuam em territórios populares, é transformar o cotidiano e a vida das pessoas. A Énois aprendeu essa premissa na prática, ao longo desses 15 anos. Começando nas periferias de São Paulo e conhecendo outras realidades Brasil afora.
Somos uma rede com cerca de 1,7 mil comunicadoras e comunicadores  atuantes em seus territórios. Somos majoritariamente mulheres, pessoas negras e localizadas em regiões periféricas por todos os estados  do Brasil. Esta é a nossa rede, e falamos que “somos”, porque sem ela o nosso existir não teria sentido algum. Nascemos como Énois e seguimos assim ao longo desse anos: expandindo em coletividade. 
Apoiamos gente que pauta e narra o que vive a partir de periferias, favelas, quilombos, territórios indígenas, ribeirinhos e tradicionais, sertões, agrestes, e diversas outras comunidades brasileiras. Estimulamos que esses e essas comunicadores e comunicadoras denunciem desigualdades em seu dia a dia e, ao mesmo tempo, tragam soluções e futuros possíveis tecidos a partir de tecnologias locais. Esse é o ecossistema jornalístico que valorizamos e cultivamos.

Nossa trajetória

Desde o início da Escola de Jornalismo (2009), na Casa do Zezinho, em São Paulo, até os dias de hoje, como laboratório de abrangência nacional, a Énois dedica tempo, recursos e cuidado para pessoas e organizações desse ecossistema, que tem a sua existência desafiada pela escassez de investimentos, estrutura e formação para fazer florescer sua atuação. São jornalistas e organizações que estão fora do radar de grandes investidores, mas que são fundamentais para estimular a cultura da informação. 
Temos como ponto de partida a diversidade de gênero, raça e território e, como horizonte, o fortalecimento da democracia. A partir de uma equipe diversa, se produz um jornalismo também diverso, representativo e local que incide na melhoria de vida das pessoas. 
O fio condutor dessa jornada é a transformação por meio da educação, da partilha de conhecimentos nas mais diversas camadas do jornalismo. Com sistematizações e metodologias de cuidado, gestão, captação, financeiro, produção jornalística, debatemos visões, formatos, fontes, distribuição e tecnologias se pautando sempre pela inovação que só a diversidade pode trazer.

Conquistas coletivas

Hoje, trilhamos um caminho de vivências, experimentação, pesquisas, estudos e análises da realidade do jornalismo brasileiro no contexto social do país, fazendo isso junto com quem faz o jornalismo nos territórios. Incorporamos em nosso fazer cotidiano o compromisso com a justiça social e climática considerando o jornalismo como uma mola propulsora dessa revolução.
Fazemos a muitas mãos: equipe, rede, parcerias, financiadores e doadores. Celebramos nestes 15 anos nossa nacionalização e a distribuição de mais de 40% do nosso orçamento para iniciativas de comunicação de todo o país, em 2023. Seguiremos cultivando o sonho de se tornar uma rede latino-americana de jornalismo periférico e te convidamos a vir conosco.
A hora de transformar o jornalismo é sempre o agora.

Como a Énois transforma o jornalismo?

A gente investe conhecimento, grana e afeto no ecossistema do jornalismo local. O que chega na Énois mantém a nossa estrutura e é distribuído para nossa rede em formato de cursos, treinamentos, mentorias, sistematizações e metodologias, pesquisas e mapeamentos, apoio financeiro e produções colaborativas - como nosso famoso guia gastronômicos das periferias, o Prato Firmeza, ganhador do Prêmio Jabuti, em 2021.
Semeamos para acompanhar nascimento, crescimento e novos caminhos de iniciativas de jornalismo, comunicação e cultura em diversos territórios brasileiros. Somos um laboratório, e a partilha de experiências está presente em todas as nossas instâncias, isso quer dizer que a nossa vivência como organização social também vira metodologia e ferramenta de apoio. Existimos para partilhar conhecimento em rede.

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A segurança de quem faz comunicação começa pelo cuidado

Se você acompanha a Diversa há algum tempo, já deve saber que aqui na Énois criamos e foralecemos um espaço chamado Café de Afetos, que é um momento em que tiramos para nos apoiar, nos ouvir, compartilhar nossas angústias e celebrar. Estamos, neste ano em que completamos 15 anos de estrada, lendo e compartilhando os ensinamentos de bell hooks em "Irmãs do Inhame". Neste livro, a autora compartilha estratégias de autorrecuperação para mulheres negras.
Aliás, foi com uma citação à bell que Agnes Karoline, assessora do Programa de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19, abriu nossa última RedaçãoAberta: "a  tarefa de fazer do lar uma comunidade de resistência tem sido compartilhada por mulheres negras globalmente, especialmente mulheres negras em sociedades de supremacia branca", trouxe ela.
E o que isso tem a ver com proteção e segurança de jornalistas e pessoas comunicadoras periféricas?, você talvez pergunte.

Tudo.

Não só as mulheres negras estão à frente de organizações e iniciativas de mídia periféricas, como são elas as maiores responsáveis pelo trabalho de cuidado na nossa sociedade. É o compromisso com o cuidado que garante a sobrevivência, ou a resistência, como falou bell hooks, dessas mulheres, suas pessoas e seus sonhos.

É esse compromisso também que garante a eficiência nas ações de proteção a jornalistascomunicadoras e comunicadores periféricos Brasil afora."A cultura de cuidado precisa ser muito fortemente implementada pra gente conseguir consolidar a proteção", nos lembrou Agnes Karoline na última Redação Aberta.
"Quando as vozes de mulheres negras, periférias, cis e trans, comunicadoras comunitárias, LGBTQIA+, desafiam o interesse de muitos indivíduos e grupos que se beneficiam muito com a desinformação, quando essas vozes vão a público e conseguem impacto social, a gente percebe que comunicadoras e jornalistas, que também atuam como artistas e ativistas, começam a ser coagidas por esses grupos. Muitas vezes estão sozinhas nesse trabalho e se sentem isoladas", explicou Agnes.
O Café de Afetos nasceu por causa do isolamento concreto. Durante a pandemia de Covid-19, para nossa proteção e saúde, sentimos que precisávamos trazer a dimensão humana e vulnerável para dentro da organização também. Hoje ele é, ao mesmo tempo, um grupo de apoio, de leitura, um espaço de escuta e desenvolvimento para as necessidades da equipe e um espaço ritualístico.
Assim também funciona a Redação Aberta, só que voltado para a nossa rede. Em tempos em que o mundo do trabalho passa por diversas transformações, é preciso reunir e aquilombar o jornalismo local.
Afinal, as tecnologias de cuidado coletivo são, como Agnes nos lembrou e não podemos esquecer, ancestrais. Banho de ervas, banho de igarapé, os ebós, as danças coletivas, em roda, o aquilombamento, os aldeamentos, e todas as atividades que nos dão senso de comunidade, pertencimento e escuta. Aqui na Énois temos sistematizado e compartilhado algumas tecnologias sociais, como a da criação de espaços de escuta e cuidado nas redações e a da identificação de estresse e desequilíbrio emocional entre jornalistas. 

Em uma dimensão mais tática, as estratégias de proteção a pessoas comunicadoras devem considerar, assim como a formação da equipe, as elaborações das pautas e o diálogo com a audiência, as desigualdades estruturais que nos afetam. A interseccionalidade, portanto, deve ser premissa para pensar a segurança de jornalistas e pessoas comunicadoras no Brasil.
De um ponto de vista político, como ressaltou Agnes, é necessário fortalecer o estado democrático de direito, criar proteção para grupos de comunicação popular e independente e acompanhar o modelo de negócios que tem concentrado a economia e o poder do mercado nas grandes empresas de tecnologia, de comunicação e das plataformas digitais. Isso tudo diz respeito à proteção e segurança de quem faz comunicação desde as periferias das cidades e do Brasil.
A rede de apoio é fundamental para essa proteção também. Uma ameaça não tem o mesmo peso se direcionada para alguém que não está em isolamento. Sabemos, porém, que quando as ameaças partem daqueles que têm poder, inclusive dentro das estruturas do Estado, as estratégias precisam ser mais sofisticadas. 

Principalmente num Brasil pós-assassinato de Marielle Franco.
A resposta sobre quem mandou matá-la nos revelou, ao mesmo tempo, a capacidade da sociedade civil articulada de cobrar pela manutenção e garantia dos direitos humanos e a capacidade dos algozes no poder de usar o Estado democrático para fazer valer sua vontade. 
E aqui, sugiro que você tome um tempo para ouvir a segunda parte do episódio “Histórias sem fim” do podcast Rádio Novelo Apresenta, com Fernanda Chaves, assessora de imprensa e sobrevivente ao atentado que matou Marielle e Anderson. Em um ponto da entrevista, ela menciona a rede de apoio e o cuidado que recebeu logo na manhã seguinte ao atentado. Um desses cuidados a marcou. Ela ouviu de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil e sobrevivente da violência de agentes do Estado: “você tá tendo tremedeira, né, minha filha? Deixa, não segura, não. Eu sei como é que é. Muito ruim, vem de dentro do couro cabeludo”.
Em outro ponto, ela revela o cuidado e o exercício de autocontrole descomunal que precisou ter para proteger a imagem da Marielle logo após o crime – estratégia de segurança que precisou ser reforçada ainda meses após o ocorrido, quando informações falsas sobre Marielle Franco começaram a circular.
Ela menciona também o choque de descobrir que, enquanto ela saía do país e cortava comunicações com amigos e familiares para se proteger, os mandantes do crime sempre souberam de seu paradeiro. Isso porque um deles era o chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, antes tido como pessoa de confiança dela, de familiares e amigos.
Você e sua organização podem se informar sobre estratégias de proteção para defensoras e defensores de direitos humanos neste guia produzido pela Justiça Global em parceria com a ARTIGO 19. 
Neste outro guia, produzido pela Agência Mural e ARTIGO 19, saiba o que implementar nos aparelhos de telefone e computadores para segurança digital, como construir senhas seguras, como assegurar aplicativos, conheça formas de navegação segura e segurança nas redes sociais. 
Para quem enfrenta censura de gênero, vale conferir este guia da ARTIGO 19, que sistematiza algumas práticas da organização, inclusive a tecnologia de mapeamento de atores, que demonstra a importância de saber quem são as pessoas e organizações que são aliadas, mesmo que trabalhemos sozinhas.
A forma mais comum de censura no Brasil, aliás, é a censura judicial. Confira abaixo algumas orientações que Mônica Galvão, advogada especialista em casos de liberdade de expressão e co-fundadora do Instituto Tornavoz, compartilhou na última Redação Aberta para evitar questionamentos e censura judicial. 
Para saber mais e acessar outras orientações pertinentes à segurança e proteção de comunicadoras e comunicadores periféricos, assista ao conteúdo no nosso YouTube. 

Dica 1: Cuidado ao utilizar expressões técnicas: A expressão denúncia no Direito, por exemplo, tem um sentido específico. Outro exemplo é quando vamos falar que o funcionário público foi exonerado ou saiu a pedido. Esses tipos de jargão costumam dar muito pano pra manga em ações judiciais. Verifiquem as informações técnicas que vão usar em matérias jornalísticas e usem a expressão apropriada.

Dica 2: Dê o mesmo destaque ao “outro lado”: é uma preocupação que pode salvar um questionamento judicial. Você deve ouvir o “outro lado” e fazer constar no texto com o mesmo destaque da apuração crítica. A orientação é fugir do “outro lado” burocrático, pois o equilíbrio é muito considerado pelos juízes.

Dica 3: Atenção ao reproduzir entrevistas: esse é um item novo de preocupação na vida das pessoas jornalistas. Alguns meses atrás, quando a pessoa jornalista reproduzia uma entrevista, a preocupação era somente de ter o registro da gravação, para verificação. Isso mudou após uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal e, agora, a pessoa jornalista  deve analisar o teor da fala de quem entrevistou antes de sua reprodução. A declaração é razoável? Existem elementos que coloquem a declaração em dúvida? É uma informação sabidamente falsa? Se for, a pessoa jornalista pode ser responsabilizada.

Dica 4:Pense bem em como vai compartilhar nas redes sociais: sabe por que o New York Times falou a seus jornalistas para reduzirem o uso do X? A dinâmica das redes sociais exige uma rapidez quase incompatível com o cuidado que o texto jornalístico exige. Uma matéria bem feita, redonda, sem nada pra questionar, pode ser alvo de um questionamento judicial por causa da maneira como ela é apresentada em uma rede social.
Até a próxima! Se precisar, estamos por aqui. 

Sanara Santos assume diretoria na Énois

De acordo com a pesquisa Diversidade e Inclusão, divulgada em 2022 e realizada pela consultoria global Great Place To Work (GPTW), 92% das pessoas que ocupam cargos de chefia, direção e presidência são pessoas cis heteronormativas. Ou seja, pessoas (e corpos) que atendem e representam os padrões do que a nossa sociedade estabelece como feminilidade e masculinidade. Isso significa pouca ou quase nenhuma diversidade de gênero nestes espaços.

Diante desse dado, quando você lê a frase “A primeira diretora trans, negra e periférica de uma organização de jornalismo do Brasil”, o que te vem à mente?

Para a Énois, é um passo importante dado por aqui, construído ao longo de anos com o protagonismo de Sanara Santos. Essa frase, apesar de significativa e potente e de ser a que escolhemos contar para vocês, não é capaz de definir a alegria e o orgulho que tomam o anúncio da chegada dela à diretoria. Não é capaz de definir a história e trajetória percorridas até esse momento.

Sanara Maria dos Santos Araujo, nascida e criada na favela da Ilha, uma pequena comunidade que fica entre a zona leste de São Paulo e Santo André, no ABC Paulista, entrou para a Escola de Jornalismo da Énois em 2017 e, de lá para cá, construiu novas perspectivas dentro da organização. Perspectivas sempre conectadas com a diversidade e inclusão.

“Uma história de dor, amor, coletividade e jornalismo”, por Sanara Santos
Confira a primeira Diversa do ano!

Foi freelancer, produtora chefe, coordenadora e agora diretora da área de Formação, ramo que carrega a essência da organização e o seu jeito de fazer, sensível e acolhedor. Sanara nos conta alguns dos seus pontos de vista…

A direção como um lugar de inovar 

“Estar neste espaço é pensar inovação. Ser uma mulher trans é sobre olhar com outra perspectiva de como e onde o jornalismo vai precisar inovar financeiramente e culturalmente. É desenhar um futuro que não é mais cis, branco, elitista, e que está cada vez mais nas mãos das pessoas pretas, mulheres trans, e periféricas”.

Troca e representatividade

“Sou essa diretora que está com as organizações que passaram pela Énois, me relaciono com sensibilidade e isso faz com que as pessoas olhem para gente com esse lugar de troca, uma diretora muito próxima da histórias das organizações. Acredito que elas se sintam representadas”.

Transformações internas

“Acredito que a Énois vai passar por um processo de mudança, temos que pensar com mais profundidade e nos organizar internamente para fortalecer cada vez mais o jornalismo local, diverso e periférico”.

A primeira da diretora trans, negra e periférica de uma organização de jornalismo do Brasil

Por Sanara Santos 

Olá, Rede Énois! É muito bom reencontrar vocês neste começo de ano. Coube a mim a missão de escrever a nossa primeira Diversa de 2024 e trago boas novas…

A primeira é que iniciamos este ano olhando para a frente de uma maneira muito potente, olhando para o futuro. Sim, somos um laboratório que experiencia o jornalismo com a ótica da diversidade, representatividade e inclusão. Uma organização que completou 14 anos de existência cultivando ecossistemas de jornalismo local e sendo cultivada por eles.

Em 2024, escolhemos dar novos passos nesse cultivo… E um exemplo disso é a minha entrada para a direção da Énois.

Me chamo Sanara Maria dos Santos Araujo, nasci e fui criada na favela da Ilha, uma pequena comunidade que fica entre a zona leste de São Paulo e Santo André, no ABC Paulista. Por estar nesta fronteira, fui esquecida e pouco cuidada pelas políticas públicas. Assim como meu corpo, assim como o jornalismo local.

Viver entre as ruas, becos, lajes e vielas moldaram minha visão sobre o mundo que vivemos, crescer em um ambiente tão complexo onde as violências, vulnerabilidades, potenciais e culturas coexistem, me levaram desde nova a entender que “sozinha eu não aguento”. Para quem mora na favela, essa é uma das primeiras  percepções: a coletividade é necessária para garantir a nossa existência.

E como mulher trans e negra, dentro da comunidade, encontrar uma coletividade que abarcase quem eu era e quem eu sou foi desafiador. Por muito tempo, eu vivi na sombra do que eu queria ser. Até que chegou o momento em que meu corpo tomou a frente e decidiu por ele mesmo se mostrar…

Como disse Angela Davis, “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Mas, às vezes, esse movimento não é tão fácil de vivenciar. Em 2017, me encontrei expulsa de casa carregando apenas a minha vulnerabilidade e sendo acolhida por um coletivo anarquista no ABC Paulista. Neste momento, nascia Sanara Santos.

(Sanara à época do coletivo anarquista, em 2017. Foto: Arquivo pessoal)

Assim a vida se apresentou. Dura, real e implacável. Foi onde o destino cruzou meu caminho com a Énois. Primeiro com uma plaquinha escrita “Este restaurante é Prato Firmeza”. Anos antes de eu entrar para o coletivo anarquista, a Énois já tinha passado lá mapeando restaurantes e iniciativas de comida para o Prato Firmeza, o nosso guia gastronômico das quebradas.

Meses depois da nossa atual Agente de Dados e Impacto,e também minha grande amiga, Mel Oyá, entrou para a Escola de Jornalismo, que foi o principal projeto da Énois durante anos. Dez jovens das periferias de São Paulo eram convidadas e convidados a se aprofundar sobre conhecimentos ligados a um jornalismo diverso e inovador, no período de um ano. Foi neste ano que a Énois produziu o seu segundo Prato Firmeza e um documentário chamado Jovens e a Grana, em que  fui convidada para mostrar a minha vivência com o dinheiro sendo uma jovem que sobrevivia da arte e sem apoio familiar.

Ter a oportunidade de contar a minha história para jovens comunicadores acendeu uma chama em mim, quem é jornalista sabe muito bem do que estou falando. Eu senti o poder da comunicação e queria aquilo pra mim.

Decidi me aproximar da Énois não apenas como uma espectadora, mas como alguém determinada a fazer parte dessa transformação. Ingressei em 2018 nos programas oferecidos, ávida por aprender e crescer. Hoje posso afirmar que cada oficina moldou minhas habilidades e expandiu minha visão de possibilidades de existência pessoal e profissional.

Se colocando para jogo

E como tudo é um via de mão dupla, o pessoal da Énois (na época, Amanda Rahra, Simone Cunha, Nina Weingrill, Gisele Brito, Simone Freire, Vinicius Cordeiro e Vicente Goés), também identificou algo meu que era importante para a organização. Quando terminei a Escola de Jornalismo, não sai da Énois, me coloquei para jogo assim como fui colocada e incentivada a permanecer. Foram freelas, cafés com bolos, risadas e acolhimento que desenharam um lugar pra mim.

No final de 2019, a Énois passou por uma reestruturação e acabei entrando para a equipe fixa. Primeiro, como residente e depois como produtora chefe de formação. No ano seguinte, me tornei Coordenadora de Formação, totalizando mais de 200 encontros formativos dentro dos projetos da Énois, aprendendo com o DNA educador da organização e compartilhando a minha essência. Me descobri aqui uma boa educadora.

Para mim, os anos passaram voando e em 2024 aqui estou eu. Não como participante, mas como membro ativo da diretoria da Énois. Esta jornada foi uma montanha-russa de aprendizado, desafios e conquistas, sempre com coletividade. Tornei-me uma testemunha viva da capacidade da Énois de transformar vidas, inclusive a minha. Assumir o papel de diretora é um privilégio e uma responsabilidade que levo com orgulho. Estou ansiosa para continuar contribuindo para o impacto positivo da Énois e inspirar outros jovens a escreverem suas próprias histórias de sucesso.

Aqui começamos o ano com novos planejamentos, novos desafios, uma nova diretora e muita vontade de continuar transformando o jornalismo, juntas, porque é mais legal e podemos ir mais longe. E foi assim que esse sonho se tornou realidade.

Quero deixar um breve agradecimento a Nina Weingrill e Leticia Tavres, minhas antecessoras no cargo de Diretora, a toda rede Énois que passou pelas nossas formações, e às minhas colegas de trabalho.

E não poderia esquecer que esse espaço é celebrado após o mês da Visibilidade Trans, enquanto muitas mulheres trans, travestis, homens trans, trans masculinos e não binários, lutam para conquistar sonhos e escapar de uma realidade regada de dor e ódio. Mas também encontram momentos como este para celebrar utopias.

Que a gente nunca esqueça: Nada sobre nós, sem nós!

Retrospectiva 2023: Énois que tá junto do jornalismo local!

Relembre com a gente o nosso ano de caminhada coletiva

Há 14 anos, a Énois trabalha por mais diversidade no jornalismo, um fazer que se atualiza de acordo com as mudanças sociais, econômicas, políticas e tecnológicas que os territórios brasileiros e a comunicação vivenciam. Sejam em contextos de aprofundamento das desigualdades ou de fortalecimento da garantia de direitos e da democracia, estamos atentas.

Já tivemos muitas formas de atuação e, em 2023, nos consolidamos como uma rede tecida colaborativamente por quem acredita no jornalismo como prática de transformação das diversas realidades do país…

Já fomos uma organização com atuação local na cidade de São Paulo. Hoje, estamos em expansão. Entre os estados com maior presença da Énois, lideram São Paulo (20%), Pará (10%) e Pernambuco (8%), chegando nas regiões Norte e Nordeste.

E como é que a gente tem feito isso?

2023 foi um ano de ousadia e ineditismo por aqui. Decidimos mapear o Retrato do Jornalismo Brasileiro, em uma pesquisa que faz parceria com o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e a Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e teve patrocínio do Google News Initiative.

Neste passo, também realizamos o primeiro Prato Firmeza de abrangência nacional, que pautou a relação entre campo e cidade na gastronomia periférica. E ao mesmo tempo, também fizemos o Pratinho Firmeza SP, com foco no público infanto-juvenil. Ambos projetos viabilizados por leis culturais, sendo o Pratinho com patrocínio da Ticket.

De novos ares se fez aquilo que é a nossa origem. Em 2023, colocamos no ar uma versão em Ensino À Distância (EAD) da nossa Escola de Jornalismo, que alcançou quase 500 pessoas, numa parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e o Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio também do Google News Initiative. Também levamos, junto à Embaixada e Consulados EUA no Brasil, 59 iniciativas de comunicação de todo o país para o TechCamp Belém, para construir caminhos para fortalecer o jornalismo local, diverso e sustentável.

Lançamos o Mapa do Jornalismo Local das regiões Norte e Centro-Oeste, em Manaus (AM), em parceria com o Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA), com a coordenação da jornalista Jéssica Botelho.

Isso tudo nos constrói como organização…

Realizamos 64 formações neste ano e 122 eventos com jornalistas locais. Distribuímos cerca de 40% do orçamento do ano para fortalecer 11 organizações jornalísticas – com formações, apoios financeiros, materiais e parcerias – e 76 bolsas para jornalistas. Nesse passo, também apoiamos a realização de 1.148 reportagens e a contratação de 186 pessoasArticulamos a participação de 60 jornalistas em eventos e espaços e contamos 176 histórias de transformações potencializadas pela Énois, em nossas redes.

A diversidade que queremos fomentar no mundo se faz presente na gestão e equipe da Énois. Temos uma equipe fixa, sendo a maioria pretas e pardas, e tivemos 227 pessoas colaboradoras nos nossos projetos, em 2023. Um grupo majoritariamente preto e de mulheres cis.

2023 também foi um ano para consolidar práticas internas. Cultivamos a colaboração, cuidado e horizontalidade…

É com esse cuidado mútuo que alimentamos diariamente uma perspectiva de crescimento junto às iniciativas de comunicação, aos territórios e às organizações companheiras de estrada. Entre as parcerias de 2023, ressaltamos a nossa participação no Festival 3i, no Congresso Internacional de Jornalismo de Educação (Jeduca) e o apoio ao Festival FALA!

Em 2023, alimentamos também o nosso sonho de atuar a nível de América Latina, levando a nossa experiência de análise de impactos  para o Media Party, em Buenos Aires (AR). Massa, né? E é com essa vivência que encerramos a nossa breve retrospectiva…

Olhando para a frente e construindo um futuro que já bate na porta. Desejando novos voos ao lado de muito mais gente… Em 2024, é nois de novo! Énois que tá junto do jornalismo local!