Com o Arte é Informação, Énois seleciona 10 artistas para processo imersivo sobre alimentação e clima nas periferias de São Paulo

A Énois anuncia as 10 pessoas selecionadas para a edição 2026 do Arte é Informação, processo imersivo que acontece entre março e maio e promove o encontro, a troca e a criação colaborativa entre artistas de diferentes regiões da cidade de São Paulo.

A chamada pública recebeu 30 inscrições de pessoas artistas, articuladoras culturais e comunicadoras interessadas em investigar, por meio da arte, as relações entre alimentação, clima e território. Foram escolhidas propostas com linguagens diversas, que abordam os temas da soberania alimentar e da justiça climática de forma complementar. 50% das pessoas selecionadas são trans.

O Arte é Informação é um programa formativo e criativo que parte da premissa de que a informação pode, e deve, atravessar outros campos para além do jornalismo. Seu objetivo é fortalecer pessoas artistas e comunicadoras periféricas como produtoras de conhecimento, articulando arte, comunicação e território para refletir sobre temas estruturais como justiça climática e soberania alimentar.

Durante três meses, as pessoas selecionadas participam de encontros formativos online e presenciais, desenvolvem seus trabalhos autorais de forma coletiva e constroem uma programação pública que será realizada nos dias 23 e 24 de maio de 2026, simultaneamente à Virada Cultural de São Paulo.

A curadoria e formação do Arte é Informação 2026 é conduzida por Cal. Natural de Pernambuco, com uma trajetória de quase 20 anos, constrói ao longo dos últimos 10 anos, proposições que aproximam vizinhanças para uma ação mais curiosa, consciente e criativa do cotidiano. Faz isso por meio da plataforma “criando costumes”, onde reúne suas experimentações artísticas, e da criação do espaço CÀÈ – Casa Ateliê Escola, que aconteceu ao longo desses anos em São Paulo e que desde 2025, está sediado em Olinda, Pernambuco.  Assistiu, coordenou, dirigiu e co-criou obras, oficinas e programas educativos, em diversas instituições, entre elas o MAM (Rio de Janeiro), MAMAM (São Paulo), Sesc (São Paulo), MoMA PS1 (Nova Iorque) e Sharjah Biennial (Emirados Árabes). Tem premiações por suas obras e direções artísticas, sendo uma delas o Prêmio Itamaraty de Arte Contemporânea, recebido em 2013. Possui obras em coleções públicas e atualmente vive em Nova Iorque.

O processo inclui ainda a produção de uma publicação coordenada pela Énois sobre como artistas mobilizam informação e ampliam as fronteiras da comunicação popular.

Um percurso iniciado em 2025

O Arte é Informação foi realizado pela primeira vez em 2025 como um ciclo formativo nos bairros da Brasilândia, Grajaú, Paraisópolis e São Mateus.

Na primeira edição, artistas e comunicadores refletiram sobre crise climática, racismo ambiental, direitos básicos e produção de informação nas periferias. As formações abordaram tanto aspectos técnicos, como portfólio e posicionamento profissional, quanto dimensões políticas da arte enquanto estratégia de comunicação comunitária.

A edição de 2026 dá seguimento na articulação com os bairros da edição anterior, aprofundando as reflexões e avançando para um processo prático, com o desenvolvimento de trabalhos autorais destinados às comunidades locais por meio de uma programação pública.

O Arte é Informação em São Paulo acontece por meio da parceria com organizações que já atuam de forma estruturante em suas comunidades.

Na Brasilândia, a parceria é com O PiPa, iniciativa que atua nas áreas do brincar, arte, cultura e educação não formal. No Grajaú, com o Travas da Sul, organização que promove ações de apoio à população LGBTrans, especialmente em áreas periféricas, desenvolvendo redes de acolhimento e mobilização social.

Em Paraisópolis, temos uma dupla parceria, com o Estúdio 7 Notas, espaço que produz artistas e MCs do território, realiza vídeos, reportagens e ações que conectam cultura e jornalismo; e com a Favelarte Galeria Suburbana, primeira galeria de arte de Paraisópolis, espaço de encontro, formação e circulação de produções culturais do território.

Em São Mateus, com o São Mateus em Movimento, projeto que tem como objetivo transformar a realidade local por meio de iniciativas culturais, educacionais, ecológicas e sociais.

Conheça as pessoas selecionadas para o Arte é Informação 2026

Acân Santos Simões

Produtor cultural e profissional do audiovisual atuante na zona sul de São Paulo, com experiência em edição de áudio e produção de projetos culturais. Sua proposta articula audiovisual e território para refletir sobre alimentação e clima.

Adler da Silva Martins (Coala)

Multiartista da Zona Leste (São Mateus), músico, poeta e produtor cultural com forte atuação territorial. Sua proposta utiliza poesia falada e performance para abordar justiça climática e alimentação.

Bru Matias Martins Silva (Bruxa Livre)

Produtore cultural, artista visual e arte-educadore que conecta arte, natureza e cuidado comunitário. Sua proposta articula arte urbana e educação para fortalecer autonomia e consciência ambiental.

Helena Pandora Cruz de Souza

Artista e produtora cultural com trajetória nas artes visuais e gestão cultural, integrante da Travas da Sul. Sua proposta envolve criação coletiva e conscientização climática no território.

Hermeson de Morais (Ticano)

Articulador cultural e comunicador de Paraisópolis, criador do Favela Podcast e idealizador da Favelarte Galeria Suburbana. Sua proposta articula exposição e participação comunitária para discutir clima e direito à cidade.

Iranir Cardoso Diniz (Yra)

Cantora, compositora e bacharel em Direito, atuante na intersecção entre cultura e justiça social. Sua proposta utiliza instalação artística e participação pública para refletir sobre o direito à alimentação.

Ludimile Aparecida da Silva

Fotógrafa e articuladora territorial dedicada à memória periférica. Sua proposta realiza mapeamento visual de iniciativas de segurança alimentar.

Nathália Ract da Silva

Artista e jornalista com atuação em projetos comunitários ligados à alimentação e juventude. Sua proposta destaca trabalhadoras da alimentação e a comida como força comunitária.

Pedro Salvador

Fotógrafo e realizador audiovisual do Grajaú, com pesquisa voltada ao cotidiano periférico. Sua proposta investiga como as periferias sustentam a vida em tempos de crise climática.

Pyxuá R. de Castro

Artista e articuladore que conecta arte, memória e justiça social em redes periféricas. Sua proposta articula narrativa audiovisual e publicação independente sobre migração e clima.

Não foi selecionada(o)? Participe das formações abertas do Arte é Informação

Como parte do programa, o Arte é Informação oferecerá quatro formações online abertas ao público, voltadas à ampliação de técnicas e conhecimentos em produção cultural.

  • Produção cultural – 04/03 (quarta) – 19h30 às 22h
  • Escrita de projetos – 11/03 (quarta) – 19h30 às 22h
  • Orçamento de projetos – 18/03 (quarta) – 19h30 às 22h
  • O que é um espaço expositivo? – 25/03 (quarta) – 19h30 às 22h

Serão disponibilizadas 50 bolsas no valor total de R$ 100, destinadas a pessoas que participarem integralmente dos quatro encontros.

Para conhecer mais detalhes sobre os critérios de recebimento das bolsas e participar das formações, entre no grupo oficial no WhatsApp: https://chat.whatsapp.com/ByGT3lFO8YpL2c256M6Uwr

2026 chegou. Copa, eleições com IA… e você já está sentindo os desafios deste ano?

Não é novidade que este é um ano que já começou desafiador para a comunicação e para comunicadores das periferias do Brasil. Todos os dias, esses profissionais constroem, tijolo por tijolo, uma comunicação que forma opinião pública em seus territórios e sustenta a democracia no cotidiano.

Apesar de ser uma palavra muito presente no discurso, a democracia ainda carrega fragilidades profundas. A ausência de informações que impactam diretamente a vida nos territórios — em um país onde 30 milhões de pessoas vivem em desertos de notícias — cria um cenário fértil para a desinformação. As consequências são graves e recaem, sobretudo, sobre quem sustenta este país: o povo.

Em 2026, esse contexto se intensifica. O ano é marcado por eleições gerais e por um ambiente informacional cada vez mais complexo. Segundo o DataSenado, sete em cada dez brasileiros já tiveram contato com alguma notícia falsa. Com o avanço da Inteligência Artificial, o volume de vídeos e imagens manipuladas cresce assustadoramente, tornando ainda mais difícil distinguir o que é real. Informar as comunidades, nesse cenário, se torna um dos maiores desafios da comunicação da ponta.

Por aqui, na Énois, temos apostado em novas formas de combater a desinformação e ampliar o acesso à informação. Uma dessas estratégias é o projeto Arte é Informação, que reconhece a arte como linguagem potente de comunicação popular. Apenas no ano passado, a iniciativa formou e interagiu com mais de 100 artistas, comunicadores, lideranças e produtores culturais de cinco periferias da cidade de São Paulo (SP).

12 de julho de 2025 – Turma de pessoas trans do Arte é Informação, no Grajaú (SP)

O objetivo é informar a partir das linguagens que as populações já produzem. Seja por meio de um som, de um grafite ou de uma fotografia, a arte se torna ferramenta de mobilização, diálogo e fortalecimento da democracia.

Em 2026, ano eleitoral, essa estratégia ganha ainda mais centralidade ao manter no foco do debate público temas estruturantes como sistemas alimentares, justiça climática e justiça social. Essa abordagem também se conecta ao Prato Firmeza, ampliando o olhar para outros biomas, como o resultado do Prato Firmeza Amazônia, e traçando outras possibilidades de articulação e mobilização coletiva.

25 de outubro de 2025 – Lançamento do Prato Firmeza Amazônia, que uniu arte, alimentação e clima, em Manaus (MA)

A Énois tem se consolidado como uma fomentadora e articuladora de redes de comunicação periférica em todo o Brasil. Nosso compromisso é fortalecer iniciativas que prestam serviços essenciais às suas comunidades, garantindo que a comunicação tenha condições mínimas de atuação, com estrutura, recursos e equipes capazes de prestar informações de interesse público com continuidade e responsabilidade.

Equipe de colaboradores fixos da Énois

Em 2025, esse compromisso se traduziu em resultados concretos: foram 90 pessoas contratadas em todo o Brasil; mais de 70% das pessoas contratadas são pretas, pardas ou indígenas, e mais de 55% são mulheres. São essas profissionais que tornam possível o exercício coletivo da cidadania e seguem construindo democracia a partir dos territórios. Em um cenário de tantos desafios, é fundamental seguir abrindo trilhas para garantir condições dignas de trabalho para comunicadores e artistas periféricos, assegurando sustentabilidade, cuidado e longevidade para quem informa o país.

O Relatório Institucional da Énois 2025, que estará disponível ainda esta semana no site da Énois, reúne as ações, aprendizados e caminhos trilhados ao longo do último ano, além de nos provocar a seguir fortalecendo perspectivas para 2026. Em um ano decisivo para o Brasil, reafirmamos nossa missão: fortalecer a comunicação comunitária brasileira, apoiar quem informa a partir dos territórios e apostar na comunicação como prática fundamental para a garantia de direitos.

Énois marca presença na Blue Zone da COP30, em Belém (PA)

A Énois marcou presença na Blue Zone da COP30, em Belém (PA), levando para o centro das negociações globais um debate que nasce dos territórios. No painel Food, Climate and Territory: Building Resilient Food Systems for Climate Adaptation, realizado no Regional Climate Foundations Pavilion, nossa gerente do Laboratório de Comunicação, Jessica Mota, apresentou a abordagem do Prato Firmeza Amazônia reforçando que a cultura alimentar é identidade, tecnologia e estratégia de adaptação climática.

O Prato Firmeza mostra que a adaptação climática já acontece nas cozinhas e saberes que sustentam a vida na Amazônia. Essa perspectiva se somou às contribuições da Global Alliance for Improved Nutrition (GAIN), do Instituto Comida do Amanhã, do Pacto Contra a Fome Brasil e do Rabobank América do Sul, que moderou a conversa.

Durante o debate, foi potente observar como diferentes frentes dos sistemas alimentares, mesmo com trajetórias diversas, convergem em um ponto comum: fortalecer a sabedoria dos territórios e reconhecer que soluções de adaptação climática já existem e nascem das comunidades.

Jéssica também ressaltou como comunicação, educação e cultura são ferramentas capazes de gerar engajamento social profundo e ampliar políticas públicas que apoiem alimentos produzidos nos territórios, com justiça social, nutricional e climática.

Ao levar o Prato Firmeza Amazônia para a Blue Zone, reafirmamos nosso compromisso com uma comunicação que fortalece territórios e coloca as histórias da Amazônia no centro do debate sobre o futuro dos sistemas alimentares.

Compartilhando aprendizados na COP 30

No último dia 11, durante a COP30, a Énois esteve presente no Belém+10, encontro realizado em parceria com o Instituto Mapinguari e o Sustentarea.

Nossa gerente do Laboratório Énois, Jessica Mota, integrou a mesa de debate para compartilhar aprendizados do Prato Firmeza Amazônia. A conversa trouxe reflexões potentes sobre como alimentação e clima são agendas profundamente conectadas, e como a cultura alimentar dos povos tradicionais da Amazônia precisa ser reconhecida como solução climática. Reforçamos sobre o valor da tradição como futuro, e sobre a urgência de fortalecer esses saberes e práticas por meio de políticas públicas.

O debate também passou por temas como distribuição, comercialização, fortalecimento de feiras e pela importância de articular essas discussões às políticas nacionais já existentes, como a nova legislação que determina que, a partir de 1º de janeiro de 2026, 45% dos recursos da merenda escolar devem ser destinados à compra de alimentos da agricultura familiar local (Lei nº 15.226/2025).

Temos mecanismos importantes no Brasil, mas precisamos fazer com que eles saiam do papel. É fundamental pressionar o poder público para que sejam implementados de fato, e para que o Brasil assuma um papel de liderança nas discussões da COP sobre alimentação como política climática, um tema que ainda não recebe a centralidade necessária nas negociações internacionais.

Seguimos na construção coletiva para que comida, território e clima caminhem juntos nas decisões que moldam o nosso futuro.

Cuidar de quem cuida também é responsabilidade

Trabalhar no terceiro setor não é fácil. A gente conhece bem os desafios diários. E também sabe que é a nossa equipe que sustenta esse fazer com afeto, coragem e muita entrega. Por isso, as  pessoas precisam ser valorizadas, reconhecidas e cuidadas de verdade. Mas, como fazer isso num cenário em que nossa sustentabilidade financeira ainda depende majoritariamente da filantropia e de leis de incentivo, que quase nunca destinam recursos para o fortalecimento institucional?

A conta não fecha e a gente precisa falar mais sobre isso. Desde o nosso reposicionamento institucional aqui na Énois, no final do ano de 2024, as escutas que fizemos e os dados que temos sobre nossa equipe deixaram nítidos: era hora de sermos mais transparentes, e de a área de Relações Humanas (nosso RH) criar caminhos e processos que apoiassem melhor quem constrói a Énois todos os dias.

Duas ferramentas importantes nasceram desse processo: A avaliação de desempenho: um passo importante na construção de uma cultura de feedback, retornos, mais constante, transparente e estruturada. Pensamos esse processo não como uma ferramenta de controle, mas como uma oportunidade de troca: um momento em que cada pessoa pode olhar para o seu caminho, reconhecer suas potências, identificar pontos de atenção e, principalmente, construir planos de desenvolvimento de forma conjunta com suas lideranças. Já a política de cargos e salários: que ainda está em processo, vem pra organizar nossa casa com mais transparência.

Ela propõe um modelo estruturado de níveis, faixas salariais e escopos de trabalho, pensado de acordo com a realidade da Énois e com o compromisso de reduzir desigualdades internas, dar mais previsibilidade para quem está aqui e orientar processos futuros de contratação, movimentação interna e crescimento. A gente sabe que estruturar essas políticas num cenário de poucos recursos não é simples. Mas é urgente. Porque transparência, valorização e cuidado com as pessoas não são luxo, são base pra qualquer organização que queira existir de forma coerente com os valores que carrega.

Esses dois movimentos fazem parte do nosso compromisso com uma cultura mais saudável, mais justa e mais possível. É sobre cuidar de quem cuida. É sobre coerência institucional. É sobre o futuro que a gente quer construir. Com escuta, diálogo, conhecimento e adaptação — nossos novos valores — seguimos firmes no propósito de fortalecer coletivos de comunicação nas periferias, sem perder de vista quem torna isso possível: a nossa própria equipe. A gente ainda tá longe do ideal.

O sonho é avançar com mais benefícios garantidos. Um passo de cada vez, com responsabilidade, compromisso e muita vontade de construir um ambiente de trabalho mais justo, saudável e sustentável para quem tá aqui. Alô, filantropia: fortalecer o institucional é fortalecer o impacto. Bora investir em quem cuida?

Texto por Alexia Oliveira, assistente administrativo-financeiro da Énois

15 anos de Énois em organogramas

A sua organização vai mudar com o tempo e isso não precisa ser um problema

Por Amanda Rahra, diretora de mobilização e Helena Dias, coordenadora de comunicação institucional
No início de 2024, ano em que a Énois completa 15 anos, nos tornamos um baobá. Falo do nosso organograma que começou a tomar forma em uma reunião da direção, já com a presença de Sanara Santos como diretora de formação, e com o desenho da nossa coordenadora de Comunidades à época, Isabela Alves. Isa com suas muitas habilidades no desenho fez “vai ser um baobá” de uma forma muito descontraída, e nós fomos lá com os post its pensando em como nos organizar de maneira conectada com a nossa estrutura. Estrutura que não significa rigidez, mas sim alicerce.

Elas montaram, tiraram foto e passaram para mim, Helena Dias, junto com a nossa teoria da mudança, sabendo já do desafio que ia ser unir as duas coisas. Isso era entre janeiro e fevereiro deste ano, o baobá em sua forma final nasceu em abril. Neste caminho de pensar o baobá e se apaixonar por ele, decidimos revisitar a história da Énois e percebemos que, ao longo desses 15 anos de existência, os nossos organogramas também contam a nossa história. O que fomos, o que escolhemos ser e o que continuamos a escolher.

Nunca foi só sobre jornalismo, mas sim sobre o que o jornalismo pode mover no mundo. E isso expandiu de tal forma que hoje a Énois dá oficinas, consultorias e mais outras formações sobre gestão, captação, dar nó em pingo d' água… Sobre como continuar existindo como organização social nesse Brasil de tantas lutas a se travar.

Em 2023, estivemos no Festival 3i, mediando um workshop sobre “Gestão de pessoas para pequenas redações”, por meio da nossa coordenadora de Relações Humanas, Flávia Paola. Este ano, no 19º Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji, Sanara Santos mediou a palestra “Como a mídia independente cuida da saúde mental da sua equipe?” e participamos do debate “Entre a CLT e a vida freelancer, quem apoia e assegura o profissional em carreira solo?”, também com a presença de Flávia, por exemplo.

Tudo muito sobre gente, direitos, diversidade. Entre 15 anos e alguns organogramas, aprendemos a ter paciência com a nossa forma de ser, fluida, disposta a se reinventar, se for necessário para o próximo passo. Em coletivo, em colaboração, assim como eu e Amanda Rahra escrevemos este texto.

Hoje compartilhamos com a nossa rede e dizemos como mantra para nós mesmas que não precisamos nos encaixar totalmente em estruturas ditas tradicionais, hegemônicas. Não se encaixar, se transformar, não precisa ser um problema se a missão vai ser melhor atendida. Se vamos nos respeitar um pouco mais enquanto organização e se os nossos valores serão ainda mais valorizados. E posso te contar? O tempo vai se encarregar de pedir essa mudança de estrutura. Vê bem…

15 anos, 3 organogramas 

E na decisão de revistar a história, a tarefa ficou comigo, Amanda Rahra…
No primeiro organograma, a gente ainda era uma oficina de jornalismo para jovens na Casa do Zezinho, a semente que se transformou nessa árvore que é hoje a Énois. Foi quando começamos com esse lance de fazer planejamento das coisas que queríamos para o ano seguinte. Achávamos importante sonhar sonhos possíveis e pensar nas estruturas que precisávamos construir juntas. Planejar sempre significou pra nóis saber quem ia estar junto com a gente, fazendo o quê, com quem e ganhando quanto.

Ah, sou boa no texto e vou escrever o projeto. Eu sei diagramar e vou deixar esse texto bonito. E você, cuida da foto? Você faz lindas fotos, mana, cai dentro! Sei de uma amiga que faz umas ilustras belíssimas! Vou chamar ela pra colar! E quem vai ficar fazendo contatinhos? Vamos colocar o telefone de quem no final da nossa apresentação de vendas? Pronto, é isso. Nossos nomes e funções para quando a grana chegar a gente botar pra fazer já organizadaaaaas :) 

E assim a gente ia se organizando no que depois entendi que se chamava organograma - um instrumento super importante de gestão, sobre o qual admers tinham aulas e aulas para inclusive prestar consultorias e construir organogramas complexos e ao mesmo tempo funcionais para empresas e organizações. 

A gente desenhava as funções de cada uma de nós e colocava na parede, para não esquecer com o que estávamos comprometidas individualmente e quem estava perto para somar. Criamos até uma aula para ajudar nossas estudantes da Escola de Jornalismo da Énois e outros coletivos de jornalismo parceiros a criar seus organogramas de seus projetos, redações e organizações nascentes. 

Hoje, olhando para esses 15 anos de Énois, entendemos que nos organizar, para a nossa coletividade diversa (especialmente em termos de gênero, raça e território), tem a ver com sobrevivência. Nosso grupo parecia uma grande confusão, mas a verdade é que não dava para ficar confusa - mesmo sem saber direito o que estávamos fazendo, a gente tinha que se entender para conseguir seguirmos juntas. E desenhar nos ajudava - e ainda nos ajuda muito! - a nos entender como uma organização, um coletivo, um sistema, um corpo, uma árvore. 

Quando a equipe cresceu, a gente achou que estava na hora de ter um organograma de "verdade", com todos os cargos, funções e nomes das pessoas. Então, fizemos as caixinhas e depois colocamos nossos nomes no desenho:
Era tanta informação e hierarquias tão rígidas que acabou gerando uma baita confusão!
Olhando bem até que parece a copa de árvore vista por cima ;)

Depois disso, desenhamos a nossa mandala organograma. Uma tentativa meio holística de tornar nossa organização menos hierárquica. E por que menos hierárquicas?

Acredito que a gente quer menos hierarquia porque nosso fazer tem a característica da coletividade, do engajamento, de uma pessoa ajudando a outra para que juntas a gente possa realizar a missão da Émois. Temos sim mais responsabilidades, salários diferentes, tempos de casa, idades e caminhosdiversos. Mas atuamos como uma só organização que tem na sua fundação a educação como pilar. A gente não nasceu dentro de uma redação, nascemos em uma ONG de educação, em que a troca de conhecimento entre estudantes e professoras é dialógica, ou seja, baseada na troca e não na transmissão de saber em uma única via.
E, enfim, em 2020, desenhamos nosso primeiro organograma árvore. E ficamos muito satisfeitas com o que vimos no papel, espelhando nosso fazer. 

Depois disso, voltando na conversa de Helena lá em cima, construímos o baobá. Uma estrutura de árvore, com cara de árvore mesmo, que traz para nós a sintonia de como operamos no dia a dia.
Esse breve histórico mostra algumas das nossas tentativas de nos organizarmos. Cada uma teve seu tempo de funcionamento e expressou um momento da organização. É engraçado olhar o caminho depois de percorrido. Parece que faz mais sentido do que quando estava sendo vivido, porque ele, afinal, nos trouxe até aqui. Mas achamos importante dizer que acreditamos que um organograma tem que expressar o que somos: um grupo de pessoas diversas querendo caminhar juntas com uma missão comum, que é fortalecer o jornalismo local, diverso, representativo. Esse é o nosso mantra e esse é o nosso novo organograma: CLIQUE AQUI!

Nosso baobá, desenvolvido pela dupla de comunicação Helena e Nina, está lindo, robusto, solene. Carrega em si muitos símbolos sobre as estruturas que queremos provocar - a começar pelos tradicionais organogramas de empresas e organizações de terceiro setor - e aquelas que queremos construir: organismos vivos, que se revejam e sejam capazes de partilhar seiva e energia para todas as pessoas que pertencem a esse sistema. 

É uma árvore em si, mas é também sombra para pequenos brotos, vizinha para outras espécies da flora local, fonte de alimento para animais, sugadora de água do mesmo solo que seres humanos e não humanos. 

Chegamos juntas a um nível sem precedentes de consciência do que somos. 
E o que somos é uma parada muito forte e bonita. 

Por isso, querermos ser exemplo.
E isso é uma responsabilidade imensa. 

Me sinto honrada por ser raiz. 
E com frio na barriga por ser parte dessa Baobá. 

Quanto mais consciência, maior é o nosso trabalho. Que a gente siga sempre buscando conhecimento, respeitando quem veio antes e trazendo novas soluções para espelhar o que aprendemos aqui para esse campo do jornalismo e do empreendedorismo local, diverso e representativo. 

Como fazer o organograma da sua organização
Você sempre pode chamar aquela amiga que estudou administração ou que trabalha numa organização mais estruturada e copiar o organograma de algum lugar que você admira. Mas se quiser se aventurar a desenhar com a sua equipe, pode ser um belo caminho de fortalecimento dos vínculos entre vocês e também pode trazer uma consciência maior do que fazem, com quem fazem e como fazem. Para isso, seguem aqui 6 dicas para que vocês possam fazer o organograma da sua organização. 

1. Reúna sua equipe para um momento de reflexão coletiva sobre cargos, funções e fluxos de trabalho - vale tirar um dia, uma manhã, algumas horas juntos para que o desenho seja feito coletivamente. Se for presencial, melhor. Se for online, vale planejar o encontro para que seja participativo e não fiquem sempre as mesmas vozes ecoando no encontro.
Vale lembrar que  se sua organização for mais hierárquica, talvez as pessoas reunidas para organizar esse organograma sejam mais da equipe de gestão, responsáveis pela operação dos projetos da organização e que tenham também a função de liderar outras pessoas. 

2. Liste todas as pessoas e funções que vocês tem na organização. Por exemplo:  
Nome da pessoa 1 - Coordena todas as nossas ações de comunicação. Isso significa que essa pessoa toma as decisões nessa área da organização. É responsável por aquilo que publicamos para nossa equipe e pelos conteúdos que circulam em nossos canais de comunicação para rede e para os nossos públicos.
Nome da pessoa 2 - Faz os roteiros, vídeos e postagens nas nossas redes. 
Nome da pessoa 3 - Garante que nossa voz como organização esteja alinhada com a nossa missão no mundo e promove o diálogo da instituição com as pessoas que financiam a organização.  

3. Entenda as faixas salariais como balizas de responsabilidade de cada pessoa/função e crie cargos que ajudem a descrever o fazer das pessoas. 
diretora, coordenadora, analista, estagiária, etc.
Busque nomes que sejam adequados pra vocês se entenderem e para que as pessoas com quem vocês se relacionam também possam compreender. 

4. Desenhe a relação entre essas pessoas. 
Quem lidera quem? Quem olha pelo trabalho de quem? 
Quem conta com o apoio de quem? 
Ligue os pontos ;)

5. Se no dia a dia houver desconforto, reveja, conversem e cheguem a um novo formato. Mas atenção: às vezes essa acomodação pode levar um tempo, então, colocar prazos para essa revisão de organograma pode ser uma estratégia para dar um tempo sem deixar de olhar novamente para o desenho que representa o fazer de vocês. 

6. Pra gente o jeito certo de fazer é o jeito que vocês encontraram de fazer dar certo! Boas conversas, desenhos e caminhos. Que nosso baobá possa te inspirar :)

A primeira casa a gente nunca esquece

Antes de seguir para história de hoje, quero aproveitar e te pedir uma força. A Redação Aberta, nosso evento recorrente que acontecia online desde a pandemia, vai voltar a ser presencial.

Queremos aprofundar as relações e fomentar articulações entre jornalistas da nossa rede. A primeira edição neste formato vai ser no Capão Redondo, em São Paulo, em parceria com o Manda Notícias, Escola de Dados e Base dos Dados. Saiba mais no nosso Instagram.

Para fazer essa ideia acontecer, estamos levantando uma grana na nossa campanha de financiamento recorrente. Com uma assinatura de R$ 10 mensais você já apoia demais o nosso corre. Clique aqui e assine! Compartilhe com seus contatos! 

Voltando para a nossa newsletter… Você sabia que antes de ser chamada Énois, éramos conhecidas pelo projeto da revista Zzine? 

Bom, e falando em Capão Redondo, você vai entender hoje como essa região faz parte da história da Énois.

Para celebrar nossos 15 anos, não poderia deixar de visitar a primeira casa que nos acolheu. A Casa do Zezinho, ONG localizada na Zona Sul de São Paulo, numa região que engloba Capão Redondo, Jardim  Ângela e Jardim São Luís, e que oferece oficinas socioeducativas para cerca de 1.200 crianças e jovens no contraturno escolar. 

Foi lá que, em 2009, Amanda Rahra e Nina Weingrill, fundadoras da Énois, junto a outras profissionais e jornalistas-educadoras como Ana Aranha, Paula Takada e Mauricio Monteiro Filho, iniciaram o projeto da revista Zzine.

Nesse momento, o nome Énois ainda não existia. 

A Zzine era produzida em oficinas para jovens com uma média de 17 anos, em turmas com aproximadamente 19 jovens. As formações eram voltadas para áreas da produção jornalística como design, fotografia, escrita e entre outras. 

Os temas das edições e a linguagem eram escolhidos junto dos jovens repórteres. Foi assim que nasceu a primeira edição “Amizade Colorida: histórias de amigosnamorados e namoradosamigos”. 

No nosso acervo, você pode conhecer também as edições sobre bullying, sobre a necessidade de usar redes sociais com moderação, sobre mães que aprenderam a ler e filhos que aprenderam a ensinar e sobre a primeira edição da Copa Parque Santo Antônio.

Eu não poderia deixar de ir à Casa do Zezinho pra conhecer melhor essa história. 

Quem me recebeu lá foi Michael Douglas, ex-estudante da Zzine e atual coordenador de comunicação da Casa do Zezinho. Michael entrou no curso logo no início do projeto, em 2009. Tinha a função de elaborar o design das revistas. 

Para ele, a revista lhe proporcionou uma perspectiva de futuro. “A Énois marcou minha vida. O projeto já tinha uma energia única, reunindo mentes criativas em torno de uma causa nobre como a Casa do Zezinho. Foi uma experiência transformadora ver fotografia, design, escrita e outras áreas se unirem para expandir a visão dos jovens. Eu fui um dos beneficiados, especialmente na área de design, que não só me deu uma visão de trabalho, mas também um caminho claro para meus objetivos futuros”, comenta Michael.

Ao andar pelos corredores e salas da Casa do Zezinho, o espaço me lembrou muito a estrutura de uma escola. A grande diferença é que há inúmeras artes espalhadas pelo espaço. Artes de cerâmica, frases de filosofia, poemas e outros formatos que chamam bastante atenção pelas cores e lindezas produzidas por crianças e jovens. Enquanto Michael me apresentava o espaço, ele também compartilhava com muito orgulho a sua trajetória na comunicação.

“As reuniões de pautas eram meu momento preferido. Ficaram marcadas em minha memória porque nos sentíamos em um estúdio profissional, discutindo ideias e planejando projetos que faríamos com e para a comunidade. Foram nas reuniões de pautas que fui acendendo cada vez mais meu desejo por comunicar e produzir conteúdos”.

Quando Michael ainda estava fazendo formações na Zzine, ele iniciou como estagiário na Casa do Zezinho. Depois foi para assistente de criação, educador de design e agora coordenador de comunicação. Para ele, todas essas fases são impactos de projetos como a Zzine e a Casa do Zezinho. 

“Esses projetos não apenas me deram uma formação técnica, mas me proporcionaram uma compreensão mais profunda do impacto social e cultural da comunicação. Através das oficinas de design e jornalismo, pude vislumbrar horizontes que antes pareciam distantes, e isso moldou não apenas minha trajetória profissional, mas também minha visão de mundo”, comenta. 

É por isso que quando a gente fala que a hora de transformar o jornalismo é sempre o agora, não falamos só palavras de efeito.

São 30 anos de Casa do Zezinho e 15 anos de Énois. Da Zzine e da Casa do Zezinho, a Énois guarda a mesma energia única mencionada por Michael. Uma energia que acredita na comunicação e na educação como potenciais transformadoras das realidades de jovens e tantas outras pessoas  que passam por essas organizações. 

Levei duas edições impressas da revista Zzine e Michael sentou e ficou folheando com um sorrisão no rosto lembrando cada arte que criou, cada matéria produzida. Fica o desejo dele de que outras pessoas possam ter a mesma oportunidade que ele teve, de perspectiva e futuro. E que a Énois possa construir mais 30, 40, 60 anos de uma bonita trajetória. 

Gostou dessa história? Fica por aqui! A gente ainda tem muito o que contar sobre nossos 15 anos.

A gente sempre foi um bonde

A gente sempre foi um bonde

Oi! Aqui é Glória Maria, comunicadora institucional da Énois. 

Continuo com a missão de ocupar a newsletter Énois que tá junto! com histórias dos nossos 15 anos de existência. 

Pois bem.. eu e Helena Dias, coordenadora de Comunicação Institucional da Énois, no final de junho, fomos à casa de Amanda Rahra, co-fundadora e diretora de Mobilização, acompanhar o preparo do bolo de aniversário da organização, apesar da nossa festa estar prevista para o final do ano. Foi tipo o primeiro bolo da comemoração. 

Enquanto Amanda misturava os ingredientes e ajustava o forno, a gente conversava sobre o nascimento da organização e, principalmente, sobre o nome “Énois”. Para mim, é uma gíria que demonstra coletividade como “Tamo junto!”, por exemplo. 

Amanda Rahra lembrou que a ideia do nome surgiu na Casa do Zezinho, nosso primeiro espaço de atuação, onde ela e Nina Weingrill, também co-fundadora da Énois, davam formação para jovens do ensino médio e produziam a Revista Zzine, revista que por cerca de três anos foi a materialização da Énois. 
A escolha foi feita com a própria turma de jovens. Todos estavam de acordo que seria uma Escola de Jornalismo das quebradas. Mas, como nomear? A dúvida durou por um bom tempo. Vieram outros momentos, trabalhos e projetos. Captações e parcerias (muito bem contadas no nosso livro de 13 anos… Já leu?). 

Em meados de 2012, o entendimento de que a Énois precisava se tornar uma organização tomava corpo e a decisão coletiva foi fazer acontecer. Neste momento, a galera disse: "É nós, vamos fazer!". E assim o nome ficou. 

Pesquisando sobre a expressão, Amanda compartilhou com o grupo a definição de Noemi Jaffe que diz que "Nois é tudo", uma concordância do "é" com "nós". "Esse conceito sintetiza perfeitamente a ideia de grupo, de coletividade. Foi essencial para fortalecer o nosso coletivo, pois sempre fomos um bonde, um grupo unido. A escolha do nome 'Nois' refletia essa união", acrescenta Amanda. 

Nessa altura da história, na casa de Amanda, em 2024, direto de São Paulo, o bolo de cacau já estava no forno… E refletimos sobre como a receita que fez a Énois é parecida com a mistura de ingredientes que a gente acabava de ver acontecer. 

Enquanto Amanda batia o bolo, ela pontuava que estava fazendo sem saber fazer. Ficou uma delícia! E com a calda de cacau e morangos, então? 

A Énois nasceu assim, ninguém sabia direito como fazer uma Escola de Jornalismo. Cada pessoa envolvida tinha uma parte do conhecimento. Um sabia fazer clara em neve, outro tinha cacau do Pará e outro sugeriu ralar o chocolate em vez de derretê-lo. 

"Fomos construindo esse bolo juntos, experimentando e aprendendo na prática. Essa é a essência da Énois: um processo coletivo de construção, em que cada uma contribui com o que sabe e todos aprendem juntos", conta Amanda. 

A nossa caminhada desses 15 anos é como um bolo que nunca está totalmente pronto. Acreditamos e estamos sempre compromissadas em melhorar. "E se colocássemos um pouquinho de canela? E se tivéssemos adicionado pedaços de chocolate no meio? E as castanhas?". 

A nossa jornada é contínua, uma construção constante. Nois não é um bolo de pote, com fatias pré-definidas. É um bolo com muitas fatias, sempre em transformação.

Estamos aqui, crescemos nesses 15 anos. Erramos, acertamos e expandimos. O objetivo, que mais tem cara de processo, é entender como podemos impulsionar cada vez mais a nossa Rede Énois. 

Cada iniciativa que integra a nossa rede traz um ingrediente novo com o qual aprendemos. A receita do bolo e da Énois pode se renovar diversas vezes, mas a essência é inegociável: coletividade e partilha. 

Gostou dessa história? Fica por aqui! A gente ainda tem muito o que contar nesses 15 anos. 

O Pratinho Firmeza agora é Brasil

2024 é um ano de eleições municipais. E o que seria mais valioso debater senão a alimentação das nossas crianças e como ela acontece em diversas cidades brasileiras? A Énois Laboratório de Jornalismo junto às iniciativas Carta Amazônia (PA), Nonada Jornalismo (RS), Nós Mulheres da Periferia (SP), Teatrine TV (MS) e Tejucupapos (PE) acreditam que esta pauta é urgente.

E é pensando nisso que, na última terça-feira (23/07), lançaram o Pratinho Firmeza Brasil, um guia que traz estratégias educacionais de escolas públicas das cinco regiões do Brasil voltadas para o direito à alimentação saudável na infância. É a segunda edição do guia que tem foco no público infanto-juvenil e, desta vez, estamos comemorando a sua abrangência nacional. Confira: pratofirmeza.com.br

A primeira edição do Pratinho Firmeza foi feita nas periferias de São Paulo, trazendo a conexão entre as receitas de família, o lugar das crianças na cozinha e as possibilidades de comer bem e a preço justo com as crias nos rolês periféricos. Agora, colocamos o espaço da escola como centralidade do debate.

Para muitas crianças que vivem em situação de insegurança alimentar, em sua maioria nas periferias do nosso país, a refeição escolar pode ser a única do dia. É tamanha a responsabilidade que, no período de isolamento social na pandemia da Covid-19, muitas escolas públicas brasileiras chegaram a distribuir cestas básicas e outros tipos de alimentos para as famílias de estudantes, como garantia de alimentação enquanto as aulas estavam suspensas.

Cecília Amorim, coordenadora do Pratinho Firmeza Brasil, destaca a importância da alimentação como ferramenta de transformação social. “Sou uma pessoa que vem de escola pública, de uma família sem recursos financeiros. E então a alimentação das escolas pra mim era a principal refeição do dia. Repensar a merenda escolar, como faz o guia, é importante para combater a insegurança alimentar que existe ainda hoje”. O Pratinho Firmeza Brasil é viabilizado por meio de Lei de Incentivo à Cultura em âmbito federal e tem patrocínio do RD Saúde. A versão impressa do guia será lançada em breve pela Énois e as iniciativas parceiras.

A realização do guia também marca a comemoração de 15 anos da Énois, em 2024. A organização que atua fortalecendo o ecossistema do jornalismo local celebra esses expressivos anos de caminhada fazendo aquilo que representa a essência do seu trabalho: realizar em rede e impulsionar o jornalismo diverso quando o assunto é território, raça e gênero.

O que você encontra no guia

Prefeituras e vereanças serão eleitas em outubro em todas as cidades brasileiras e a educação infantil pública é responsabilidade das gestões municipais. Você sabe a quantas anda o debate da merenda escolar na sua cidade?

O que o Pratinho Firmeza Brasil mostra é que dá para fazer muita coisa bacana quando o assunto é escola pública e direito à alimentação saudável na infância, o que precisa é a garantia de estrutura, investimento e iniciativa do poder público.

Com uma linguagem lúdica que dialoga diretamente com as crianças e jovens, o livro é guiado pela personagem fictícia Ayó, uma menina negra, de 6 anos. Ela é uma criança com deficiência física e, por isso, está sempre acompanhada da sua cadeira de rodas enquanto conduz a narrativa Pratinho Firmeza Brasil.

Ayó se apresenta, começa explicando o que é uma horta e a sua relação com a terra desde pequeninha e também como ela se dá na horta da escola.

É desse ponto de partida que ela nos leva para as reportagens feitas pelas cinco iniciativas de jornalismo local parceiras da Énois no projeto, nas cidades de Belém (PA), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Campo Grande (MS) e Camaragibe (PE).

As reportagens focam nas crianças e suas relações com a alimentação no âmbito escolar e são acompanhadas do quadro “O caminho da merenda”, que traz detalhes sobre o planejamento, a produção e o fornecimento da merenda em cada uma das cinco escolas.

Você confere também uma receita regional que faz sucesso com a criançada. É alimentação saudável, reivindicação de direitos e políticas públicas e diversidade regional da nossa cultura alimentar.

Ao final do guia, você encontra o jogo de tabuleiro “O que tem no pratinho?”, que tem o objetivo de fazer as crianças e suas famílias refletirem sobre o que é ou não um alimento saudável.

Massa, né? Clique aqui e baixe o guia!
Te convidamos a conhecer a sua diversidade jornalística e cultural.

O Prato Firmeza

O Prato Firmeza é o primeiro guia gastronômico a mapear restaurantes, bares, lanchonetes e carrinhos de comida das periferias brasileiras. Em suas três primeiras edições (2017, 2018 e 2019), trouxe estabelecimentos que estão fora do radar da gastronomia da cidade de São Paulo, a partir do olhar de jovens repórteres locais formados pela Escola de Jornalismo da Énois. Sempre com um olhar sensível, local e diverso.

Em 2020, a quarta edição do Prato Firmeza deu um passo muito significativo, aproximando os debates levantados pelo programa à luta antirracista. Com uma equipe 98% formada por pessoas negras, mapeou empreendimentos de pessoas negras, contando com produção jornalística dos coletivos Agência Mural, Alma Preta, Periferia em Movimento, Preto Império e Vozes das Periferias e parceria com a Feira Preta.

Em 2021, o projeto recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Economia Criativa, pelo Prato Firmeza Preto. E também organizou junto com data_labe e LabJaca o Prato Firmeza RJ (Rio de Janeiro).  Já em 2022, em parceria com PerifaCon e redação do Alma Preta, foi realizado o Prato Firmeza Geek, que apresentou cozinheiros inventivos do universo nerd, das periferias de São Paulo.

Em 2023, o guia ganha abrangência nacional com a edição “Prato Firmeza: um diálogo entre campo e cidade”, que evidenciou o caminho que o alimento faz até chegar em estabelecimentos de comida das periferias de 10 capitais do Brasil, abordando também a temática da agricultura familiar e produtores locais. No mesmo ano, a Énois também lançou o Pratinho Firmeza SP.

Eu tenho uma história de amor com a Énois

Oi! Aqui quem escreve é Glória Maria, comunicadora institucional da Énois.

Se você acompanha o trabalho da Énois com frequência, deve ter notado que colocamos a nossa campanha de 15 anos na rua, com um manifesto que resgata a história da organização no mesmo passo que alimenta as nossas perspectivas de futuro impulsionando o jornalismo diverso, feito em territórios populares Brasil afora e, quiçá um dia, na América Latina.

Falo sobre isso porque trago novidades na volta da nossa newsletter “Énois que tá junto!”. Esse espaço continuará sendo ocupado por histórias do jornalismo local com a Énois, mas toma uma nova roupagem… Após um mergulho da nossa equipe nesses 15 anos de caminhada, elegemos alguns marcos que precisamos compartilhar com vocês.

Eu diria que, a partir de hoje, contarei histórias de amor com a Énois. E escolhi começar com a minha.

Sou ex-aluna da Escola de Jornalismo da organização, mãe da Emanuele e moradora de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, localizada na Zona Sul da cidade. Me recordo como se fosse ontem… Em 2017, eu era uma jovem negra e de periferia, com 17 anos, que buscava oportunidades gratuitas na área de comunicação. Logo depois de finalizar a formação “Você Repórter da Periferia” do Desenrola e Não me Enrola, encontrei a Énois pelas redes sociais e mergulhei em mais um processo formativo que durou um ano. 

Um ano que mais parecia 10, de tanta transformação e aprendizado…

Neste período, acabei mergulhando também em reflexões e experiências que forjaram muito do que sou hoje. Fui parar no Rio de Janeiro, em meados de novembro do mesmo ano, com minha turma formada por 10 jovens das periferias de São Paulo, para produzir uma reportagem “Conexão Quebrada” em colaboração com o data_labe, em que pautamos o problema de acesso à internet nas periferias cariocas e paulistas.

Minha filha Emanuele, mais conhecida como Manu pelas amizades e a família, tinha 4 anos de idade e pode me acompanhar nessa empreitada. Enquanto eu vivia um intercâmbio de vivências com diversos jovens por meio do jornalismo, ela via o mar pela primeira vez. Amanda Rahra, co-fundadora e diretora de Mobilização da Énois, junto a Gilberto Vieira, co-fundador do data_labe, passaram o dia com ela na praia do Leme.

Manu fascinada pela imensidão azul e com os pés na areia. Eu de olhos, ouvidos e coração atentos à pauta, também parecia ver o mar pela primeira vez. Um outro mar que se chamava jornalismo feito por quem vive a realidade do nosso país.

Foi com essa sensação que me formei jornalista na Énois,  em 2017. O começo de uma trajetória que se conecta com a cultura e diversos outros projetos sociais. Dei umas andadas pela área de cinema, quando peguei experiência com produções audiovisuais. Fiz um freela para a Énois e me tornei residente da área Formação, em que atuei por dois anos, e depois fui para a comunicação. Daqui, escrevo como comunicadora institucional de uma organização em que me formei…

Hoje, toco projetos sociais em Paraisópolis, como o 7 Notas, um estúdio comunitário que realiza formações para músicos das periferias, e que agora toma outros rumos com parceiros como a Canguru Records, um selo da Universal Music, onde nos juntamos dando origem a Canguru Paraisópolis, assim, continuamos abrindo espaço para esses jovens, que muitas vezes não tem condições de pagar para produzir seu som, e distribuir com toda formalização em dia. A estruturação do 7 Notas, também veio de muitas experiências e acessos que tenho dentro da Énois, como uma estruturação de relatório de prestação de contas, meios de captação de recursos, escrita de projetos e outras mil e uma coisas. A Énois também é esse lugar que compartilha e troca conhecimentos,  apoiando iniciativas das periferias como o 7 Notas. 

Hoje, celebro a Énois como uma escola da vida.
Minha história de amor e transformação regada ao compromisso com a diversidade. Em 15 anos, a Énois conseguiu se conectar com muitas pessoas assim como eu. Aqui, tem gente de Paraisópolis, gente da Zona Leste de São Paulo… Gente de todas as regiões do país que vêem no jornalismo um lugar para combater desigualdades e fortalecer seus territórios.

Esse relato é um pouquinho da minha história de amor com a Énois. Me conta… Como chegou aí para você? Por cá, ainda vamos contar bastante coisa nas próximas edições dessa news.

Nas redes sociais, levantamos a tag #EueaÉnois para quem também quiser contar com a gente a sua história de amor com a organização. Bacana, né? Vem com a  gente!