Énois marca presença na Blue Zone da COP30, em Belém (PA)

A Énois marcou presença na Blue Zone da COP30, em Belém (PA), levando para o centro das negociações globais um debate que nasce dos territórios. No painel Food, Climate and Territory: Building Resilient Food Systems for Climate Adaptation, realizado no Regional Climate Foundations Pavilion, nossa gerente do Laboratório de Comunicação, Jessica Mota, apresentou a abordagem do Prato Firmeza Amazônia reforçando que a cultura alimentar é identidade, tecnologia e estratégia de adaptação climática.

O Prato Firmeza mostra que a adaptação climática já acontece nas cozinhas e saberes que sustentam a vida na Amazônia. Essa perspectiva se somou às contribuições da Global Alliance for Improved Nutrition (GAIN), do Instituto Comida do Amanhã, do Pacto Contra a Fome Brasil e do Rabobank América do Sul, que moderou a conversa.

Durante o debate, foi potente observar como diferentes frentes dos sistemas alimentares, mesmo com trajetórias diversas, convergem em um ponto comum: fortalecer a sabedoria dos territórios e reconhecer que soluções de adaptação climática já existem e nascem das comunidades.

Jéssica também ressaltou como comunicação, educação e cultura são ferramentas capazes de gerar engajamento social profundo e ampliar políticas públicas que apoiem alimentos produzidos nos territórios, com justiça social, nutricional e climática.

Ao levar o Prato Firmeza Amazônia para a Blue Zone, reafirmamos nosso compromisso com uma comunicação que fortalece territórios e coloca as histórias da Amazônia no centro do debate sobre o futuro dos sistemas alimentares.

Que a COP30 seja a da comida  

O acesso à alimentação e o combate à fome se tornaram meta climática e ganharam centralidade nas discussões

Simone Cunha (*)

Enquanto parte das conversas e da cobertura sobre COP30 se ocupam dos preços da comida na cúpula e do preconceito em relação à alimentação tradicional do Pará, há uma construção mais urgente acontecendo em Belém: o acesso à alimentação e o combate à fome se tornaram meta climática e ganharam centralidade nas discussões. É por conta disso que essa COP pode ficar conhecida como COP da comida.

Já na organização da conferência, a organização estabeleceu metas práticas para implementar a mudança que se discute diplomaticamente: 30% da alimentação servida durante a conferência deve vir da agricultura familiar, de práticas agroecológicas ou da sociobiodiversidade. Dois dias da programação oficial serão dedicados à discussão sobre sistemas alimentares (19 e 20/11). E na pré-COP, a Cúpula do Clima, 44 países assinaram a “Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas”, que coloca o combate à fome como prioridade climática.

texto reconhece que agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores rurais são, ao mesmo tempo, os mais vulneráveis à crise climática e os principais agentes de resiliência dos sistemas alimentares globais. Por isso, a declaração defende que o financiamento climático apoie meios de subsistência sustentáveis para essas populações, garantindo que a ação climática também gere empregos dignos, acesso a direitos e oportunidades econômicas para quem produz.

Já na abertura, o presidente Lula reforçou que a crise climática precisa ser combatida e compreendida pelo cotidiano, ao afirmar que “as pessoas podem não entender o que são emissões ou toneladas métricas de carbono, mas sentem a poluição”. Da mesma forma, podem não entender que é a evapotranspiração que abastece os rios e mantém a temperatura da terra, mas são impactadas quando não encontram certos alimentos na feira por falta seca.

A carta de Belém contra a fome reconhece que a crise climática já impacta o cotidiano e está aumentando a desigualdade, exacerbando a pobreza e fome, e isso precisa ser levado em conta na ação climática, ou irá piorar. O documento aponta que os pequenos produtores, de comunidades tradicionais estão entre os mais vulneráveis à crise climática e também são fundamentais como resposta, construindo sistemas alimentares sustentáveis, com desenvolvimento econômico e estabilidade social local – ainda mais se decentemente apoiados. Para isso, prevê investimento em soluções de prevenção a riscos climáticos, maior acesso a estruturas de financiamento e políticas públicas.

Em meio a essa virada na narrativa climática global, iniciativas locais que tratam a alimentação como ferramenta de transformação são fundamentais para estourar a bolha da COP e manter essa agenda de pé e na mesa das pessoas.

O recém-lançado Prato Firmeza Amazônia, produzido por comunicadores periféricos do Tapajós de FatoPuxirum do Bem Viver e Pavulagem, é um exemplo. O guia mapeia ingredientes, receitas e histórias que mostram como a cultura alimentar pode ser ao mesmo tempo resistência, regeneração ambiental e acesso a direitos com base nas comunidades.

Que a COP30 fique conhecida como COP da alimentação e traga para a mesa a justiça climática como prática e os pratos com comida tradicional e local como realidade. E que a segurança alimentar, além de pauta de urgência e de COP, se estabeleça como agenda de implementação – fome e crise climática andam juntas e as soluções também.

(*) Diretora de desenvolvimento institucional da Énois, organização que apoia o desenvolvimento de iniciativas nascentes de comunicação e cultura nas periferias do Brasil e criou o Prato Firmeza como plataforma que conecta informação e alimentação nas periferias brasileiras.

Texto originalmente no Sul 21

Compartilhando aprendizados na COP 30

No último dia 11, durante a COP30, a Énois esteve presente no Belém+10, encontro realizado em parceria com o Instituto Mapinguari e o Sustentarea.

Nossa gerente do Laboratório Énois, Jessica Mota, integrou a mesa de debate para compartilhar aprendizados do Prato Firmeza Amazônia. A conversa trouxe reflexões potentes sobre como alimentação e clima são agendas profundamente conectadas, e como a cultura alimentar dos povos tradicionais da Amazônia precisa ser reconhecida como solução climática. Reforçamos sobre o valor da tradição como futuro, e sobre a urgência de fortalecer esses saberes e práticas por meio de políticas públicas.

O debate também passou por temas como distribuição, comercialização, fortalecimento de feiras e pela importância de articular essas discussões às políticas nacionais já existentes, como a nova legislação que determina que, a partir de 1º de janeiro de 2026, 45% dos recursos da merenda escolar devem ser destinados à compra de alimentos da agricultura familiar local (Lei nº 15.226/2025).

Temos mecanismos importantes no Brasil, mas precisamos fazer com que eles saiam do papel. É fundamental pressionar o poder público para que sejam implementados de fato, e para que o Brasil assuma um papel de liderança nas discussões da COP sobre alimentação como política climática, um tema que ainda não recebe a centralidade necessária nas negociações internacionais.

Seguimos na construção coletiva para que comida, território e clima caminhem juntos nas decisões que moldam o nosso futuro.

Comer é um ato político e climático: o manifesto do Prato Firmeza Amazônia

A primeira Conferência Climática na Amazônia começa hoje, dia 10, e manterá os holofotes voltados para as negociações e as ações para reduzir os efeitos da crise climática.

Na Énois, falamos dos efeitos do clima no dia a dia, na comida, nos territórios e na justiça social. Nesta COP 30 falaremos por meio do Prato Firmeza Amazônia – Raízes da Culinária Tradicional Brasileira, que valoriza a cultura alimentar da região e registra modos de fazer e produzir o alimento amazônico; sabores da cidade em empreendimentos locais; e mestres e mestras da comida.

Capa: Prato Firmeza Amazônia

Em parceria com Tapajós de Fato (Belém/PA) e Puxirum do Bem Viver (Manaus/AM), essa edição mostra pratos feitos com base em tecnologias de cultivo, conservação e preparo integradas com a vida em volta. Saberes, histórias e resistências que são contadas também nos episódios produzidos por Maickson Serrão, do podcast Pavulagem.

Só que é difícil garantir pratos cheios e saudáveis sem falar também do preço da comida. Afinal, os impostos podem representar até 35% do valor dos produtos de supermercado. Para as famílias mais pobres, o impacto é ainda maior: nas classes D e E, até 50% da renda é comprometida com alimentação, afetando diretamente as periferias. Por isso, esta semana lançaremos no site do Prato Firmeza a Cartilha Prato Firmeza – alimentação, clima e justiça tributária.

Para a Énois, falar de clima na COP da Amazônia é falar da alimentação que adia o fim do mundo e da justiça tributária que aumenta o acesso à comida boa para quem ganha menos.

Se junte ao Manifesto do Prato Firmeza:

Comer é um ato político. E é também um ato climático. O que no prato revela o que cultivamos como sociedade, seja nas políticas públicas, nos territórios ou nas relações com o meio ambiente.

A Énois nasceu da ação nas periferias e nelas aprendemos que a comunicação tem força para mover o cotidiano e transformar realidades. Com o Prato Firmeza Amazônia, afirmamos que a comida é uma das linguagens mais importantes para falar de clima, cultura e justiça socioambiental.

Em dez anos, o Prato Firmeza conectou comunicadores, cozinheiras, chefs, empreendedores e comunidades em todo o país. Mapeamos restaurantes periféricos e fortalecemos o direito à alimentação saudável, valorizando saberes e ingredientes locais.

Discutir alimentação é discutir clima. Os sistemas alimentares, da produção ao descarte, respondem por mais de ⅓ das emissões globais de gases de efeito estufa. Apoiados em monocultura e exportação, envenenam a terra e ameaçam culturas alimentares locais.

As agricultoras familiares e as cozinheiras de bairro, por outro lado, já praticam caminhos sustentáveis, baseados na diversidade e na cooperação. É o que mostra o Prato Firmeza Amazônia, que traduz esses caminhos em histórias reais e experiências que podem inspirar políticas públicas e apontar o papel da cultura alimentar na adaptação à crise climática.

Esses caminhos são resistência. Os sistemas alimentares recebem menos de 3% do financiamento climático global e é urgente investir em práticas justas e sustentáveis nas periferias, com os territórios e para o país. Chamam de blended finance e nós chamamos de rede. Uma coalizão entre filantropia, empresas e poder público para manter viva a comida de verdade, de origem e de futuro.

O Prato Firmeza é a síntese da agenda climática no cotidiano das pessoas. É biodiversidade, saúde e cultura. É o direito de existir e se alimentar no próprio território.

E é também um convite: para que financiadores, parceiros e instituições que acreditam em uma transição justa façam parte dessa construção.

Acesse os produtos do Prato Firmeza Amazônia gratuitamente:

📖 baixe o livro digital [aqui] 🎧 ouça o podcast [aqui]

Comida é resistência: guia mapeia sabores de Belém e debate clima, periferia e ancestralidade

“Sem justiça alimentar, não há justiça climática”

A crise climática afeta diretamente a produção de alimentos e o acesso à comida. Não é possível falar em justiça climática ignorando quem planta, pesca, colhe e cozinha. Garantir justiça alimentar significa questionar modos de produção devastadores e reconhecer e valorizar os saberes e modos de produção tradicionais, assegurando acesso digno e sustentável à alimentação, protegendo territórios que sustentam a vida. Sem isso, qualquer agenda climática será incompleta e injusta.

Muito prazer, sou o Prato Firmeza Amazônia – raízes da culinária tradicional brasileira,  um produto da Énois, um laboratório de comunicação que apoia coletivos nascentes das periferias para fortalecer o bem viver por meio da comunicação comunitária.

Te convido para um novo olhar sobre clima e alimentação no Pará, em Belém, na Amazônia. Trago esses temas e muito mais:

  • Culinária indígena como solução climática: alimentos e técnicas ancestrais são reconhecidos pela FAO como sistemas resilientes, que mantêm a floresta em pé e preservam a biodiversidade e isso está nítido nos conteúdos produzidos dentro dos territórios indígenas e nas áreas urbanas.
  • Impactos da crise climática em restaurantes periféricos: mostro uma outra perspectiva sobre empreendedores populares que relatam dificuldades com alta de preços, escassez de insumos e eventos extremos como cheias e secas, um reflexo claro da crise ambiental global.
  • A alimentação e a COP30: trago um horizonte decisivo na mitigação da crise climática, que vem sendo pouco debatido nos diálogos da COP30. Além de mostrar claramente como o alimento ancestral e típico da Amazônia é um aliado na luta contra a extinção do planeta, já que, estudos do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima mostram que 75% das emissões de gases no Brasil vêm de sistemas alimentares predatórios, enquanto a produção comunitária mostra que outro caminho sustentável é possível, porém ainda invisibilizado e excluído, como foi o caso recente da proibição da entrada do tucupi, maniçoba e açaí nos espaços da COP, em Belém.

Histórias de Belém/Pará que ganham destaque no guia:

  • Onde a comida é feita com muito carinho e sabor caseiro – No meio da Vila da Barca, em Belém, o Calmaria da Amélia é ponto certo para quem busca comida farta, caseira e cheia de amor. Um local onde o empreendedorismo se faz com o coração e enfrenta os reflexos da crise socioambiental no dia a dia.
  • Sabores da terra servidos no coração de um bosque – Rodeado de uma área verde em Belém, Delícias do Bosque resgata receitas ancestrais e serve pratos cheios de história e sabor.
  • A força de um empreendimento culinário nas periferias de Belém – Na capital paraense, o restaurante As Negonas mostra como o alimento pode ser também ferramenta de transformação social e afirmação de identidade e sobretudo de combate ao racismo, pois comer também é um ato político.
  • A história de uma vida temperada por raízes, memórias e resistência – Criada na roça, filha de quilombolas e apaixonada pela natureza, Ana Maria Batista transformou sua vivência no Marajó em tempero e tradição que hoje alimentam Belém com memória, afeto e sustentabilidade.
  • Resistência quilombola, desafios ambientais e a preservação da agricultura familiar – Na comunidade quilombola de Abacatal, a luta pela preservação do patrimônio, pela educação de qualidade e pelo acesso a direitos se conecta à resistência da agricultura familiar, que ainda enfrenta desafios impostos pela crise climática e pela pandemia.
  • Alimentar é preservar– Na aldeia Aminã, no coração do rio Arapiuns, no município de Santarém, a comida tradicional fortalece a saúde, a cultura e a resistência do povo diante das mudanças climáticas.

“E é nesse contexto que a Amazônia tem a chance de saltar do estereótipo do exótico, do folclórico, da ‘comida diferente’, para uma posição de protagonismo global. Afinal, enquanto o mundo discute como alimentar populações de forma sustentável e regenerativa, a resposta já vem sendo praticada há séculos pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais da Amazônia.”
Thiago Castanho, Chef, cozinheiro paraense e pesquisador da culinária amazônica.

Conheça mais sobre a minha história: 

Eu, o Prato Firmeza, nasci em 2016 quando a Énois ainda era uma escola de jornalismo dedicada à formação de jovens comunicadores e cresci junto com a organização, me tornando uma plataforma que conecta comunicação e alimentação nas favelas e periferias do Brasil, gerando renda e fortalecendo iniciativas de comunicação locais e a construção de territórios mais saudáveis.

“O Prato Firmeza nasceu valorizando a comida de quebrada, feita por produtores locais – o cachorro-quente, o hambúrguer e as comidas de rua. E, ao longo dos anos, foi se transformando. Hoje, ele ocupa um lugar que discute direito à alimentação, soberania alimentar, cultura alimentar e a urgência de pensar quais são os pratos que estão e vão adiar o fim do mundo. A Énois já distribuiu mais de 20 mil livros impressos e contabiliza milhares de downloads online, impactando direta e indiretamente cerca de 2 milhões de pessoas.”
Amanda Rahra, fundadora e diretora de operações da Énois

Eu também já gerei mais de 1 mil empregos por meio de eventos, distribuições e formações presenciais e online, além de ampliação dos restaurantes e fortalecimento dos empreendedores periféricos. Assim, tenho cumprido meu propósito e da Énois, que acredita que a informação pode fazer a diferença na vida de uma comunidade, fortalecendo organizações de comunicação nas periferias de todos os estados do Brasil, garantindo acesso a informações essenciais sobre educação, saúde, segurança e justiça. Valorizando os saberes locais e conectando comunidades para ampliar seu acesso a oportunidades e direitos.

Espero que você me leia nesta nova edição e que possamos juntos levar informação, conscientização e oportunidades para milhares de pessoas.

O Prato Firmeza Amazônia: raízes da culinária tradicional brasileira é um projeto realizado pela Énois e pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Patrocínio do Assaí e da RD Saúde. Apoio da WWF, Instituto Clima e Sociedade e Instituto Ibirapitanga. Tem acessibilidade de Amanda LeLibras, tradução indígena pela Coordenação de Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), e tem como parcerias de produção: Pavulagem, Puxirum do Bem Viver e Tapajós de Fato.

O prato como chave para entender sistemas alimentares

Comer um prato típico não é só uma questão de gosto, mas também de biodiversidade, saúde, cultura e justiça socioambiental. A culinária local de um território guarda técnicas e conhecimentos essenciais para a nutrição e sobrevivência de um povo. São os sistemas alimentares locais que podem ser vistos como soluções para a vida e para a maior crise que a humanidade enfrenta no momento: a climática.

Sistemas alimentares são as redes que conectam produção, distribuição, consumo e descarte de alimentos, incluindo seus impactos sociais, culturais, econômicos e ambientais. É por meio deles que entendemos como o que vai à mesa está ligado a políticas públicas, ao uso da terra, à preservação da biodiversidade e até à saúde de comunidades inteiras.

Segundo a ONU, eles são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa — e por isso estão no centro das negociações climáticas. De acordo com o Observatório do Clima, “isso ocorre porque os sistemas de produção baseados em monoculturas extensivas e na abertura de pastagens para alimentar rebanhos têm seu modelo econômico fortemente amparado na abertura de novas áreas e no uso de queimadas como ferramenta de manejo.”

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apenas cinco safras – arroz, trigo, milho, painço e sorgo – fornecem cerca de 50% de nossas necessidades energéticas.

Em contraponto, historicamente, modos de vida tradicionais já sustentavam sistemas alimentares diversos, nutritivos e resilientes. Povos indígenas, por exemplo, preservaram cultivos nativos como a mandioca, o açaí e a castanha, fundamentais não apenas para sua sobrevivência, mas também para a segurança alimentar global. No entanto, ainda hoje as políticas públicas de agricultura tendem a priorizar monoculturas de exportação, que envenenam a terra e as águas, empobrecem solos e fragilizam o futuro.

O Prato Firmeza Amazônia, uma iniciativa da Énois, materializa esse debate ao traduzir conceitos complexos em experiências cotidianas. Isso porque, a produção alimentar amazônica é chave para reduzir emissões e fortalecer sistemas sustentáveis de produção. E cada história contada no livro e no podcast mostra a relação direta entre um prato e o bioma que o sustenta. Em Manaus, a lanchonete J&J compra direto de agricultores orgânicos locais. Em Belém, o Delícias do Bosque serve açaí vindo de quilombolas do Tororomba. São exemplos que revelam como a gastronomia de base comunitária, periférica e orgânica tende a ter baixa emissão de carbono, ao evitar grandes cadeias de produção e transporte, valorizando a biodiversidade e fortalecendo economias locais.

E essas também já sentem nitidamente os impactos da crise climática. Em época de cheia do rio Negro, em Manaus, seu Frank Hudson, que está à frente da Peixaria do Jokka, negócio familiar, observa que as alterações no movimento das águas influencia o custo do pescado. “Às vezes o rio não chega a passar do nível dos lagos, para que saiam os peixes que estão dentro dos lagos. Só quem conhece mesmo pode pegar esse peixe lá nas fronteiras, para poder trazer para casa. Isso tem um custo muito alto. Quando chega aqui, está caríssimo.”, completa.

Em Santarém, Orleidiane Tupaiú, na Aldeia Aminã, nos lembra que alimentar é também preservar território, cultura e saúde frente ao contexto.“As mudanças climáticas podem afetar a produção e a disponibilidade de alimentos tradicionais e principalmente, muita perda de conhecimento tradicional”, afirma com preocupação. Ou seja, manter a lógica do sistema alimentar que se baseia na monocultura que visa a exportação e o desmatamento, predominando apenas o lucro no lugar da segurança alimentar brasileira é uma sentença de morte para culturas alimentares locais e para comunidades que vivem do que plantam, e do que podem fornecer, em pequena escala, para comunidades vizinhas. Esse olhar para sistemas alimentares e para a gastronomia local se torna ainda mais urgente quando lembramos que apenas um em cada três jovens no Brasil sabe em qual bioma vive, segundo pesquisa de 2023 da Aliança Em Movimento. Sem compreender os biomas, fica impossível construir soluções justas para a crise climática que discutam o papel da indústria da alimentação e das opções que governos e empresas têm feito quando privilegiam a monocultura e a produção de gado extensiva. O dado escancara uma desconexão perigosa entre vida cotidiana e território, que só pode ser revertida com educação, cultura e informação acessível.

E você, conhece as frutas, carnes e vegetais típicos do bioma em que vive? Consegue encontrá-los com facilidade e a um custo acessível? Responder a essas perguntas já é se colocar dentro da discussão sobre sistemas alimentares e clima.

“Ao levantar essa discussão a partir de histórias de empreendedores das periferias e lideranças comunitárias com o Prato Firmeza, queremos trazer a conversa pra concretude do dia a dia. Mostrar como discutir sobre alimentação é indissociável do debate sobre racismo ambiental, sobre crise climática e sobre políticas públicas”, afirma Jessica Mota, coordenadora do projeto na Énois.

O Prato Firmeza Amazônia mostra, por meio de textos e do podcast, que comer é também um ato político e ambiental e que, para isso, democratizar informações sobre cultura alimentar pode ser um caminho para garantir o acesso de mais pessoas a uma alimentação adequada. Ele é um espaço de mapeamento, valorização e informação sobre as espécies usadas na alimentação amazônica.

Valorizar ingredientes, saberes e histórias locais significa preservar patrimônio genético e cultural. O Prato Firmeza Amazônia convida as pessoas a se reconhecerem em seus territórios, a defenderem os biomas e a perceberem que escolhas alimentares são escolhas de futuro. Afinal, se a crise climática é global, a resposta pode começar no prato.

Prato Firmeza 5 e as camadas de potência de comunicação popular no Brasil

Por Camila Rodrigues da Silva

A despeito das infinitas crises, o jornalismo ainda é sonho e potência de muitos jovens espalhados por esse Brasil. Esse é o sentimento latente na produção do “Prato Firmeza 5: um diálogo entre campo e cidade”, a primeira edição nacional do Guia Gastronômico das Quebradas, lançado em novembro de 2023. 

“O Prato Firmeza foi uma porta sendo aberta para infinitas possibilidades. Nosso coletivo nasceu, de fato, enquanto construíamos esse guia tão importante e desafiador. Passamos a nos enxergar enquanto comunicadores populares ao lado de movimentos sociais, entender o caminho da comida que sai do pequeno produtor e chega ao nosso prato, e poder contar as histórias que atravessam essa estrada”, comemora o Tejucupapos, de Recife (PE).

As dez iniciativas que participaram deste longo projeto nasceram há, no máximo, cinco anos. Elas são formadas por uma maioria de mulheres, pessoas negras e muitas pessoas LGBTQIAP+. São coletivos, produtoras, startups em diferentes graus de maturidade, mas já produzem informação relevante e de qualidade dentro de seu segmento e de seu território.

“Nós vínhamos há três anos fazendo uma cobertura hiperlocal, focados em temas relacionados à nossa região, e o Prato Firmeza ofereceu a possibilidade de respirar novos ares”, avalia a equipe da Agência Lume, que atua na zona oeste do Rio de Janeiro (RJ). O campo, os rios e mares foram fontes dos novos ares desses mais de dezenas de comunicadores que tiveram o esforço de entender o “caminho da comida” nas suas periferias.

“O principal impacto para nós foi a ampliação do debate sobre segurança alimentar e sobre como é o mercado para o pequeno produtor e para o consumidor final”, avaliou o Reocupa, de São Luís (MA). 

Na mesma linha, o Coletivo Aruandê, de Salvador (BA), afirma que conseguiu ver um lado do próprio estado que não conhecia. “E a gente passou a levar muito mais a sério essa relação do campo, da cidade, de quem planta, quem colhe, quem luta pra manter ali o seu próprio negócio”. Essa produção também foi uma experiência de afeto e memória para muitos comunicadores. 

“Escrever para o Prato Firmeza foi entrar em contato com a cultura do afeto que a comida nos traz desde a infância. Foi acessar conhecimentos ancestrais de sobrevivência, recheados de sabor, ainda por cima pautando democratizar um alimento saudável e de qualidade”, sintetizou o podcast Manda Notícias, que atua na zona sul de São Paulo (SP). 

Mas o guia também ajudou a mudar os olhares de quem empreende com comida nessas quebradas. Muitos donos dos estabelecimentos aumentaram sua autoestima com sua presença no Prato Firmeza.

“Um deles não queria que a gente fizesse fotos ou vídeos, dizendo que estava bagunçado. Mas quando entendeu a proposta, chegou a comentar: ‘se vai sair em um guia nacional, é porque entregamos um serviço de qualidade’”, relata o Cumbuca, que mapeou as iniciativas de Manaus (AM).

Essa valorização criou laços entre comunicadores e empreendedores dessas periferias, que são potentes inclusive na cobertura de outras pautas. 

“O Olhos Jornalismo aprendeu a olhar ainda mais atento para os empreendedores dos bairros em que seus membros atuam. Hoje, esses estabelecimentos estão em diálogo com os membros do Olhos e reconhecem a importância da mídia independente, que nunca haviam ouvido falar”, reconhece o coletivo de Maceió (AL). 

Apesar do nome “guia”, este foi um projeto multimídia e multidisciplinar, de criação de conteúdo original. Havia demandas de um produto impresso, um podcast e reels com recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva. Além disso, os coletivos exercitaram sua dimensão educativa e levaram oficinas de ferramentas de comunicação para estudantes e professores de escolas públicas de seus territórios.

“O Prato Firmeza permitiu que pudéssemos nos enxergar como um coletivo potente e apto para desenvolver projetos tão grandes e desafiadores como esse”, afirmam os jornalistas da Com_Texto, que construiu o pedaço de Cuiabá (MT) do PF 5.

O projeto também estimulou um olhar interno para as iniciativas, sobre o que melhorar e o que valorizar de bom na sua dinâmica de produção. A Awalé, de Florianópolis (SC), acessou novas conexões para além do ecossistema de inovação em que estão inseridas. A Agência Lume aprendeu sobre gestão de tempo e de recursos.

“O PF 5 nos apresentou um mundo novo. Aprendemos individualmente e mudamos nossas certezas dentro da gestão da iniciativa, e nas nossas vidas pessoais. Passamos a cuidar mais da saúde e da alimentação”, compartilha a Lume.

É difícil mapear e mensurar todos impactos causados pelo Prato Firmeza 5. Mas certamente é um marco na expansão da atuação da Énois e na história desses 10 coletivos de comunicação.

Empreender ou precarizar? O nó do trabalho em jornalismo e comunicação

Em apenas uma década, quase 1 em cada 5 empregos formais no jornalismo desapareceu. No mesmo período, ganharam corpo iniciativas independentes de jornalismo e comunicação, alternativas aos grandes conglomerados, e que buscam, em meio a tantas dificuldades, reinventar sua própria sustentabilidade.

Temos então, um ecossistema frágil de trabalho: menos estabilidade e mais precarização, marcada por terceirização e pejotização. Onde empreender, muitas vezes, não é opção, mas necessidade. Nós já falamos um pouco sobre isso em artigo publicado pela diretora de sustentabilidade da Énois, Simone Cunha, e pela coordenadora da pesquisa da Retrato do Jornalismo Brasileiro, Angela Werdemberg.Como o estudo Retrato aponta, nesse ecossistema temos, de um lado, muitas mulheres negras e periféricas que têm de pagar para manter suas iniciativas. São CEOs voluntárias, como descreve o CEERT, parceiro da Énois na pesquisa. De outro, jornalistas homens brancos desenvolvendo suas iniciativas e conseguindo contratar até 5 funcionários.Você pode ler mais sobre isso nesse post.

A professora Roseli Figaro, coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (ECA-USP), que estuda as mudanças trabalhistas na área há 20 anos, aponta que essa não é uma crise pontual do jornalismo ou da comunicação. Outras áreas, como a educação e as artes, passam pelo mesmo. Isso porque, como destaca Figaro, “a agenda contemporânea dos últimos 20 anos do neoliberalismo é extrair mais valor do trabalho”. O que, por meio de uma campanha narrativa e ideológica, transformou a luta por direitos em “coisa de quem não quer trabalhar”. Esse processo, agravado pela crise de 2008, pela ascensão das empresas de plataformas digitais e pela pandemia, caminhando para um agravamento.

Figaro alerta que com a chegada da inteligência artificial generativa, há risco de uma banalização do trabalho humano, transformando quem não se encaixa no modelo de “empreendedor de sucesso” ou “influencer”, em cidadãos de segunda categoria, forçados a sobreviver em condições cada vez mais frágeis.”Isso não vai parar, isso vai se aprofundar. Com a inteligência artificial generativa, nós vamos ter um aprofundamento ainda maior com a precarização e a desespecialização e a banalização do trabalho humano. Quem não pode ser um influencer, quem não é um sucesso como empreendedor, passa a ser um cidadão de segunda categoria que tem que trabalhar em condições vis para sua sobrevivência”, alerta Roseli.

Enquanto se enfrenta esse cenário, as condições de trabalho obrigam a ceder um recurso valioso que comunicadores e jornalistas têm em suas mãos: o conhecimento sobre nosso ofício.

Todos os dias, sem sequer perceber, quando ligamos o computador ou pegamos o celular para trabalhar, livremente fornecemos dados que são usados por Google, Meta e Microsoft para gerarem novos produtos que serão vendidos a nós para seguir fazendo um trabalho precarizado. O centro de pesquisa tem estudado essa realidade e também acompanhado de perto, desde 2010, organizações fundadas por jornalistas para produzir jornalismo de qualidade, voltado a causas populares e democráticas.

Depois da pandemia, os pesquisadores e pesquisadoras da USP queriam saber como estavam as iniciativas. Das 70 inicialmente levantadas, 47 ainda estavam ativas. Essas iniciativas resistem, mas em condições de dependência tecnológica cada vez maiores.

Diante do cenário de precarização e dependência das plataformas digitais, surgiu no CPCT a pesquisa “Datificação da atividade de comunicação e trabalho de arranjos de comunicadores”, financiada pela FAPESP. Ela analisou os termos de uso dessas empresas, revelando que todas reivindicam posse e uso dos dados de usuários de forma dissimulada.

“Você tem que se aprofundar na leitura e na investigação pra chegar nessa conclusão de que todas elas fazem isso. E ainda assim, não temos clareza para que usam os dados”, aponta Figaro.

O CPCT também levantou como as big techs operam financeiramente, como os dados são capturados, como registram patentes e transformam dados em novos produtos. No início de novembro, um relatório sobre o perfil das empresas será publicado no site da pesquisa.

O ponto é que a questão é estrutural e coletiva: exige movimentos organizados que reconheçam o trabalho comunicacional como valor e reivindiquem direitos também sobre os dados gerados no processo.

Exigem o entendimento do campo da comunicação como uma classe de trabalho, uma articulação pela valorização do trabalho, que traria benefícios e estabilidade a todos.

“Se essas iniciativas jornalísticas têm de fato interesse na democracia e no bem estar da população, precisam se ver dentro desta luta. Não existe um planeta em que a gente possa se refugiar dessas condições. Não é com a verba do Soros, da Ford, etc, que nós vamos resolver esse problema. Essa é uma saída individual”, provoca Figaro.

“O problema é muito maior. A gente tem que se olhar nesse conjunto. De fato ter elementos pra provar que o nosso trabalho está sendo espoliado e estamos passando por uma despossessão do nosso saber fazer, e isso vale muito dinheiro. Precisamos provar isso e fazer um movimento pra exigir o que é nosso.”

Enquanto o STF não decide sobre a legalidade da pejotização, sindicatos e coletivos lutam por contratos mais justos, pisos salariais e canais de denúncia.

Paralelamente, o Atlas da Notícia 2025 mostra uma queda nos desertos de informação, puxada por veículos digitais e comunitários.

É um sinal de resistência, mas a manutenção e sustentabilidade a longo prazo dessas organizações é ponto crucial para que não reproduzam e nem se deixem capturar pelos mecanismos de exploração.

Na Énois, acreditamos que empreender na comunicação deve significar estruturar trabalho justo e digno, e não precarizar. Debater sobre direitos e a datificação do trabalho é disputar também as condições de vida e de democracia para quem faz comunicação nas pontas. Como você e sua iniciativa têm refletido sobre esses temas? Esse debate têm sido levantado nos grupos com os quais você se relaciona? Que soluções têm sido pensadas coletivamente?

Arte periférica e comunicação popular caminham juntas

Nas periferias, a arte e a comunicação andam de mãos dadas para promover acesso à informação, reflexão crítica e mobilização social

Informação que comunica é aquela que toca, conecta e circula. Não é de hoje que a arte, com sua multiplicidade de formatos e linguagens, é aliada da comunicação. Brasil afora, coletivos de periferia têm dominado práticas artísticas que se transformam em estratégias comunicativas autônomas e sensíveis às realidades locais.

No Maranhão, acompanhamos o Reocupa, coletivo que realiza ações artístico-culturais para mobilização social. Este ano, produziram um mural em grafite junto a artistas parceiros, no muro de uma escola de São Luís, para fomentar a discussão sobre crise climática. Para o segundo semestre, o coletivo segue com um projeto de empena e intervenções artísticas focadas na Amazônia Legal. “Acreditamos que o grafite tem o poder de comunicar questões sociais e ambientais de maneira direta, sensível e transformadora”, destaca Kadu Vassoler, um dos coordenadores do projeto. “Além disso, a iniciativa contribui para a revitalização de espaços públicos e para a promoção da identidade cultural local.”

Durante crises, esse tipo de comunicação ganha ainda mais força. Na pandemia, por exemplo, ações como a coalizão #CoronaNasPeriferias provaram que materiais criados com linguagem local — como vinhetas, lambe-lambes e conteúdos digitais — salvaram vidas ao distribuir informação confiável nos territórios.

A criação de narrativas com linguagens próprias permite que comunidades interpretem e ressignifiquem os conteúdos que normalmente chegariam apenas pelas mídias institucionais. Funciona também como uma estratégia transmídia. Em vez de apenas replicar o conteúdo, cada meio (vídeo, poesia, mural, podcast, reportagem, performance etc.) contribui com uma parte nova da narrativa, ampliando a experiência de quem consome — e, principalmente, de quem participa da criação.

No contexto das periferias, essa abordagem permite que artistas e comunicadores ocupem diversos espaços de circulação da informação — das redes sociais aos muros da quebrada, dos saraus às rádios comunitárias — usando múltiplas linguagens para engajar, informar e mobilizar.

Aqui na Énois acompanhamos e fomentamos o trabalho de pessoas que caminham de mãos dadas com a arte e a comunicação desde nosso surgimento. Em diferentes momentos, em slams e saraus, levamos informações apuradas e embasadas, por meio de formações ou ações culturais. “Disputamos, inclusive, o nome jornalismo, que vem carregado de um formato, formalidade e distanciamento”, comenta Simone Cunha, diretora de sustentabilidade da Énois. 

“A arte é uma ferramenta de combate para chegar às pessoas e fazer parte de suas vidas ao escutar, conectar e emocionar. São atributos que estão em falta no ecossistema tradicional de informação, mas que são essenciais quando a gente tem a função social de fortalecer o tecido social, aquilo que o jornalismo busca fazer”, completa Simone.

Equipe Énois, participantes e facilitadores do Arte é Informação no espaço das Travas da Sul, no Grajaú, zona sul de São Paulo. Crédito: Divulgação/Énois


Foi com essas premissas que colocamos de pé o Arte é Informação, projeto novo da Énois que mira em promover encontros para que artistas periféricos acessem conhecimentos sobre justiça climática, comunicação, jornalismo e profissionalização. Os encontros aconteceram em São Paulo, nos bairros do Grajaú, Brasilândia, São Mateus e Paraisópolis, nos meses de julho e agosto.

Não se trata apenas de distribuir conteúdo. É sobre traduzir temas urgentes como crise climática, racismo ambiental e direitos básicos em linguagens acessíveis, emocionantes e enraizadas. E isso é importante para o desenvolvimento de sujeitos críticos e informados, com autoestima e laços coletivos reforçados.

“A formação sobre clima e periferia me fez pensar na intersecção entre arte e clima e em como podemos comunicar essa grande questão que chega nas periferias. Saber mais sobre a Lei de Acesso à Informação me fez entender que tenho o direito de saber, e vai me ajudar a fazer minhas próprias pesquisas”, compartilhou DasNuvens, grafiteira e produtora cultural que participou do encontro em São Mateus.

Ao lado de artistas como Soberana Ziza (@soberanaziza)Brisa Flow (@brisaflow)APÊAGÁ (@apoetapeaga) e Mano Mike (@manomikemc), os encontros do projeto revelaram como a arte comunica o território e ressignifica espaços desvalorizados — transformando paredes em telas, ruas em galerias vivas e a comunicação em construção coletiva. As oficinas com Nazura, sobre portfólio e autoestima profissional, e com Lucas Veloso, sobre jornalismo de quebrada, fortaleceram práticas de documentação e apresentação do trabalho artístico como forma legítima de informação. Já a formação sobre crise climática e racismo ambiental, com Amanda CostaGabriela Alves e Mahryan Sampaio, conectou arte, política e território a partir da vivência das juventudes periféricas.

Equipe Énois, participantes e facilitadores do Arte é Informação no espaço do São Mateus em Movimento, em São Mateus, zona leste de São Paulo. Crédito: Divulgação/Énois


Para Kevin Nascimento, fotógrafo da Brasilândia que participou dos encontros, “todo artista que trabalha com imagem também deveria ter esse viés da comunicação com a arte, porque é comunicar sua quebrada, seu bairro, onde você mora, através da arte.”

A escolha dos territórios do Grajaú, Brasilândia, São Mateus e Paraisópolis não foi aleatória. São espaços pulsantes de produção cultural, organização política e narrativas próprias. As atividades aconteceram em parceria com os coletivos locais Travas da Sul, PiPA, São Mateus em Movimento e Estúdio 7 Notas, com parceria do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis (PECP) e financiamento do Consulado da Alemanha e da emenda parlamentar municipal de São Paulo.

Equipe Énois, participantes e facilitadores do Arte é Informação no espaço PEC (Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis), em parceria com Estúdio 7 Notas, zona sul de São Paulo. Crédito: Divulgação/ Énois

Ao reunir artistas, comunicadores e lideranças locais, o projeto reforça que a arte periférica é uma estratégia concreta de comunicação comunitária, capaz de gerar informação confiável, fortalecer identidades, promover engajamento e influenciar políticas públicas. Nas falas, grafites, poesias e músicas, vimos uma comunicação feita de corpo presente, com escuta, responsabilidade e pertencimento.

Acompanhe os próximos passos do Arte é Informação nos canais da Énois e siga com a gente fortalecendo essa rede. Que tal buscar os artistas periféricos do teu território, acessar seus trabalhos e ampliar seus trabalhos?

O papel da filantropia na sustentabilidade no jornalismo e desafio das lideranças periféricas e pretas

Durante o 20º Congresso da Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, participei de uma mesa sobre um tema urgente: o papel da filantropia na sustentabilidade das organizações de jornalismo no Brasil. A conversa foi atravessada por questões como raça, território, identidade e desigualdade.

No ano passado, assumi a direção do laboratório Énois, onde me formei como jornalista. Hoje, como mulher preta, travesti e periférica em posição de liderança, vivo os desafios concretos de dialogar com quem detém os recursos – geralmente em contextos muito distintos dos nossos.

A ausência de redes de contato privilegiadas impacta diretamente nossas relações institucionais. Enquanto operamos em cenários de emergência, a filantropia muitas vezes atua em outro ritmo, distante das urgências do nosso cotidiano.

Quando pessoas negras e periféricas apresentam projetos, eles são vistos como “bonitos” ou “necessários”, mas raramente como estratégicos. E o campo da comunicação ainda é um dos menos priorizados no investimento filantrópico. A disputa por recursos é desigual.

Não se trata de pedir menos critérios, mas de afirmar: comunicação não é acessório. É eixo estruturante da transformação social. E para isso, precisamos de investimento institucional, estrutura, equipe, contratação digna, continuidade.

A filantropia é importante, mas não pode ser nossa única via. Precisamos também criar outras fontes de receita: produtos, serviços, leis de incentivo, captação direta. Sustentabilidade real exige caminhos diversos e sintonizados com nossos territórios.

Também é preciso fortalecer a base institucional. Isso passa por práticas de cuidado: códigos de conduta, políticas de enfrentamento ao assédio, compromisso com a diversidade, e contratação formal. Mas poucos financiadores apoiam esse tipo de estrutura.

Apesar dos desafios, há movimento. Segundo o Instituto Beja, o investimento filantrópico no Brasil gira em torno de US$ 4 bilhões/ano, com potencial de chegar a US$ 28 bilhões. Além disso, até 30% das fundações já apoiam projetos de outras organizações, o que mostra abertura para redesenhar esse campo – se houver vontade política.

A mesa que participei era composta por três mulheres, duas negras. Levamos dados, mas também vivências. Esse texto não é uma denúncia. É um chamado. Um convite à reflexão sobre como o jornalismo e a comunicação nas periferias são percebidos e financiados.

Fazer jornalismo nas periferias é, por si só, um grande projeto. Seguimos. Criando, resistindo, informando.

Texto por Sanara Santos, diretora da Énois