Trabalhar no terceiro setor não é fácil. A gente conhece bem os desafios diários. E também sabe que é a nossa equipe que sustenta esse fazer com afeto, coragem e muita entrega. Por isso, as pessoas precisam ser valorizadas, reconhecidas e cuidadas de verdade. Mas, como fazer isso num cenário em que nossa sustentabilidade financeira ainda depende majoritariamente da filantropia e de leis de incentivo, que quase nunca destinam recursos para o fortalecimento institucional?
A conta não fecha e a gente precisa falar mais sobre isso. Desde o nosso reposicionamento institucional aqui na Énois, no final do ano de 2024, as escutas que fizemos e os dados que temos sobre nossa equipe deixaram nítidos: era hora de sermos mais transparentes, e de a área de Relações Humanas (nosso RH) criar caminhos e processos que apoiassem melhor quem constrói a Énois todos os dias.
Duas ferramentas importantes nasceram desse processo: A avaliação de desempenho: um passo importante na construção de uma cultura de feedback, retornos, mais constante, transparente e estruturada. Pensamos esse processo não como uma ferramenta de controle, mas como uma oportunidade de troca: um momento em que cada pessoa pode olhar para o seu caminho, reconhecer suas potências, identificar pontos de atenção e, principalmente, construir planos de desenvolvimento de forma conjunta com suas lideranças. Já a política de cargos e salários: que ainda está em processo, vem pra organizar nossa casa com mais transparência.
Ela propõe um modelo estruturado de níveis, faixas salariais e escopos de trabalho, pensado de acordo com a realidade da Énois e com o compromisso de reduzir desigualdades internas, dar mais previsibilidade para quem está aqui e orientar processos futuros de contratação, movimentação interna e crescimento. A gente sabe que estruturar essas políticas num cenário de poucos recursos não é simples. Mas é urgente. Porque transparência, valorização e cuidado com as pessoas não são luxo, são base pra qualquer organização que queira existir de forma coerente com os valores que carrega.
Esses dois movimentos fazem parte do nosso compromisso com uma cultura mais saudável, mais justa e mais possível. É sobre cuidar de quem cuida. É sobre coerência institucional. É sobre o futuro que a gente quer construir. Com escuta, diálogo, conhecimento e adaptação — nossos novos valores — seguimos firmes no propósito de fortalecer coletivos de comunicação nas periferias, sem perder de vista quem torna isso possível: a nossa própria equipe. A gente ainda tá longe do ideal.
O sonho é avançar com mais benefícios garantidos. Um passo de cada vez, com responsabilidade, compromisso e muita vontade de construir um ambiente de trabalho mais justo, saudável e sustentável para quem tá aqui. Alô, filantropia: fortalecer o institucional é fortalecer o impacto. Bora investir em quem cuida?
Texto por Alexia Oliveira, assistente administrativo-financeiro da Énois
Tem algo no DNA da Énois que atravessa o tempo e as pessoas que fazem essa organização. Se resume em uma palavra com a qual quem nos acompanha também se reconhece: diversidade. Com ela, vem o cuidado, que se tornou a metodologia da Énois de trabalho, de relacionamento e de fazer comunicação.
Em um cenário em que o ódio virou linguagem política e o desamparo é estruturado, comunicar com afeto e respeito à inclusão é uma escolha radical. Uma escolha que inspira a Énois e é fio condutor do que fortalecemos e transformamos — e que se aprofunda nas palavras da jornalista, professora e conselheira da Énois Fabiana Moraes, ao defender um humanismo radical como única saída.
Foi o que ela escreveu em uma coluna publicada em janeiro deste ano, em resposta a um cenário de retrocessos democráticos no Brasil e no mundo, se referindo a um conceito cunhado pela escritora Sylvia Wynter. “Ele só é possível quando não permitimos que certos seres humanos sejam considerados mais humanos do que outros. Parece óbvio. Mas não é”, disse ela no texto.
O mapeamento de Gênero, Raça e Território (GRT), feito pela Énois, é um exemplo concreto disso. A partir dele, entendemos que mais de 50% das pessoas que participam dos nossos projetos são mulheres negras periféricas, lideranças de comunicação em seus territórios.
Rede Énois reunida para o TechCamp Belém, que aconteceu em 2023. Foto: Glória Maria/Énois
Esse olhar para gênero, raça e território orienta o quem, o como e o porquê das nossas ações. “Olhar para gênero, raça e território se tornou o cerne da nossa atuação. Nossa comunicação não faz sentido se não enfrentar o machismo, a cisnormatividade, o racismo e a exclusão dos territórios periféricos”, comenta Jessica Mota, gerente na Énois.
Ao lado do cuidado, a descolonização das narrativas também se tornou parte da nossa prática cotidiana. Compartilhamos caminhos sobre isso no texto Como colocar escuta e descolonização em prática no jornalismo, onde propomos uma comunicação que reconhece os saberes populares, enfrenta os apagamentos simbólicos e amplia as vozes que historicamente foram silenciadas.
Para a Énois, comunicação tem sentido quando impacta positivamente as comunidades que a produzem e recebem. Foi com essa premissa que sistematizamos um conjunto de orientações em Como fazer e medir um jornalismo que impacta as comunidades. É um convite a avaliar o sucesso de um projeto não apenas por números, mas pela transformação real no território.
“No campo da comunicação, esse humanismo pode ser compreendido como uma prática que tensiona as hierarquias narrativas. Ele exige que questionemos não só quem fala e quem é ouvido, mas também quais vidas são reconhecidas como dignas de serem narradas com profundidade e complexidade. Trata-se, portanto, de uma postura ética e política que recusa a objetificação ou a estigmatização das pessoas retratadas — especialmente quando essas pessoas pertencem a grupos racializados, periféricos ou subalternizados”, explica Fabiana.
Fabiana Moraes (à direita) participou do Lançamento de livros no 18º Congresso da Abraji (2023). Foto: Pedro Moreira/Abraji
Sabemos que estamos na difícil disputa por um futuro que fortaleça as relações comunitárias para a maioria da população brasileira, que é negra e está nas periferias. Relações essas que são fundamentais para a manutenção do tecido social.
Sabemos que a informação, em texto, em imagem, em áudio, é fundamental para esse processo. Se não fosse, não haveria tanto dinheiro e tempo sendo investido em financiar narrativas de segregação, discriminação, ódio e desinformação, das mais escancaradas às mais sutis, com o objetivo de enfraquecer comunidades para manipular decisões políticas.
“A comunicação comunitária e periférica pode, sim, ser vista como expressão concreta desse humanismo radical. Esses projetos — muitas vezes fora dos grandes centros de produção midiática — não apenas informam, mas criam sentido a partir de vivências locais, resistindo a uma lógica centralizadora e desumanizante que ainda estrutura boa parte da mídia tradicional”, ressalta nossa conselheira. “Eles constroem outras epistemologias, pautadas na experiência direta, na escuta coletiva e na atuação política enraizada. Aplicar o humanismo radical à comunicação significa também recusar o distanciamento seguro, muitas vezes confundido com neutralidade, e compreender o fazer jornalístico e comunicacional como parte ativa da disputa por reconhecimento, memória e justiça.”
A premissa do humanismo radical é também algo que acompanha a estrutura e a área de Relações Humanas (RH) da Énois. “Com escuta, diálogo, conhecimento e adaptação — nossos novos valores — seguimos firmes no propósito de fortalecer coletivos de comunicação nas periferias, sem perder de vista quem torna isso possível: a nossa própria equipe”, explica Alexia Oliveira, responsável pelo desenvolvimento de dois novos movimentos internos muito importantes na organização.
Um deles é a avaliação de desempenho, que teve seu primeiro ciclo rodado em junho, e que trouxe a possibilidade de humanizar o trabalho ao propor um momento em que cada pessoa pode olhar para o seu caminho, reconhecer suas potências, identificar pontos de atenção e, principalmente, construir planos de desenvolvimento de forma conjunta com suas lideranças. Também é uma forma de garantir mais justiça nas decisões, promovendo um ambiente mais coerente entre entrega, reconhecimento e oportunidade.
O outro é a política de cargos e salários, que ainda está em aprovação, e vem pra organizar nossa casa com mais transparência. Ela propõe um modelo estruturado de níveis, faixas salariais e escopos de trabalho, pensado de acordo com a realidade da Énois — e com o compromisso de reduzir desigualdades internas, dar mais previsibilidade para quem está aqui e orientar processos futuros de contratação, movimentação interna e crescimento.
Mas, como fazer isso num cenário em que nossa sustentabilidade financeira ainda depende majoritariamente da filantropia e de leis de incentivo que quase nunca destinam recursos para o fortalecimento institucional? Transparência, valorização e cuidado com as pessoas não são luxo — são base pra qualquer organização que queira existir de forma coerente com os valores que carrega. Alô, filantropia:fortalecer o institucional é fortalecer o impacto.
Nossa atuação pode ser uma gota no oceano. Mas como fala um personagem do filme “A Viagem”: “o que é um oceano se não um infinito de gotas?”
E por aí, qual tem sido sua contribuição nesse oceano de gotas da comunicação que abraça o humanismo radical? Responde pra gente ou compartilha no grupo da Rede Énois no WhatsApp. A gente te escuta.
Na maior favela de São Paulo, Paraisópolis, o Estúdio 7 Notas é um coletivo que atua na fronteira entre informação e arte e foi lá que levamos a equipe do Consulado Geral da Alemanha para apontar caminhos a serem fortalecidos para o desenvolvimento local. O Estúdio produz artistas e MCs do território, vídeos, reportagens e ações que conectam cultura e jornalismo. É uma das organizações de fronteira com quem a Énois atuará no projeto Arte É Informação São Paulo, financiado pelo Consulado da Alemanha, e que vai impulsionar o uso de linguagens artísticas para disseminar informação e dos processos de apuração do jornalismo para a criação artística.
Esse tipo de articulação não é nova na trajetória da Énois. Nosso Laboratório e o Prato Firmeza contribuíram para fortalecer a comunicação comunitária, apoiar o empreendedorismo e formar redes informativas sustentáveis em territórios periféricos. Desde que nasceu, em 2009, a Énois integra comunicação e arte como ferramentas de transformação concreta. Em 16 anos de nossa atuação, mais de 20 mil jovens e coletivos locais de todo o país estiveram em rede integrando formações, produção de informação e de eventos, fortalecendo a informação e a economia criativa nos seus territórios.
Informalidade e subempregos são realidade entre os jovens brasileiros, especialmente nas periferias, e articular caminhos de trabalho, pertencimento e desenvolvimento local buscam criar caminhos diferentes do “CEO de MEI”. Segundo a PNAD de 2024, a taxa de desemprego entre jovens caiu nos últimos 5 anos (de 25,2% para 14,3%), só que quase metade está na informalidade e grande parte dos CLTs está em ocupações com tarefas repetitivas, baixo salário e alto potencial de serem substituídos por tecnologia.
O apoio do Consulado da Alemanha ao Arte É Informação amplia o trabalho de construir alternativas de inserção no mercado por meio da arte e da comunicação, em rede, com o território, fomentando a autonomia e a geração de renda. Paraisópolis é um dos pontos dessa rede que se fortalece e se expande, junto com Brasilândia, São Mateus e Grajaú.
Texto por simone cunha, diretora de Desenvolvimento Institucional da Énois
Há milhares de anos a cultura alimentar amazônica aponta caminhos de resiliência à crise climática, diz chef paraense na introdução do próximo Prato Firmeza, raízes da culinária brasileira.
Estamos a todo vapor na produção de uma edição do Prato Firmeza voltada à culinária amazônica. O “Prato Firmeza Amazônia: raízes da culinária brasileira” nasceu três anos atrás, antes sequer de sabermos que se avizinhava o anúncio da realização da Conferência das Partes (COP) na região e, especificamente, em Belém, capital paraense. A COP, para quem ainda não está totalmente por dentro, é a reunião anual dos representantes de países e territórios signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).
Já naquele momento, entendemos que mais que um guia que mapeia iniciativas de gastronomia nas periferias, o Prato Firmeza havia se tornado uma plataforma para discussão sobre comida, segurança e cultura alimentar. Mergulhamos na discussão sobre as raízes da comida brasileira por meio da comida indígena e do olhar para esse território que ocupa mais da metade do mapa brasileiro. Porque é na Amazônia onde ainda estão preservadas culturas, saberes e tecnologias alimentares e medicinais que remontam a civilizações milenares. Hoje já sabemos que a floresta amazônica foi construída por um processo agroflorestal, técnica que remonta à presença dos povos indígenas desde doze mil anos atrás, como afirma João Paulo Tukano, doutor em antropologia pela Universidade Federal do Amazonas. Ou seja, o manejo de espécies e plantações que utilizamos até hoje foi impulsionado pela vida em grandes agrupamentos duradouros dos povos amazônicos, com trocas constantes com outras populações, como as andinas.
“Foram desenvolvidas técnicas de cerâmica, arquitetura, de manejo da floresta, da terra, das cachoeiras e rios, técnicas de manipulação e conservação de alimentos, seja de frutas, pescado, caça…”, enumera o professor João Paulo. “Esses conhecimentos se tornaram essenciais para outros povos que habitam a Amazônia e são utilizados atualmente por famílias nesse território. São saberes que foram incorporados não apenas pelos colonizadores europeus, mas também por populações urbanas e ribeirinhas”, conta.
Crédito: Daniel Vinagre / Prato Firmeza Amazônia
Como fala Thiago Castanho, cozinheiro paraense e pesquisador da culinária amazônica, na introdução desta nova edição do Prato Firmeza, “a Amazônia tem a chance de saltar do estereótipo da ‘comida diferente’ para uma posição de protagonismo global. Enquanto o mundo discute como alimentar populações de forma sustentável e regenerativa, a resposta já vem sendo praticada há séculos pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais da Amazônia, que ao longo dos anos vem também perdendo sua soberania alimentar para ultraprocessados da grande indústria”, afirma.
Ele lembra como a mandioca foi classificada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) como uma “cultura do século XXI”, por sua incrível resiliência às mudanças climáticas. Algo que já é de conhecimento de quem planta e colhe mandioca todos os anos.
Crédito: Mácio Ferreira / Agência Pará
As populações das florestas, áreas rurais e periferias urbanas são, ao mesmo tempo, as que carregam saberes essenciais para a segurança alimentar do futuro e as mais sentem os impactos da crise climática. Os rios secam, as cheias acabam com as plantações, as espécies morrem, os frutos e vegetais perdem a qualidade nutricional e o sabor. O alimento fica mais caro, o prato vai ficando vazio. Para quem empreende nas periferias, os insumos vão rareando e tornando o preço final do produto mais caro. O espaço para alimentos ultraprocessados, como Thiago pontuou, se amplia como opção. Do açaí com peixe, passamos ao açaí com mortadela. E mesmo esse fruto típico está escasso nas tigelas e cuias amazônicas, por conta do aumento do preço decorrente da moda procura no mercado externo.
O Prato Firmeza fortalece caminhos possíveis, olhando para a ancestralidade: existem soluções sendo colocadas em prática não só agora, como há milhares de anos, que devem ser valorizadas, conservadas e resgatadas. Destacamos a cultura alimentar amazônica para apontar que existem caminhos que aliam segurança alimentar e conservação, que são resilientes à crise climática, que são tecnologias referência para o planeta.
A discussão sobre alimentação e mudanças climáticas só ganhou força na COP em 2021, com a a Declaração de Glasgow sobre a Alimentação e o Clima. Com a COP chegando a Belém, é urgente colocar a Amazônia como protagonista desse debate.
O Prato Firmeza vem para somar nesse esforço, pautando inclusive a alimentação no próprio evento. Em vez de coordenada por grandes redes de fast-food globais, como costuma ser, a comida na COP deve fortalecer sistemas alimentares justos e locais, como tem pleiteado o Instituto Regenera, a Assobio e a iniciativa Comida do Amanhã com a frente de atuação “Na mesa da COP-30”. Nosso papel está em trazer a macro discussão ambiental para a mesa periférica. Enquanto negociações entre governos e empresas ocorrem longe do cotidiano, as comunidades locais têm dado respostas concretas. Registrar e compartilhar o trabalho de comunidades e pequenos empreendimentos amazônicos é uma ação potente pelo clima. A partir das mesas e da cultura periférica, o Prato Firmeza promove pratos e receitas que estão adiando o fim do mundo.
O Congresso do GIFE, que reúne fundações, institutos e empresas responsáveis por mais de R$ 5 bilhões ao ano, trouxe a desconcentração de poder, conhecimento e riqueza como tema central. Em Fortaleza (CE), de 7 a 9 de maio, mais de 30 mesas deram palco e público à diversidade racial e territorial, com lideranças negras e periféricas em destaque. Mas faltou algo essencial: prática e transparência nas estratégias de apoio e financiamento.
Como acessar os financiadores presentes? Como entrar em contato com quem sequer ocupou os estandes? Quem são as pessoas por trás da filantropia? Para muitas organizações da Rede Énois, era a primeira vez tão perto da filantropia – e ainda assim, tão longe. A maioria dos operadores segue sendo branca, de classe alta, distante das realidades das periferias e territórios rurais, por exemplo.
As falas mais fortes – como a de Bianca Santana, pedindo “parem de fazer planejamento estratégico”, ou de Lígia Batista, exigindo reciprocidade nos relatórios – foram aplaudidas. Mas a operacionalização prática dessas provocações seguiu ausente. Raras mesas promoveram diálogo real, trocas concretas ou caminhos de articulação.
É urgente uma filantropia comprometida com coletividade, construção de agendas comuns e abertura de caminhos conjuntos. Precisamos superar o culto ao fundador, a competição entre organizações e os processos verticalizados. Um exemplo positivo veio da roda de conversa que ocupou o estande vazio da Open Society: quase 30 mulheres negras discutindo os desafios da liderança social e reivindicando estratégias acessíveis para quem não encontra o financiador na fila da escola dos filhos.
Como disse Yane Mendes,comunicadora e cineasta periférica, em uma das mesas: “a paz é branca”. A filantropia pode ser parte da construção da paz, mas precisa agir com urgência. As eleições de 2026 já começaram – e sequer foram mencionadas no congresso. É hora de parar de planejar e começar a redistribuir esse poder.
A filantropia não tem todas as respostas. Quem cuida das agendas e da articulação são as organizações sociais. A filantropia é só um dos caminhos.
texto por simone cunha, diretora de desenvolvimento institucional da Énois.
A forma como contamos essas histórias importa — e pode reforçar preconceitos. Como fazer diferente?
A pauta trans tem ocupado o centro dos debates públicos – e com isso, também os feeds, as redações e os trending topics. O caso da deputada Erika Hilton, que teve seu visto emitido com nome morto e gênero incorreto pelo governo dos EUA, acendeu um alerta. Enquanto isso, empresas e instituições como a USAID anunciam retrocessos em políticas de apoio à população trans. Esses sinais mostram que estamos diante de uma ofensiva coordenada, que usa cargos de poder para minar direitos e identidades.
Organizações trans estão atentas, refletindo as consequências desse cenário, como pontua Caê Vatiero, diretor institucional da Transmídia Jornalismo.
“A avaliação da Transmídia é de que vivemos um momento de tensionamento. Embora haja avanços importantes em termos de visibilidade e reconhecimento, como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) de reconhecimento de gênero neutro e mais universidades aderindo cotas trans, esses direitos continuam sendo sistematicamente atacados por discursos conservadores, políticas excludentes e pela ascensão de uma extrema direita que instrumentaliza o ódio contra pessoas trans para mobilizar sua base. Somado a isso, temos a desinformação, que na nossa avaliação é uma das principais estratégias para atingir vidas trans e travestis.”
Nesse contexto, a comunicação tem um papel decisivo. Não basta acertar nos pronomes ou fazer perfis celebrativos em datas comemorativas. A forma como construímos nossas narrativas pode, mesmo sem intenção, alimentar a transfobia. Quando uma matéria não contextualiza o preconceito estrutural ou destaca polêmicas sem cuidado, ela se torna munição para quem já está mobilizado contra os direitos dessa população. A comunicação não pode, portanto, esquecer que também tem função educativa.
“Não queremos nossas matérias virando combustível para comentários de ódio ou para reforçar a vilanização de pessoas trans. Precisamos reeducar os nossos públicos – e também a nós mesmas – para narrativas mais éticas, cuidadosas, plurais”, alerta Sanara Santos, diretora da Énois e da Transmídia Jornalismo.
Isso não significa que não se deva falar sobre temas sensíveis, como transição de gênero na adolescência ou amamentação por pessoas trans. Mas é preciso saber como contar essas histórias. Quem são as fontes? Qual o título escolhido? Que imagem acompanha o texto? Qual o impacto provável na audiência? O caso recente daFolha de S. Paulo, por exemplo, cuja matéria desembocou em transfobia a partir da realidade da amamentação realizada por pessoas trans, mostra como os veículos podem falhar na abordagem e abrir espaço para o preconceito.
“Acertar o pronome ou incluir uma fonte trans é só o básico. Uma cobertura ética exige centralidade trans na narrativa, com pessoas trans falando por si e também sobre outros temas. É preciso contextualizar as pautas, mostrando as causas estruturais da transfobia e as suas interseccionalidades com o racismo e a misoginia, por exemplo. A presença de jornalistas trans nas redações é outro fator essencial para transformar o jornalismo brasileiro”, reforça Caê Vatiero.
Ser aliado, na comunicação e no jornalismo, não é só ampliar a voz e as pautas, é garantir que essas vozes sejam ouvidas com respeito, contexto e humanidade. E isso exige responsabilidade. Felizmente, existem caminhos e ferramentas para isso.
A Caixa de Ferramentas da Énois reúne materiais que ajudam comunicadoras e comunicadores a repensar suas práticas e a evitar que suas reportagens, ainda que bem-intencionadas, reforcem discursos de ódio. 👉 Bora repensar a cobertura? Acesse e compartilhe com sua rede:
Reconhecer que há jornalistas – especialmente mulheres e pessoas negras – produzindo informação de qualidade em condições de pobreza é fundamental para buscar condições dignas de trabalho e diferenciar empreendedorismo de precarização no campo do jornalismo. Esse é o ponto central do artigo “Quem faz jornalismo das periferias no Brasil? Perfil e desafios das iniciativas jornalísticas”, apresentado no 1º Simpósio de Desigualdade e Gênero em Corumbá, Mato Grosso do Sul.
A pesquisa Retrato do Jornalismo Brasileiro foi pioneira no mapeamento do perfil racial, de gênero e de território das iniciativas jornalísticas. Se debruçou sobre o jornalismo periférico, frequentemente desconsiderado como jornalismo porque visto como missão, como extensão dos corpos periféricos porque a informação apoia sua defesa e existência.
“É preciso falar de forma aberta e sem medo sobre jornalistas periféricas produzindo informação de qualidade em situação de pobreza. Por isso o jornalismo, desde dentro das universidades, precisa discutir classe social. São as pessoas ricas e brancas que majoritariamente conseguem ainda seguir empregados num mercado em crise”, disse Paula Faustino Sampaio, coordenadora do Grupo de Trabalho Mulheres, Territórios E Violências: Histórias De Destemor.
O artigo foi produzido pela diretora de desenvolvimento institucional da Énois, simone cunha, e a coordenadora da Retrato, Angela Werdemberg dos Santos, e mostra a oposição entre a importância do jornalismo periférico para informar as comunidades e efetivar a democracia no dia a dia, e a falta de recursos para manter essas iniciativas, o que alimenta o ciclo da desigualdade e da precarização.
A pesquisa mostra ainda as condições desiguais em que é feita a comunicação no país. De um lado, muitas mulheres negras e periféricas têm de pagar para manter suas iniciativas. São CEOs voluntárias, como descreve o CEERT, parceiro da Énois na pesquisa. De outro, jornalistas homens brancos desenvolvendo suas iniciativas e conseguindo contratar até 5 funcionários.
A atuação de iniciativas que articulam o campo da comunicação periférica e produzem dados sobre essa realidade são fundamentais para o fortalecimento estrutural e a inclusão produtiva na informação.
Contratos cancelados e redução de investimento fragilizam mídia popular – e um caminho é se voltar para o Brasil.
O cenário global vem mudando — e a comunicação popular e o jornalismo independente no Brasil estão sentindo o impacto. De acordo com um levantamento da Repórteres Sem Fronteiras, a decisão de desativar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) congelou US$ 268,38 milhões em financiamentos ao jornalismo globalmente em 2025. Já a Ajor, a Associação de Jornalismo Digital, levantou que mais de dez organizações jornalísticas brasileiras tiveram contratos cancelados ou projetos interrompidos, com perdas estimadas em cerca de U$230 mil — além de outros projetos em fase de contratação que somam mais U$200 mil em risco.
A Énews ouviu uma pessoa da direção de uma organização de comunicação que viu o financiamento de um projeto cancelado, com o fim da USAID. Ela não quer se identificar por medo de represálias, já que as tratativas com o governo dos Estados Unidos ainda não foram encerradas.
O público do projeto era de jovens periféricos, com foco de trabalho na comunicação sobre a crise climática (esse inclusive foi o perfil dos projetos afetados no Brasil, de acordo com a Ajor). Vinte dias após a posse do presidente dos EUA, Donald Trump, a equipe recebeu um e-mail pedindo a paralisação do projeto até segunda análise.
“Pouquíssimos dias depois, fomos informados que o projeto estava terminado, para aguardarmos informações de como proceder. Veio um contrato de cancelamento, com justificativas bizarras.”
O contrato apontava que o projeto era contra as prioridades da gestão, entre elas a de proteger a população estadunidense contra invasões e defender as mulheres do extremismo da ideologia de gênero e restaurar a verdade biológica no governo federal. A organização vai precisar devolver o dinheiro, mas não há informações sobre como essa devolução será feita, se será em dólar ou real, qual o câmbio a ser considerado, entre outros detalhes.
“Pegou muito a saúde mental da equipe, parecia que estávamos fazendo algo errado. Somos uma organização pequena tendo que lidar com o governo dos Estados Unidos. Foi nosso primeiro financiamento internacional, aprendemos bastante e vamos usar esse aprendizado pra ir atrás de outros caminhos de financiamento.”
Segundo análise de Carolina Oms, diretora de Sustentabilidade e Comunicação do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ), “este recuo da filantropia internacional afeta diretamente projetos jornalísticos que dependem desses recursos para operar em regiões periféricas e vulneráveis”.
Ela observa que essa dependência torna o campo ainda mais vulnerável em um momento em que as prioridades geopolíticas mudam — conflitos como os da Ucrânia e do Oriente Médio têm redirecionado recursos que antes eram voltados para a América Latina. A filantropia americana volta seus recursos para questões internas e esse movimento é acompanhado por muitos países doadores, o que reduz orçamentos de cooperação internacional.
Carolina também aponta que “o impacto é mais severo para veículos que cobrem temas como questões ambientais, direitos humanos e transparência pública, que tradicionalmente recebem mais ataques e menos acesso a recursos privados”. Vale ler o relatório produzido pelo FAJ para um mergulho nesse tema.
E esse vazio de recursos não é só um problema de sustentabilidade: é um risco direto à democracia. “Esse corte abrupto de financiamento evidencia a vulnerabilidade estrutural do setor, já destacada em alertas internacionais como o da carta recente do GFMD (Fórum Global para o Desenvolvimento da Mídia), que aponta o enfraquecimento da mídia independente como uma ameaça à democracia, aos direitos humanos e ao desenvolvimento sustentável”, comenta Maia Fortes, diretora-executiva da Ajor. “Frente a esse cenário, Ajor tem buscado não apenas apoio jurídico emergencial às organizações afetadas, mas também articulações internacionais para mitigar o impacto desse ‘fechamento de torneiras’ que compromete a resiliência e a pluralidade do jornalismo no país.”
Para Douglas Calixto, doutor em comunicação e professor de Linguagens no Mackenzie, que atuou como Consultor Sênior de Comunicação da Porticus, ainda existe também um movimento a ser feito no campo da filantropia nacional e internacional em direção à compreensão da importância da comunicação para mobilização social e manutenção da democracia.
“Os cortes têm a ver com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, que é um campo ideológico que não reconhece a filantropia como algo de valor, e tem os direitos e garantias fundamentais como algo descartável.”
Ele aponta que, em paralelo a esse movimento da extrema direita, no campo progressista ou liberal, “a comunicação precisa deixar de ser vista pela filantropia como um trabalho de divulgação. Precisa passar a configurar algo estratégico, que mobiliza as bases, que faz parte da democracia do cotidiano. Acho que a filantropia ainda não entendeu isso.”
O próprio Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ) “precisa de engajamento significativo do setor privado brasileiro e da sociedade civil para atingir a escala necessária para compensar a redução dos investimentos internacionais”, como ressalta Carolina.
Énois tem atuado para sensibilizar novos financiadores sobre a importância da comunicação periférica para fortalecer o bem viver. No 13º Congresso GIFE (Grupo de Investidores Sociais do Brasil), que vai acontecer entre 7 e 9 de maio, iremos com uma missão urgente: pautar o financiamento nacional à comunicação popular, feita em territórios periféricos, como estratégia central de redução das desigualdades.
Estamos levando para o centro do debate aquilo que muitas vezes é deixado à margem — a comunicação feita por, com e para as comunidades. Queremos abrir essa roda com fundações, investidores, sociedade civil e setor público: quem vai garantir que a informação continue sendo um bem público acessível a todes?
Apoiar organizações periféricas que transformam realidades e fortalecem comunidades é, acima de tudo, apoiar mulheres. Elas são protagonistas: representam 34% dos empreendimentos no Brasil (IBGE, 2020), mas ainda enfrentam barreiras como desigualdade de gênero, machismo e, no caso das mulheres negras, o racismo estrutural. Para muitas, fundar uma agência de comunicação foi a resposta à falta de oportunidades no mercado, para outras um caminho para o fortalecimento da comunicação popular e da educomunicação.
Catarina de Angola, CEO da Angola Comunicação, Recife (PE), e Gisele Ramos, CEO da Agência Chocalho, do Vale do Salitre (BA), seguiram esse caminho. Como mulheres nordestinas, negras e parte da rede Énois, elas não apenas criaram novas possibilidades para si, mas também abriram portas para outras comunicadoras que hoje atuam em suas agências.
No entanto, liderar uma organização ainda é um grande desafio para as mulheres. O modelo de negócio vigente não considera a realidade das chefes de família, mães e profissionais que acumulam jornadas duplas e triplas. A pesquisa Retrato do Jornalismo Brasileiro, realizada pela Énois em parceria com o CEERT, revela que mulheres negras e periféricas frequentemente precisam tirar dinheiro do próprio bolso e manter outros empregos para sustentar suas iniciativas. Enquanto isso, homens brancos, em sua maioria, não enfrentam os mesmos desafios e ainda conseguem contratar até cinco funcionários.
“É urgente repensar os negócios para incluir a realidade das mulheres, que acumulam responsabilidades familiares. O mundo corporativo ainda favorece os homens. Precisamos de mais investimentos em mulheres empreendedoras e maior acesso a formações em gestão e educação financeira.” – Gisele Ramos
Em 15 anos, a Énois apoiou mais de 1.000 comunicadoras, sendo 50% mulheres negras, com um investimento de R$ 500 mil, evidenciando o compromisso com a democracia no dia a dia, que é, antes de tudo, tocada por mulheres, periféricas, nortistas e mães.
A presença de mulheres na liderança da comunicação é essencial para fortalecer uma abordagem decolonial, feminista e antirracista. São essas perspectivas que garantem uma comunicação comprometida com a diversidade e a justiça social.
“Minha atuação na comunicação é feminista e antirracista, garantindo que mulheres protagonizem seus negócios, suas narrativas e sejam reconhecidas como sujeitos de direitos.” – Catarina de Angola
O empreendedorismo tem sido uma alternativa para muitas mulheres, mas para que suas iniciativas sejam sustentáveis, é fundamental oferecer suporte financeiro, modelos de negócio adequados às suas realidades, acesso à recursos e oportunidades de formação. Afinal, são elas que, diariamente, estão à frente nos territórios informando, transformando e gerando impacto real.
Texto por Glória Maria, comunicadora institucional
O ano é 2025, e os olhos do mundo estão voltados para a região Norte do Brasil. Mas a relação da Énois com esse território não é de agora. Mesmo nascida em São Paulo, nossa conexão com o Norte vem sendo construída há anos, em parceria com coletivos e comunicadores que hoje fazem parte da rede que fomentamos.
Em 2022, fortalecemos os laços com a segunda edição do programa Diversidade nas Redações, dedicado ao desenvolvimento institucional de iniciativas de jornalismo independente no Norte e Centro-Oeste. Foi um período intenso de trocas e aprendizados ao lado do Tapajós de Fato (PA), Carta Amazônia (PA), Correio do Lavrado (RR), Rondon Oficial (RO), Redação News (PA), Portal Manaós (AM) e Tocantins em Foco (TO), para destacar somente as organizações da região Norte.
Entre 2022 e 2023, aprofundamos ainda mais essa presença ao realizar cinco ciclos de formação do programa Jornalismo e Território – edição Justiça Climática, voltado para comunicadores de toda a região. Durante essa jornada, estreitamos laços com iniciativas como Abaré Jornalismo (AM), Maré Cheia Produtora (PA) e Na Cuia Produtora Cultural (PA), além de diversos outros comunicadores e comunicadoras.
Foi no TechCamp, em 2023, que essa conexão ganhou um novo significado. Pela primeira vez, representantes de iniciativas periféricas de todo o Brasil puderam vivenciar Belém e a região Norte de uma forma mais afetiva e visceral. Para muitas dessas organizações, esse contato direto com os saberes, territórios e comunicadores locais foi uma experiência transformadora.
Ao longo do evento, reunimos 60 representantes de iniciativas de jornalismo e comunicação independente de todo o Brasil para formações e mentorias. Além de um momento de muito aprendizado para a Énois, o TechCamp marcou uma virada de chave na forma como co-criamos nossos projetos: agora, com uma abordagem ainda mais descentralizada e fortalecendo pontes que antes pareciam distantes.
Ter construído essas relações ao longo dos anos significa muito para a Énois. Mais do que uma presença institucional, essa trajetória reflete um compromisso real com o território, com as pessoas e com a comunicação popular que nasce a partir dessas conexões.
Agora, em 2025, começamos o ano com uma edição especial do Prato Firmeza, o projeto mais longevo da casa, desta vez mergulhando na culinária de Belém e Manaus. Essa iniciativa vem sendo gestada desde 2021, com a consultoria da Clarinda Sateré Mawé, antropóloga e chef de cozinha da Casa de Comida Indígena Biatüwi, de Manaus.
Junto ao Tapajós de Fato, Puxirum do Bem Viver, Rede de Comunicadores da COIAB, Amanda LeLibras e outros profissionais da região, estamos cocriando um livro sobre a gastronomia das quebradas de Belém e Manaus. Porque contar essa história é também resgatar as raízes da culinária brasileira e sua conexão com os territórios e saberes ancestrais.
Texto por Jessica Mota, coordenadora do laboratório Énois