As inteligências artificiais vão acabar com o jornalismo?

De tempos em tempos, quando uma nova tecnologia é criada, surge com ela uma pergunta apocalíptica para o jornalismo.

Se a sua preocupação é com a possibilidade de uma máquina te substituir enquanto jornalista, fica tranquila. Isso não vai acontecer tão cedo. O seu cérebro, o seu corpo e a sua vivência são bem mais complexos e eficientes que um algoritmo.

Existem cenários sombrios? Sim. Também existem muitos questionamentos sobre o impacto do uso das inteligências artificiais no ecossistema da informação e na própria democracia – o que inclui a própria Internet como a conhecemos e a já aguerrida batalha contra a desinformação. 

A newsletter Farol Jornalismo fez um ótimo apanhado sobre essas discussões nesta edição aqui (para os conteúdos em inglês, sugiro a tradução que o navegador Google Chrome possibilita). 

Mas de cara, arrisco a dizer que quanto menos nos deixarmos agir pelo automatismo na cobertura e mais exercitarmos um jornalismo focado nas pessoas, que responda às perguntas óbvias que todos os dias o noticiário deixa passar, mais distante de sermos assimilados pelas máquinas estaremos. Ou de apurarmos e escrevermos como elas.

Afinal, para a pergunta-clichê-apocalíptica temos também a resposta-clichê-renovadora: de que jornalismo estamos falando? Daquele que reproduz estereótipos? Daquele que se baseia numa cobertura cheia de vieses de confirmação? 

Desconfio que nutrir as relações de jornalistas com suas comunidades, fazer de dentro para dentro, nas favelas, periferias e interiores do país, é o que pode garantir não só a integridade da informação, mas a confiança de que essa informação vem de alguém que vive e conhece aquele território. Além disso, é o que pode fortalecer a pluralidade de fontes de informação na Internet, das quais as próprias inteligências artificiais se alimentam e reproduzem. 

"A inteligência artificial é um grande algoritmo de rede neural que analisa um grande volume de dados do que tem na internet”, explicou Rosângela Menezes, jornalista e fundadora da Awalé, na última Redação Aberta. “Na verdade, a gente tem, como comunicadores, o desafio de produzir mais conteúdo focado em quebrar estereótipos. É através dessa produção que nós, enquanto rede de jornalistas, poderemos em algum momento, lá na frente, fazer o ChatGPT identificar não-estereótipos. Na Awalé, por exemplo, a gente só fala de mulheres negras e indígenas".

Pois é. Vamos lembrar que a Internet e seus algoritmos se conformam dentro do mundo em que vivemos. O ChatGPT, por exemplo, se baseia muito em formas de textos e imagens comuns em culturas anglófonas, eurocêntricas, masculinas e brancas.

Toma aí mais um clichê: talvez as inteligências artificiais estejam aí pra nos lembrarem da importância daquilo que nos torna humanos. Nada mais humano que a diversidade e a complexidade.

Dito isso, também é importante reconhecer a potência que o desenvolvimento das inteligências artificiais trazem para esse jornalismo que é produzido a partir e para as periferias do Brasil, sejam elas periferias territoriais, raciais ou de gênero.

Em contextos de poucos recursos financeiros e humanos, ter uma ferramenta para auxiliar gratuitamente cada profissional de uma organização, em diversas tarefas simultâneas, é um ganho e tanto.

"A gente não tem o tempo e nem o privilégio de outros grupos e pessoas que já aprovam grandes projetos têm, de ir pra uma casa de praia escrever projetos de lá”, compartilhou Yane Mendes, da Rede Tumulto, que fica no Recife, na última Redação Aberta. “A gente de favela escreve projeto no meio do ônibus, nas correrias do dia a dia. Isso da gente ficar dizendo que não consegue usar o ChatGPT, a gente tá replicando o que a branquitude quer. Não é sobre capacidade. Quem domina a ferramenta sai na frente e tem o privilégio nessa corrida de acessos a recursos".

Para começar, se você trabalha com informação e trabalho criativo, é preciso estabelecer alguns limites para você, sua equipe e seu público.

"Nossa maior preocupação foi como garantir a credibilidade para o nosso leitor”, explica Lucas Maia, jornalista e sócio-diretor da Agência Tatu, uma equipe de comunicação de Alagoas, focada em jornalismo de dados, inovação no jornalismo e jornalismo investigativo. “A gente criou uma política de uso de IA na redação. A máquina é uma ferramenta, e a responsabilidade de tocar um veículo de comunicação é dos jornalistas. Nunca vamos culpar o erro na máquina. Quando a gente errar, a gente errou".

Na Awalé, startup de impacto social que dá treinamento para mulheres negras e indígenas e tem sede em Santa Catarina, o caminho foi parecido. Rosângela conta que passaram a ter um uso bastante orientado do ChatGPT para não perderem a qualidade no conteúdo, que tem a premissa de ser escrito de humanos para humanos. 

"É o que eu vendo, todo mundo que escreve na Awalé é jornalista. Então tivemos todo um trabalho com a equipe pra entender como usar. Toda vez que a gente tem uma freelancer nova trabalhando com a gente, temos esse trabalho de apresentar os limites e orientar o uso. A gente não usa nas redes sociais, por exemplo, porque em todos os testes que fiz com o ChatGPT, nenhum teve um retorno satisfatório com o que a gente entrega nas nossas redes sociais".

Seja para automatizar tarefas repetitivas ou ajudar com o pensamento criativo de um conteúdo, as inteligências artificiais precisam que você dê comandos bem explicados, objetivos. Você pode escrever do jeito que fala, é até melhor. Mas provavelmente vai precisar de algumas tentativas até chegar a uma resposta satisfatória da ferramenta. Isso porque é preciso saber direcionar bem seu pedido. Se estiver dando muito trabalho, bom, aí a gente volta pro começo: a máquina não vai saber fazer o que só você pode.

Numa conversa que tive com Lucas e Rosângela para a realização da última Redação Aberta, Lucas comentou sobre a diferença entre os resultados de uma imagem que ele e o designer da Tatu pediram para a inteligência artificial produzir. A do designer foi infinitamente melhor, dizendo ele, pelo próprio conhecimento que o profissional carrega.

Reúno aqui algumas dicas compartilhadas por Rosângela e Lucas. Para mais detalhes e para continuar as reflexões sobre o tema, confira a gravação completa do nosso encontro sobre inteligência artificial como ferramenta de apoio nas redações.

1. Produção de roteiro de eventos: quando inserimos o máximo de informações, melhor o ChatGPT responde. Descreva o tema do evento, o perfil das ou dos palestrantes, moderadoras ou moderadores, o objetivo do evento e peça para o ChatGPT perguntar A ideia não é copiar exatamente a proposta, mas usar as informações como guia, principalmente se você não tem experiência em realizar eventos de debate.

2. Resumo de editais: copie e cole o texto do edital no ChatGPT. A ferramenta vai resumir. Depois, você pode fazer várias perguntas pro ChatGPT sobre este edital, como quem pode ou não participar, qual o prazo, etc. Essa utilidade pode ser especialmente útil quando se tem vários editais para ler.

3. Formatação de tabelas de PDFs: esse uso é ótimo para jornalistas que trabalham na apuração de dados fornecidos em tabelas dentro de PDFs. Você copia as informações da tabela no PDF, cola no ChatGPT e pede para que a inteligência artificial produza uma tabela com aquelas informações. Pronto, agora é só copiar e colar para uma planilha, por exemplo.

4. Sugestão de pautas: contextualize sobre o que se tratam as informações fornecidas na tabela anterior e peça para que o ChatGPT dê sugestões de pauta. De novo, a ideia não é seguir exatamente o que a ferramenta propõe. Faça uma análise crítica e utilize as referências para desenvolver suas pautas.

Se quiser continuar essa conversa, responda a esse e-mail! Vou adorar saber o que você pensa sobre o assunto.

Até mais!

Conexão da periferia com os povos-florestas

8 dias, 14 jornalistas e um intercâmbio entre a região amazônica e as periferias de São Paulo. Interessante, né?

Essa foi a experiência vivenciada pela Énois como produtora convidada da Plataforma Sumaúma para fazer o Micélio, um programa de co-formação e imersão de jornalistas florestas, que aconteceu no início do mês de abril.

Eu, Gloria Maria, comunicadora institucional da Énois, vim contar essa história…

“Micélio” é também um fungo que atua no solo e estabelece uma rede de conexões com diversas espécies de seres vivos e, por essa capacidade de conectar, deu nome à metodologia.

Foram dias de trocas e entrevistas sobre jornalismo local e territórios. As pessoas participantes, chamadas também de “micélios”, se dividiram em grupos para acompanhar a Agência Mural, o Periferia em Movimento e Alma Preta, parceiras nessa vivência. 

A Plataforma Sumaúma propõe um jornalismo do centro do mundo, que desloca a concepção do que é centro local e regionalmente. Os centros não são as grandes cidades onde muito se decide, mas pouco se olha para a população, ou as regiões que concentram o poder, a política e a economia do nosso país. Centro do mundo é onde o povo está, suas histórias e suas demandas.

A gente se identificou demais com esse conceito. Aqui na Énois, temos como foco da nossa atuação as periferias e estar com a Sumaúma significou uma conexão entre floresta e periferia, entre centros do mundo.

Eu pude mostrar a minha comunidade e contar sobre a reportagem que estou produzindo para a Agência Mural, a respeito do direito à moradia e a canalização do córrego Antonico, que um dia já foi limpo e cheio de vida e fonte de alimentação para os moradores locais e hoje está poluído.”

A cidade de São Paulo foi erguida em cima de rios que se acabaram em meio às construções. Esse contexto tocou Yãkurixi Xipaya, de 21 anos, jornalista floresta e moradora de Altamira (PA).

“O que mais me marcou foi saber dos rios mortos e ouvir relatos de moradores que já se alimentaram deles, sentindo a pureza da água. Isso me fez refletir muito sobre a importância de lutar pelos rios que sustentam meu povo”, conta Yãkurixi.

Para ela, conhecer as periferias paulistas significou entender que existem lutas semelhantes às da região amazônica e fortalecer uma rede comunitária diversa e inter-regional.

Sol, 28 anos, também jornalista floresta e artista visual do Xingu, compartilha do mesmo significado. “Conhecer a Énois e outras organizações que utilizam a comunicação como ferramenta de ativismo em defesa dos territórios me deixou muito feliz. Isso nos une”, explica.

No último dia, a co-formação de jornalistas florestas contou com a presença da filósofa e escritora, Sueli Carneiro, em uma roda de diálogo sobre o histórico da imprensa brasileira e da luta pela diversidade no Brasil.

“Costumo debochar, dizendo que éramos meio bolchevique, então não tinha espaço para a ética do cuidado nas relações políticas. E ter essa ética hoje em dia, trazida por essa geração de uma maneira muito forte é humanizar a prática política. Isso é positivo.”, afirmou a filósofa sobre as políticas de cuidado implementadas pelas organizações de jornalismo local que estavam presentes.

A Casa Sueli Carneiro e a Casa Ecoativa também foram parceiras da Plataforma Sumaúma na imersão em São Paulo e a gente espera viver mais momentos com essa galera.

Énois!
Até a próxima história, gente!

A Rede Énois e a “potência mulheres” que ela nos traz

Hoje é 8 de Março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, e nossa primeira história por aqui não poderia ser diferente disso. Recentemente, anunciamos a chegada de Sanara Santos à diretoria da Énois, a primeira mulher trans negra e periférica a ocupar um cargo de direção em uma organização de jornalismo do Brasil. Agora, trazemos com orgulho uma outra trajetória também muito significativa e que demarca novas eras, se assim podemos chamar nossas revoluções.

A próxima edição do Prato Firmeza, o guia gastronômico das quebradas da Énois, será coordenada pela primeira vez por uma pessoa da Rede Énois, comunidade que cultivamos reunindo iniciativas parceiras de comunicação local de todo o Brasil. Essa pessoa é mulher, é negra, é mãe e vive no Norte do país.

É Cecília Amorim, companheira que desbrava o jornalismo ambiental na região amazônica e agora está com a gente colaborando na equipe. Cecília retrata muito bem o que chamamos de Rede Énois… Uma comunidade composta majoritariamente por mulheres (51,3% da Rede Énois), pessoas pretas (27,2%), e que tem construído conexões na região Norte (10% da Rede Énois está no estado do Pará, com 140 pessoas).

Chega cá, Cecília

Cecília, a partir de quem é, mobiliza o território em que vive com o jornalismo local. Na Énois, já participou do Redação Abertaescreveu uma Diversa, representou a rede no Congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em 2023, e hoje nos presenteia estando na coordenação do próximo Prato Firmeza.
 

Ela é jornalista e mãe de duas crianças. Nasceu em Imperatriz (MA), mas mora há 30 anos em Belém (PA), desde quando a família decidiu tentar a vida no Norte. Cecília recorda que desde a infância teve o incentivo de estudar. Sua mãe, que era trabalhadora doméstica, ganhava livros doados e lhe presenteava. Aos 13 anos, também passou a trabalhar como doméstica conciliando com os estudos para ajudar a família. Rotina difícil para uma pré-adolescente, mas que é a realidade de muitas meninas Brasil afora.

Muitas também (e que sejam cada vez mais), assim como Cecília, superam essas barreiras e conseguem realizar sonhos…

“Não escolhi exatamente o jornalismo. Eu escolhi escrever e me encontrei dentro do jornalismo”

Em 2020, no início da pandemia da Covid-19, ela foi convidada por três amigos comunicadores (Adison Ferreira, Eraldo Paulino e Felipe Melo) para realizar o podcast Carta Amazônia, que dois anos depois participou do Diversidade nas Redações da Énois.

Segundo Cecília, com esse recursos do programa foi possível repensar a iniciativa como algo maior, e assim nasce o site do Carta Amazônia. Hoje, a iniciativa é uma das organizações selecionadas pelo TechCamp Belém 2023, a Embaixada e Consulados EUA no Brasil, em parceria com a Énois, contempladas com recursos para desenvolver um projeto próprio.

Escola Carta Amazônia de Jornalismo Ambiental está sendo realizada e recebeu 177 inscrições. Um verdadeiro sucesso!!

Desde quando Cecília Amorim passou a entender como a grande mídia cobre o território amazônico, ela trabalha e sonha com um jornalismo local, decolonial e protagonizado por quem vive na região. Um jornalismo que quebra os estereótipos da mídia hegemônica. 

“A grande mídia só chega aqui, mandando seus jornalistas, para falar de tragédia. Mas existe uma Amazônia metrópole, ribeirinha, indígena, floresta, lavrado, dos peixes e da carne. Esse território é muito plural e o jornalismo local é para comunicar que somos muitas realidades e não uma coisa só”.

Falar de luta é também falar sobre conquista. Por isso, contamos hoje a história de Cecília que se mistura com a nossa e move comunicação e territórios para perspectivas mais justas e diversas. Inspirador, né?

Fica com a gente que tem mais chegando!

Sanara Santos assume diretoria na Énois

De acordo com a pesquisa Diversidade e Inclusão, divulgada em 2022 e realizada pela consultoria global Great Place To Work (GPTW), 92% das pessoas que ocupam cargos de chefia, direção e presidência são pessoas cis heteronormativas. Ou seja, pessoas (e corpos) que atendem e representam os padrões do que a nossa sociedade estabelece como feminilidade e masculinidade. Isso significa pouca ou quase nenhuma diversidade de gênero nestes espaços.

Diante desse dado, quando você lê a frase “A primeira diretora trans, negra e periférica de uma organização de jornalismo do Brasil”, o que te vem à mente?

Para a Énois, é um passo importante dado por aqui, construído ao longo de anos com o protagonismo de Sanara Santos. Essa frase, apesar de significativa e potente e de ser a que escolhemos contar para vocês, não é capaz de definir a alegria e o orgulho que tomam o anúncio da chegada dela à diretoria. Não é capaz de definir a história e trajetória percorridas até esse momento.

Sanara Maria dos Santos Araujo, nascida e criada na favela da Ilha, uma pequena comunidade que fica entre a zona leste de São Paulo e Santo André, no ABC Paulista, entrou para a Escola de Jornalismo da Énois em 2017 e, de lá para cá, construiu novas perspectivas dentro da organização. Perspectivas sempre conectadas com a diversidade e inclusão.

“Uma história de dor, amor, coletividade e jornalismo”, por Sanara Santos
Confira a primeira Diversa do ano!

Foi freelancer, produtora chefe, coordenadora e agora diretora da área de Formação, ramo que carrega a essência da organização e o seu jeito de fazer, sensível e acolhedor. Sanara nos conta alguns dos seus pontos de vista…

A direção como um lugar de inovar 

“Estar neste espaço é pensar inovação. Ser uma mulher trans é sobre olhar com outra perspectiva de como e onde o jornalismo vai precisar inovar financeiramente e culturalmente. É desenhar um futuro que não é mais cis, branco, elitista, e que está cada vez mais nas mãos das pessoas pretas, mulheres trans, e periféricas”.

Troca e representatividade

“Sou essa diretora que está com as organizações que passaram pela Énois, me relaciono com sensibilidade e isso faz com que as pessoas olhem para gente com esse lugar de troca, uma diretora muito próxima da histórias das organizações. Acredito que elas se sintam representadas”.

Transformações internas

“Acredito que a Énois vai passar por um processo de mudança, temos que pensar com mais profundidade e nos organizar internamente para fortalecer cada vez mais o jornalismo local, diverso e periférico”.

A primeira da diretora trans, negra e periférica de uma organização de jornalismo do Brasil

Por Sanara Santos 

Olá, Rede Énois! É muito bom reencontrar vocês neste começo de ano. Coube a mim a missão de escrever a nossa primeira Diversa de 2024 e trago boas novas…

A primeira é que iniciamos este ano olhando para a frente de uma maneira muito potente, olhando para o futuro. Sim, somos um laboratório que experiencia o jornalismo com a ótica da diversidade, representatividade e inclusão. Uma organização que completou 14 anos de existência cultivando ecossistemas de jornalismo local e sendo cultivada por eles.

Em 2024, escolhemos dar novos passos nesse cultivo… E um exemplo disso é a minha entrada para a direção da Énois.

Me chamo Sanara Maria dos Santos Araujo, nasci e fui criada na favela da Ilha, uma pequena comunidade que fica entre a zona leste de São Paulo e Santo André, no ABC Paulista. Por estar nesta fronteira, fui esquecida e pouco cuidada pelas políticas públicas. Assim como meu corpo, assim como o jornalismo local.

Viver entre as ruas, becos, lajes e vielas moldaram minha visão sobre o mundo que vivemos, crescer em um ambiente tão complexo onde as violências, vulnerabilidades, potenciais e culturas coexistem, me levaram desde nova a entender que “sozinha eu não aguento”. Para quem mora na favela, essa é uma das primeiras  percepções: a coletividade é necessária para garantir a nossa existência.

E como mulher trans e negra, dentro da comunidade, encontrar uma coletividade que abarcase quem eu era e quem eu sou foi desafiador. Por muito tempo, eu vivi na sombra do que eu queria ser. Até que chegou o momento em que meu corpo tomou a frente e decidiu por ele mesmo se mostrar…

Como disse Angela Davis, “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Mas, às vezes, esse movimento não é tão fácil de vivenciar. Em 2017, me encontrei expulsa de casa carregando apenas a minha vulnerabilidade e sendo acolhida por um coletivo anarquista no ABC Paulista. Neste momento, nascia Sanara Santos.

(Sanara à época do coletivo anarquista, em 2017. Foto: Arquivo pessoal)

Assim a vida se apresentou. Dura, real e implacável. Foi onde o destino cruzou meu caminho com a Énois. Primeiro com uma plaquinha escrita “Este restaurante é Prato Firmeza”. Anos antes de eu entrar para o coletivo anarquista, a Énois já tinha passado lá mapeando restaurantes e iniciativas de comida para o Prato Firmeza, o nosso guia gastronômico das quebradas.

Meses depois da nossa atual Agente de Dados e Impacto,e também minha grande amiga, Mel Oyá, entrou para a Escola de Jornalismo, que foi o principal projeto da Énois durante anos. Dez jovens das periferias de São Paulo eram convidadas e convidados a se aprofundar sobre conhecimentos ligados a um jornalismo diverso e inovador, no período de um ano. Foi neste ano que a Énois produziu o seu segundo Prato Firmeza e um documentário chamado Jovens e a Grana, em que  fui convidada para mostrar a minha vivência com o dinheiro sendo uma jovem que sobrevivia da arte e sem apoio familiar.

Ter a oportunidade de contar a minha história para jovens comunicadores acendeu uma chama em mim, quem é jornalista sabe muito bem do que estou falando. Eu senti o poder da comunicação e queria aquilo pra mim.

Decidi me aproximar da Énois não apenas como uma espectadora, mas como alguém determinada a fazer parte dessa transformação. Ingressei em 2018 nos programas oferecidos, ávida por aprender e crescer. Hoje posso afirmar que cada oficina moldou minhas habilidades e expandiu minha visão de possibilidades de existência pessoal e profissional.

Se colocando para jogo

E como tudo é um via de mão dupla, o pessoal da Énois (na época, Amanda Rahra, Simone Cunha, Nina Weingrill, Gisele Brito, Simone Freire, Vinicius Cordeiro e Vicente Goés), também identificou algo meu que era importante para a organização. Quando terminei a Escola de Jornalismo, não sai da Énois, me coloquei para jogo assim como fui colocada e incentivada a permanecer. Foram freelas, cafés com bolos, risadas e acolhimento que desenharam um lugar pra mim.

No final de 2019, a Énois passou por uma reestruturação e acabei entrando para a equipe fixa. Primeiro, como residente e depois como produtora chefe de formação. No ano seguinte, me tornei Coordenadora de Formação, totalizando mais de 200 encontros formativos dentro dos projetos da Énois, aprendendo com o DNA educador da organização e compartilhando a minha essência. Me descobri aqui uma boa educadora.

Para mim, os anos passaram voando e em 2024 aqui estou eu. Não como participante, mas como membro ativo da diretoria da Énois. Esta jornada foi uma montanha-russa de aprendizado, desafios e conquistas, sempre com coletividade. Tornei-me uma testemunha viva da capacidade da Énois de transformar vidas, inclusive a minha. Assumir o papel de diretora é um privilégio e uma responsabilidade que levo com orgulho. Estou ansiosa para continuar contribuindo para o impacto positivo da Énois e inspirar outros jovens a escreverem suas próprias histórias de sucesso.

Aqui começamos o ano com novos planejamentos, novos desafios, uma nova diretora e muita vontade de continuar transformando o jornalismo, juntas, porque é mais legal e podemos ir mais longe. E foi assim que esse sonho se tornou realidade.

Quero deixar um breve agradecimento a Nina Weingrill e Leticia Tavres, minhas antecessoras no cargo de Diretora, a toda rede Énois que passou pelas nossas formações, e às minhas colegas de trabalho.

E não poderia esquecer que esse espaço é celebrado após o mês da Visibilidade Trans, enquanto muitas mulheres trans, travestis, homens trans, trans masculinos e não binários, lutam para conquistar sonhos e escapar de uma realidade regada de dor e ódio. Mas também encontram momentos como este para celebrar utopias.

Que a gente nunca esqueça: Nada sobre nós, sem nós!

Retrospectiva 2023: Énois que tá junto do jornalismo local!

Relembre com a gente o nosso ano de caminhada coletiva

Há 14 anos, a Énois trabalha por mais diversidade no jornalismo, um fazer que se atualiza de acordo com as mudanças sociais, econômicas, políticas e tecnológicas que os territórios brasileiros e a comunicação vivenciam. Sejam em contextos de aprofundamento das desigualdades ou de fortalecimento da garantia de direitos e da democracia, estamos atentas.

Já tivemos muitas formas de atuação e, em 2023, nos consolidamos como uma rede tecida colaborativamente por quem acredita no jornalismo como prática de transformação das diversas realidades do país…

Já fomos uma organização com atuação local na cidade de São Paulo. Hoje, estamos em expansão. Entre os estados com maior presença da Énois, lideram São Paulo (20%), Pará (10%) e Pernambuco (8%), chegando nas regiões Norte e Nordeste.

E como é que a gente tem feito isso?

2023 foi um ano de ousadia e ineditismo por aqui. Decidimos mapear o Retrato do Jornalismo Brasileiro, em uma pesquisa que faz parceria com o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e a Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e teve patrocínio do Google News Initiative.

Neste passo, também realizamos o primeiro Prato Firmeza de abrangência nacional, que pautou a relação entre campo e cidade na gastronomia periférica. E ao mesmo tempo, também fizemos o Pratinho Firmeza SP, com foco no público infanto-juvenil. Ambos projetos viabilizados por leis culturais, sendo o Pratinho com patrocínio da Ticket.

De novos ares se fez aquilo que é a nossa origem. Em 2023, colocamos no ar uma versão em Ensino À Distância (EAD) da nossa Escola de Jornalismo, que alcançou quase 500 pessoas, numa parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e o Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio também do Google News Initiative. Também levamos, junto à Embaixada e Consulados EUA no Brasil, 59 iniciativas de comunicação de todo o país para o TechCamp Belém, para construir caminhos para fortalecer o jornalismo local, diverso e sustentável.

Lançamos o Mapa do Jornalismo Local das regiões Norte e Centro-Oeste, em Manaus (AM), em parceria com o Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA), com a coordenação da jornalista Jéssica Botelho.

Isso tudo nos constrói como organização…

Realizamos 64 formações neste ano e 122 eventos com jornalistas locais. Distribuímos cerca de 40% do orçamento do ano para fortalecer 11 organizações jornalísticas – com formações, apoios financeiros, materiais e parcerias – e 76 bolsas para jornalistas. Nesse passo, também apoiamos a realização de 1.148 reportagens e a contratação de 186 pessoasArticulamos a participação de 60 jornalistas em eventos e espaços e contamos 176 histórias de transformações potencializadas pela Énois, em nossas redes.

A diversidade que queremos fomentar no mundo se faz presente na gestão e equipe da Énois. Temos uma equipe fixa, sendo a maioria pretas e pardas, e tivemos 227 pessoas colaboradoras nos nossos projetos, em 2023. Um grupo majoritariamente preto e de mulheres cis.

2023 também foi um ano para consolidar práticas internas. Cultivamos a colaboração, cuidado e horizontalidade…

É com esse cuidado mútuo que alimentamos diariamente uma perspectiva de crescimento junto às iniciativas de comunicação, aos territórios e às organizações companheiras de estrada. Entre as parcerias de 2023, ressaltamos a nossa participação no Festival 3i, no Congresso Internacional de Jornalismo de Educação (Jeduca) e o apoio ao Festival FALA!

Em 2023, alimentamos também o nosso sonho de atuar a nível de América Latina, levando a nossa experiência de análise de impactos  para o Media Party, em Buenos Aires (AR). Massa, né? E é com essa vivência que encerramos a nossa breve retrospectiva…

Olhando para a frente e construindo um futuro que já bate na porta. Desejando novos voos ao lado de muito mais gente… Em 2024, é nois de novo! Énois que tá junto do jornalismo local!