Com o Arte é Informação, Énois seleciona 10 artistas para processo imersivo sobre alimentação e clima nas periferias de São Paulo

A Énois anuncia as 10 pessoas selecionadas para a edição 2026 do Arte é Informação, processo imersivo que acontece entre março e maio e promove o encontro, a troca e a criação colaborativa entre artistas de diferentes regiões da cidade de São Paulo.

A chamada pública recebeu 30 inscrições de pessoas artistas, articuladoras culturais e comunicadoras interessadas em investigar, por meio da arte, as relações entre alimentação, clima e território. Foram escolhidas propostas com linguagens diversas, que abordam os temas da soberania alimentar e da justiça climática de forma complementar. 50% das pessoas selecionadas são trans.

O Arte é Informação é um programa formativo e criativo que parte da premissa de que a informação pode, e deve, atravessar outros campos para além do jornalismo. Seu objetivo é fortalecer pessoas artistas e comunicadoras periféricas como produtoras de conhecimento, articulando arte, comunicação e território para refletir sobre temas estruturais como justiça climática e soberania alimentar.

Durante três meses, as pessoas selecionadas participam de encontros formativos online e presenciais, desenvolvem seus trabalhos autorais de forma coletiva e constroem uma programação pública que será realizada nos dias 23 e 24 de maio de 2026, simultaneamente à Virada Cultural de São Paulo.

A curadoria e formação do Arte é Informação 2026 é conduzida por Cal. Natural de Pernambuco, com uma trajetória de quase 20 anos, constrói ao longo dos últimos 10 anos, proposições que aproximam vizinhanças para uma ação mais curiosa, consciente e criativa do cotidiano. Faz isso por meio da plataforma “criando costumes”, onde reúne suas experimentações artísticas, e da criação do espaço CÀÈ – Casa Ateliê Escola, que aconteceu ao longo desses anos em São Paulo e que desde 2025, está sediado em Olinda, Pernambuco.  Assistiu, coordenou, dirigiu e co-criou obras, oficinas e programas educativos, em diversas instituições, entre elas o MAM (Rio de Janeiro), MAMAM (São Paulo), Sesc (São Paulo), MoMA PS1 (Nova Iorque) e Sharjah Biennial (Emirados Árabes). Tem premiações por suas obras e direções artísticas, sendo uma delas o Prêmio Itamaraty de Arte Contemporânea, recebido em 2013. Possui obras em coleções públicas e atualmente vive em Nova Iorque.

O processo inclui ainda a produção de uma publicação coordenada pela Énois sobre como artistas mobilizam informação e ampliam as fronteiras da comunicação popular.

Um percurso iniciado em 2025

O Arte é Informação foi realizado pela primeira vez em 2025 como um ciclo formativo nos bairros da Brasilândia, Grajaú, Paraisópolis e São Mateus.

Na primeira edição, artistas e comunicadores refletiram sobre crise climática, racismo ambiental, direitos básicos e produção de informação nas periferias. As formações abordaram tanto aspectos técnicos, como portfólio e posicionamento profissional, quanto dimensões políticas da arte enquanto estratégia de comunicação comunitária.

A edição de 2026 dá seguimento na articulação com os bairros da edição anterior, aprofundando as reflexões e avançando para um processo prático, com o desenvolvimento de trabalhos autorais destinados às comunidades locais por meio de uma programação pública.

O Arte é Informação em São Paulo acontece por meio da parceria com organizações que já atuam de forma estruturante em suas comunidades.

Na Brasilândia, a parceria é com O PiPa, iniciativa que atua nas áreas do brincar, arte, cultura e educação não formal. No Grajaú, com o Travas da Sul, organização que promove ações de apoio à população LGBTrans, especialmente em áreas periféricas, desenvolvendo redes de acolhimento e mobilização social.

Em Paraisópolis, temos uma dupla parceria, com o Estúdio 7 Notas, espaço que produz artistas e MCs do território, realiza vídeos, reportagens e ações que conectam cultura e jornalismo; e com a Favelarte Galeria Suburbana, primeira galeria de arte de Paraisópolis, espaço de encontro, formação e circulação de produções culturais do território.

Em São Mateus, com o São Mateus em Movimento, projeto que tem como objetivo transformar a realidade local por meio de iniciativas culturais, educacionais, ecológicas e sociais.

Conheça as pessoas selecionadas para o Arte é Informação 2026

Acân Santos Simões

Produtor cultural e profissional do audiovisual atuante na zona sul de São Paulo, com experiência em edição de áudio e produção de projetos culturais. Sua proposta articula audiovisual e território para refletir sobre alimentação e clima.

Adler da Silva Martins (Coala)

Multiartista da Zona Leste (São Mateus), músico, poeta e produtor cultural com forte atuação territorial. Sua proposta utiliza poesia falada e performance para abordar justiça climática e alimentação.

Bru Matias Martins Silva (Bruxa Livre)

Produtore cultural, artista visual e arte-educadore que conecta arte, natureza e cuidado comunitário. Sua proposta articula arte urbana e educação para fortalecer autonomia e consciência ambiental.

Helena Pandora Cruz de Souza

Artista e produtora cultural com trajetória nas artes visuais e gestão cultural, integrante da Travas da Sul. Sua proposta envolve criação coletiva e conscientização climática no território.

Hermeson de Morais (Ticano)

Articulador cultural e comunicador de Paraisópolis, criador do Favela Podcast e idealizador da Favelarte Galeria Suburbana. Sua proposta articula exposição e participação comunitária para discutir clima e direito à cidade.

Iranir Cardoso Diniz (Yra)

Cantora, compositora e bacharel em Direito, atuante na intersecção entre cultura e justiça social. Sua proposta utiliza instalação artística e participação pública para refletir sobre o direito à alimentação.

Ludimile Aparecida da Silva

Fotógrafa e articuladora territorial dedicada à memória periférica. Sua proposta realiza mapeamento visual de iniciativas de segurança alimentar.

Nathália Ract da Silva

Artista e jornalista com atuação em projetos comunitários ligados à alimentação e juventude. Sua proposta destaca trabalhadoras da alimentação e a comida como força comunitária.

Pedro Salvador

Fotógrafo e realizador audiovisual do Grajaú, com pesquisa voltada ao cotidiano periférico. Sua proposta investiga como as periferias sustentam a vida em tempos de crise climática.

Pyxuá R. de Castro

Artista e articuladore que conecta arte, memória e justiça social em redes periféricas. Sua proposta articula narrativa audiovisual e publicação independente sobre migração e clima.

Não foi selecionada(o)? Participe das formações abertas do Arte é Informação

Como parte do programa, o Arte é Informação oferecerá quatro formações online abertas ao público, voltadas à ampliação de técnicas e conhecimentos em produção cultural.

  • Produção cultural – 04/03 (quarta) – 19h30 às 22h
  • Escrita de projetos – 11/03 (quarta) – 19h30 às 22h
  • Orçamento de projetos – 18/03 (quarta) – 19h30 às 22h
  • O que é um espaço expositivo? – 25/03 (quarta) – 19h30 às 22h

Serão disponibilizadas 50 bolsas no valor total de R$ 100, destinadas a pessoas que participarem integralmente dos quatro encontros.

Para conhecer mais detalhes sobre os critérios de recebimento das bolsas e participar das formações, entre no grupo oficial no WhatsApp: https://chat.whatsapp.com/ByGT3lFO8YpL2c256M6Uwr

2026 chegou. Copa, eleições com IA… e você já está sentindo os desafios deste ano?

Não é novidade que este é um ano que já começou desafiador para a comunicação e para comunicadores das periferias do Brasil. Todos os dias, esses profissionais constroem, tijolo por tijolo, uma comunicação que forma opinião pública em seus territórios e sustenta a democracia no cotidiano.

Apesar de ser uma palavra muito presente no discurso, a democracia ainda carrega fragilidades profundas. A ausência de informações que impactam diretamente a vida nos territórios — em um país onde 30 milhões de pessoas vivem em desertos de notícias — cria um cenário fértil para a desinformação. As consequências são graves e recaem, sobretudo, sobre quem sustenta este país: o povo.

Em 2026, esse contexto se intensifica. O ano é marcado por eleições gerais e por um ambiente informacional cada vez mais complexo. Segundo o DataSenado, sete em cada dez brasileiros já tiveram contato com alguma notícia falsa. Com o avanço da Inteligência Artificial, o volume de vídeos e imagens manipuladas cresce assustadoramente, tornando ainda mais difícil distinguir o que é real. Informar as comunidades, nesse cenário, se torna um dos maiores desafios da comunicação da ponta.

Por aqui, na Énois, temos apostado em novas formas de combater a desinformação e ampliar o acesso à informação. Uma dessas estratégias é o projeto Arte é Informação, que reconhece a arte como linguagem potente de comunicação popular. Apenas no ano passado, a iniciativa formou e interagiu com mais de 100 artistas, comunicadores, lideranças e produtores culturais de cinco periferias da cidade de São Paulo (SP).

12 de julho de 2025 – Turma de pessoas trans do Arte é Informação, no Grajaú (SP)

O objetivo é informar a partir das linguagens que as populações já produzem. Seja por meio de um som, de um grafite ou de uma fotografia, a arte se torna ferramenta de mobilização, diálogo e fortalecimento da democracia.

Em 2026, ano eleitoral, essa estratégia ganha ainda mais centralidade ao manter no foco do debate público temas estruturantes como sistemas alimentares, justiça climática e justiça social. Essa abordagem também se conecta ao Prato Firmeza, ampliando o olhar para outros biomas, como o resultado do Prato Firmeza Amazônia, e traçando outras possibilidades de articulação e mobilização coletiva.

25 de outubro de 2025 – Lançamento do Prato Firmeza Amazônia, que uniu arte, alimentação e clima, em Manaus (MA)

A Énois tem se consolidado como uma fomentadora e articuladora de redes de comunicação periférica em todo o Brasil. Nosso compromisso é fortalecer iniciativas que prestam serviços essenciais às suas comunidades, garantindo que a comunicação tenha condições mínimas de atuação, com estrutura, recursos e equipes capazes de prestar informações de interesse público com continuidade e responsabilidade.

Equipe de colaboradores fixos da Énois

Em 2025, esse compromisso se traduziu em resultados concretos: foram 90 pessoas contratadas em todo o Brasil; mais de 70% das pessoas contratadas são pretas, pardas ou indígenas, e mais de 55% são mulheres. São essas profissionais que tornam possível o exercício coletivo da cidadania e seguem construindo democracia a partir dos territórios. Em um cenário de tantos desafios, é fundamental seguir abrindo trilhas para garantir condições dignas de trabalho para comunicadores e artistas periféricos, assegurando sustentabilidade, cuidado e longevidade para quem informa o país.

O Relatório Institucional da Énois 2025, que estará disponível ainda esta semana no site da Énois, reúne as ações, aprendizados e caminhos trilhados ao longo do último ano, além de nos provocar a seguir fortalecendo perspectivas para 2026. Em um ano decisivo para o Brasil, reafirmamos nossa missão: fortalecer a comunicação comunitária brasileira, apoiar quem informa a partir dos territórios e apostar na comunicação como prática fundamental para a garantia de direitos.

Há jornalismo de qualidade sendo feito em situação de pobreza nas periferias

Reconhecer que há jornalistas – especialmente mulheres e pessoas negras – produzindo informação de qualidade em condições de pobreza é fundamental para buscar condições dignas de trabalho e diferenciar empreendedorismo de precarização no campo do jornalismo. Esse é o ponto central do artigo “Quem faz jornalismo das periferias no Brasil? Perfil e desafios das iniciativas jornalísticas”, apresentado no 1º Simpósio de Desigualdade e Gênero em Corumbá, Mato Grosso do Sul.

disponível na página 186: https://lnkd.in/dMvcexej

A pesquisa Retrato do Jornalismo Brasileiro foi pioneira no mapeamento do perfil racial, de gênero e de território das iniciativas jornalísticas. Se debruçou sobre o jornalismo periférico, frequentemente desconsiderado como jornalismo porque visto como missão, como extensão dos corpos periféricos porque a informação apoia sua defesa e existência.

“É preciso falar de forma aberta e sem medo sobre jornalistas periféricas produzindo informação de qualidade em situação de pobreza. Por isso o jornalismo, desde dentro das universidades, precisa discutir classe social. São as pessoas ricas e brancas que majoritariamente conseguem ainda seguir empregados num mercado em crise”, disse Paula Faustino Sampaio, coordenadora do Grupo de Trabalho Mulheres, Territórios E Violências: Histórias De Destemor.

O artigo foi produzido pela diretora de desenvolvimento institucional da Énois, simone cunha, e a coordenadora da Retrato, Angela Werdemberg dos Santos, e mostra a oposição entre a importância do jornalismo periférico para informar as comunidades e efetivar a democracia no dia a dia, e a falta de recursos para manter essas iniciativas, o que alimenta o ciclo da desigualdade e da precarização.

A pesquisa mostra ainda as condições desiguais em que é feita a comunicação no país. De um lado, muitas mulheres negras e periféricas têm de pagar para manter suas iniciativas. São CEOs voluntárias, como descreve o CEERT, parceiro da Énois na pesquisa. De outro, jornalistas homens brancos desenvolvendo suas iniciativas e conseguindo contratar até 5 funcionários.

A atuação de iniciativas que articulam o campo da comunicação periférica e produzem dados sobre essa realidade são fundamentais para o fortalecimento estrutural e a inclusão produtiva na informação.

A comunicação precisa das mulheres

Apoiar organizações periféricas que transformam realidades e fortalecem comunidades é, acima de tudo, apoiar mulheres. Elas são protagonistas: representam 34% dos empreendimentos no Brasil (IBGE, 2020), mas ainda enfrentam barreiras como desigualdade de gênero, machismo e, no caso das mulheres negras, o racismo estrutural. Para muitas, fundar uma agência de comunicação foi a resposta à falta de oportunidades no mercado, para outras um caminho para o fortalecimento da comunicação popular e da educomunicação.

Catarina de Angola, CEO da Angola Comunicação, Recife (PE), e Gisele Ramos, CEO da Agência Chocalho, do Vale do Salitre (BA), seguiram esse caminho. Como mulheres nordestinas, negras e parte da rede Énois, elas não apenas criaram novas possibilidades para si, mas também abriram portas para outras comunicadoras que hoje atuam em suas agências.

No entanto, liderar uma organização ainda é um grande desafio para as mulheres. O modelo de negócio vigente não considera a realidade das chefes de família, mães e profissionais que acumulam jornadas duplas e triplas. A pesquisa Retrato do Jornalismo Brasileiro, realizada pela Énois em parceria com o CEERT, revela que mulheres negras e periféricas frequentemente precisam tirar dinheiro do próprio bolso e manter outros empregos para sustentar suas iniciativas. Enquanto isso, homens brancos, em sua maioria, não enfrentam os mesmos desafios e ainda conseguem contratar até cinco funcionários.

“É urgente repensar os negócios para incluir a realidade das mulheres, que acumulam responsabilidades familiares. O mundo corporativo ainda favorece os homens. Precisamos de mais investimentos em mulheres empreendedoras e maior acesso a formações em gestão e educação financeira.” – Gisele Ramos

Em 15 anos, a Énois apoiou mais de 1.000 comunicadoras, sendo 50% mulheres negras, com um investimento de R$ 500 mil, evidenciando o compromisso com a democracia no dia a dia, que é, antes de tudo, tocada por mulheres, periféricas, nortistas e mães.

A presença de mulheres na liderança da comunicação é essencial para fortalecer uma abordagem decolonial, feminista e antirracista. São essas perspectivas que garantem uma comunicação comprometida com a diversidade e a justiça social.

“Minha atuação na comunicação é feminista e antirracista, garantindo que mulheres protagonizem seus negócios, suas narrativas e sejam reconhecidas como sujeitos de direitos.” – Catarina de Angola

O empreendedorismo tem sido uma alternativa para muitas mulheres, mas para que suas iniciativas sejam sustentáveis, é fundamental oferecer suporte financeiro, modelos de negócio adequados às suas realidades, acesso à recursos e oportunidades de formação. Afinal, são elas que, diariamente, estão à frente nos territórios informando, transformando e gerando impacto real.

Texto por Glória Maria, comunicadora institucional

É com presença nos territórios que desarmamos a desinformação

Se por um lado vemos o enfraquecimento de maneiras de qualificar o acesso à informação nas redes sociais, e o avanço de estratégias de desinformação também no offline, por outro, aqui na Énois, temos experimentado maneiras de fortalecer o tecido social por meio de acesso de informação verificada e de qualidade.

Entendemos que fortalecer o tecido social é fortalecer as conexões e discussões no “mundo real”. Em encontros que acontecem corpo a corpo. No ano passado, com o programa Diversidade nas Redações 3: Desinformação e Eleições, tivemos diversas experiências que promoveram esse fortalecimento.

Pudemos perceber como, ao abraçar a proposta de promover eventos de discussão sobre desinformação, esses espaços se tornaram potência de articulação territorial entre as iniciativas de comunicação popular e jornalismo com outras organizações e pessoas nos territórios que atuam. São pessoas se juntando a outras pessoas com o objetivo de melhorar o acesso à informação verificada em cidades como Belém, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Juazeiro e São Paulo.

Para algumas iniciativas de comunicação, não foi uma novidade, mas um impulsionamento para ir mais longe. Para outras, foi uma virada de chave.

O evento da Agência Carta Amazônia, em Belém, reuniu a diretora de uma escola municipal localizada na Ilha do Combu, um vereador, membros dos sindicatos de jornalistas e familiares.

Em Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, a Agência Lume reuniu organizações de diversos setores que atuam na favela para promover a troca de experiências e diálogos em prol da região de Rio das Pedras e da Baixada de Jacarepaguá.

O Nonada conseguiu articular com um coletivo de Slam para realizar uma batalha de poesias sobre desinformação para uma turma do Ensino de Jovens e Adultos de Porto Alegre, durante a Feira do Livro local.

O Sul21, também de Porto Alegre, encerrou o programa com um encontro sobre informação falsa junto a um grupo de trabalhadoras domésticas.

O Carrapicho Virtual, de Juazeiro, na Bahia, realizou eventos com jovens que passaram a mapear a desinformação em seu território, no sertão baiano, e a carregar esse conhecimento consigo.

A gente acredita que a desagregação social é também uma estratégia de desinformação. Promover encontros e seguir apoiando iniciativas que fazem o debate acontecer no chão pode parecer pequeno, mas tem efeitos profundos e transformadores para quem vive esses encontros. Que lembremos disso durante os próximos meses.

Texto por: Jessica Mota, coordenadora do Laboratório Énois

Rede nacional de checagem das Eleições 2024

10 organizações distribuídas em todas as regiões do Brasil fazem parte do programa Diversidade nas Redações - Desinformação e Eleições, coordenado pela Énois Laboratório de Jornalismo
89% das pessoas moradoras de periferias no Brasil já foram vítimas de notícias falsas, de acordo com o Instituto Data Favela, em pesquisa divulgada em julho deste ano e, segundo o Instituto Locomotiva, 90% da população brasileira admite ter acreditado em fake news. Isso indica que combater a desinformação eleitoral de maneira assertiva só é possível em rede e conhecendo os diversos territórios populares do nosso país.
Pensando nisso, a Énois Laboratório de Jornalismo junto às organizações Agência Lume (RJ), Carta Amazônia (PA), Carrapicho Virtual (BA), Com_Texto (MT), Correio do Lavrado (RR), Olhos Jornalismo (AL), Nonada Jornalismo (RS), Teatrine TV (MS), Transmídia (SP) e Sul21 (RS) lançam nesta quinta-feira (15/08) o programa Diversidade nas Redações - Desinformação e Eleições, com patrocínio da Google News Initiative. Ainda, o projeto conta com o apoio da Agência Lupa, Agência Tatu, do Desinformante e do Reocupa.
O Diversidade nas Redações é um programa de treinamento da Énois, que tem centralidade no fortalecimento institucional e financeiro de redações jornalísticas, por  meio do impulsionamento da diversidade de gênero, raça e território. O foco na temática da desinformação e eleições, com checagem de notícias falsas veiculadas por Whatsapp,  marca o terceiro ciclo do programa que traz um diferencial na distribuição de recursos para as organizações envolvidas.
Desde a sua primeira edição, o Diversidade nas Redações nunca chegou ao valor de R$ 40 mil destinados para cada iniciativa, totalizando R$ 400 mil investidos pelo programa na rede parceira. Esse diferencial da edição é fruto de muita escuta do campo do jornalismo local sobre as suas principais demandas. Redações locais conseguem identificar desinformação com mais facilidade por terem mais proximidade com quem vive nos territórios. Fortalecer essas iniciativas é expandir as possibilidades desse ecossistema jornalístico, como mostra o relato de Géssika Costa, fundadora do Olhos Jornalismo (AL).
“Em quatro anos de existência, essa é a primeira vez que entra um recurso dessa ordem para o Olhos. Sabemos o quanto é difícil e burocrático sermos contemplados em editais nacionais e internacionais e ter um pouco mais de flexibilidade para o uso do dinheiro. Entendemos que esse recurso vai ser um divisor de águas na nossa história porque vai nos ajudar a fazer uma cobertura relevante das eleições e apoiar na estrutura geral para os próximos meses”.
O impacto do Diversidade nas Redações - Desinformação e Eleições para o portal Transmídia não é diferente. “Em termos de estrutura organizacional e financeira, é bastante significativo. Em setembro, lançaremos oficialmente o nosso site, o primeiro portal de notícias focado exclusivamente na pauta da população trans no Brasil. Com o projeto, começaremos nossas produções cobrindo as eleições, produzindo reportagens aprofundadas e estabelecendo parcerias que são essenciais para o nosso crescimento”, conta Caê Vatiero, cofundador do Transmídia.
A essência do Diversidade nas Redações e da Énois é o compartilhamento de conhecimento, e nesta edição o programa tem um caráter de multiplicação. Desde julho de 2024, as 10 iniciativas de jornalismo local parceiras estão participando de formações temáticas sobre checagem, mapeamento de desinformação, produção cultural e engajamento comunitário. Formações que serão multiplicadas nos territórios em que elas estão inseridas, alcançando um público pessoas que atuam com jornalismo local, comunicação e cultura. As formações serão gratuitas, online, e as datas estarão disponíveis nas redes sociais da Énois a partir desta quinta (25): @enoisconteudo
“A maioria das organizações parceiras no projeto já andam junto com a Énois há bastante tempo. Algumas, a gente viu surgir e crescer e decidimos resgatar essa relação em rede pensando no que faz sentido para elas, desde a questão de recursos até o foco na cobertura das eleições mesmo. Optamos por articular com duas organizações por região e fomos apresentando o projeto”, afirma Sanara Santos, coordenadora do Diversidade nas Redações - Desinformação e Eleições e diretora de Formação da Énois.
A desinformação em contextos de eleições é uma preocupação global, já que tem sido utilizada como estratégia política e de poder por diversos grupos políticos, em sua maioria de extrema-direita. O direito à informação de credibilidade, indispensável à democracia, está diretamente ligado com a escolha do voto. Em contextos periféricos essa relação toma outras proporções quando relacionada à falta de internet de qualidade e à ausência de outros direitos básicos.
"Veículos de notícias pequenos e médios são os responsáveis, muitas vezes sozinhos, por produzir jornalismo e checar informação para suas comunidades ou municípios. Por meio da Google News Initiative, buscamos apoiar iniciativas como a da Énois e fortalecer o jornalismo local, algo especialmente importante neste momento de eleições", explica Marco Túlio Pires, gerente de Parcerias de Notícias do Google no Brasil.
Após o período de formação nos territórios do projeto, a fase de checagem será iniciada em 29 de agosto. Cada organização irá mapear grupos de Whatsapp que circulam em seus territórios, espaços em que podem circular desinformação. A partir desse mapeamento, elas devem identificar notícias falsas ligadas com o contexto eleitoral. A metodologia utilizada é a do Checazap, primeiro projeto de checagens de notícias a atuar dentro do WhatsApp no Brasil, desenvolvido pela Escola de Jornalismo da Énois e o Data_Labe. E, para além das checagens, também serão produzidas matérias colaborativas com os territórios, diante das suas especificidades quando o assunto é desinformação.
A ideia é articular a distribuição de checagens e matérias jornalísticas. Assim como eventos de debates sobre desinformação e territórios,  com artistas, lideranças comunitárias, influenciadores e influenciadoras digitais nas comunidades, no pós eleições. As checagens e matérias, assim como mais informações sobre o Diversidade nas Redações - Desinformação e Eleições poderão ser conferidas nos sites e nas redes sociais da Énois Laboratório de Jornalismo e das organizações parceiras. Checagens e matérias do projeto podem ser republicadas, é só entrar em contato: sanara@old.enoisconteudo.com.br
Para apoiar o trabalho da Énois, é possível fazer doações para a campanha recorrente da organização.

As inteligências artificiais vão acabar com o jornalismo?

De tempos em tempos, quando uma nova tecnologia é criada, surge com ela uma pergunta apocalíptica para o jornalismo.

Se a sua preocupação é com a possibilidade de uma máquina te substituir enquanto jornalista, fica tranquila. Isso não vai acontecer tão cedo. O seu cérebro, o seu corpo e a sua vivência são bem mais complexos e eficientes que um algoritmo.

Existem cenários sombrios? Sim. Também existem muitos questionamentos sobre o impacto do uso das inteligências artificiais no ecossistema da informação e na própria democracia – o que inclui a própria Internet como a conhecemos e a já aguerrida batalha contra a desinformação. 

A newsletter Farol Jornalismo fez um ótimo apanhado sobre essas discussões nesta edição aqui (para os conteúdos em inglês, sugiro a tradução que o navegador Google Chrome possibilita). 

Mas de cara, arrisco a dizer que quanto menos nos deixarmos agir pelo automatismo na cobertura e mais exercitarmos um jornalismo focado nas pessoas, que responda às perguntas óbvias que todos os dias o noticiário deixa passar, mais distante de sermos assimilados pelas máquinas estaremos. Ou de apurarmos e escrevermos como elas.

Afinal, para a pergunta-clichê-apocalíptica temos também a resposta-clichê-renovadora: de que jornalismo estamos falando? Daquele que reproduz estereótipos? Daquele que se baseia numa cobertura cheia de vieses de confirmação? 

Desconfio que nutrir as relações de jornalistas com suas comunidades, fazer de dentro para dentro, nas favelas, periferias e interiores do país, é o que pode garantir não só a integridade da informação, mas a confiança de que essa informação vem de alguém que vive e conhece aquele território. Além disso, é o que pode fortalecer a pluralidade de fontes de informação na Internet, das quais as próprias inteligências artificiais se alimentam e reproduzem. 

"A inteligência artificial é um grande algoritmo de rede neural que analisa um grande volume de dados do que tem na internet”, explicou Rosângela Menezes, jornalista e fundadora da Awalé, na última Redação Aberta. “Na verdade, a gente tem, como comunicadores, o desafio de produzir mais conteúdo focado em quebrar estereótipos. É através dessa produção que nós, enquanto rede de jornalistas, poderemos em algum momento, lá na frente, fazer o ChatGPT identificar não-estereótipos. Na Awalé, por exemplo, a gente só fala de mulheres negras e indígenas".

Pois é. Vamos lembrar que a Internet e seus algoritmos se conformam dentro do mundo em que vivemos. O ChatGPT, por exemplo, se baseia muito em formas de textos e imagens comuns em culturas anglófonas, eurocêntricas, masculinas e brancas.

Toma aí mais um clichê: talvez as inteligências artificiais estejam aí pra nos lembrarem da importância daquilo que nos torna humanos. Nada mais humano que a diversidade e a complexidade.

Dito isso, também é importante reconhecer a potência que o desenvolvimento das inteligências artificiais trazem para esse jornalismo que é produzido a partir e para as periferias do Brasil, sejam elas periferias territoriais, raciais ou de gênero.

Em contextos de poucos recursos financeiros e humanos, ter uma ferramenta para auxiliar gratuitamente cada profissional de uma organização, em diversas tarefas simultâneas, é um ganho e tanto.

"A gente não tem o tempo e nem o privilégio de outros grupos e pessoas que já aprovam grandes projetos têm, de ir pra uma casa de praia escrever projetos de lá”, compartilhou Yane Mendes, da Rede Tumulto, que fica no Recife, na última Redação Aberta. “A gente de favela escreve projeto no meio do ônibus, nas correrias do dia a dia. Isso da gente ficar dizendo que não consegue usar o ChatGPT, a gente tá replicando o que a branquitude quer. Não é sobre capacidade. Quem domina a ferramenta sai na frente e tem o privilégio nessa corrida de acessos a recursos".

Para começar, se você trabalha com informação e trabalho criativo, é preciso estabelecer alguns limites para você, sua equipe e seu público.

"Nossa maior preocupação foi como garantir a credibilidade para o nosso leitor”, explica Lucas Maia, jornalista e sócio-diretor da Agência Tatu, uma equipe de comunicação de Alagoas, focada em jornalismo de dados, inovação no jornalismo e jornalismo investigativo. “A gente criou uma política de uso de IA na redação. A máquina é uma ferramenta, e a responsabilidade de tocar um veículo de comunicação é dos jornalistas. Nunca vamos culpar o erro na máquina. Quando a gente errar, a gente errou".

Na Awalé, startup de impacto social que dá treinamento para mulheres negras e indígenas e tem sede em Santa Catarina, o caminho foi parecido. Rosângela conta que passaram a ter um uso bastante orientado do ChatGPT para não perderem a qualidade no conteúdo, que tem a premissa de ser escrito de humanos para humanos. 

"É o que eu vendo, todo mundo que escreve na Awalé é jornalista. Então tivemos todo um trabalho com a equipe pra entender como usar. Toda vez que a gente tem uma freelancer nova trabalhando com a gente, temos esse trabalho de apresentar os limites e orientar o uso. A gente não usa nas redes sociais, por exemplo, porque em todos os testes que fiz com o ChatGPT, nenhum teve um retorno satisfatório com o que a gente entrega nas nossas redes sociais".

Seja para automatizar tarefas repetitivas ou ajudar com o pensamento criativo de um conteúdo, as inteligências artificiais precisam que você dê comandos bem explicados, objetivos. Você pode escrever do jeito que fala, é até melhor. Mas provavelmente vai precisar de algumas tentativas até chegar a uma resposta satisfatória da ferramenta. Isso porque é preciso saber direcionar bem seu pedido. Se estiver dando muito trabalho, bom, aí a gente volta pro começo: a máquina não vai saber fazer o que só você pode.

Numa conversa que tive com Lucas e Rosângela para a realização da última Redação Aberta, Lucas comentou sobre a diferença entre os resultados de uma imagem que ele e o designer da Tatu pediram para a inteligência artificial produzir. A do designer foi infinitamente melhor, dizendo ele, pelo próprio conhecimento que o profissional carrega.

Reúno aqui algumas dicas compartilhadas por Rosângela e Lucas. Para mais detalhes e para continuar as reflexões sobre o tema, confira a gravação completa do nosso encontro sobre inteligência artificial como ferramenta de apoio nas redações.

1. Produção de roteiro de eventos: quando inserimos o máximo de informações, melhor o ChatGPT responde. Descreva o tema do evento, o perfil das ou dos palestrantes, moderadoras ou moderadores, o objetivo do evento e peça para o ChatGPT perguntar A ideia não é copiar exatamente a proposta, mas usar as informações como guia, principalmente se você não tem experiência em realizar eventos de debate.

2. Resumo de editais: copie e cole o texto do edital no ChatGPT. A ferramenta vai resumir. Depois, você pode fazer várias perguntas pro ChatGPT sobre este edital, como quem pode ou não participar, qual o prazo, etc. Essa utilidade pode ser especialmente útil quando se tem vários editais para ler.

3. Formatação de tabelas de PDFs: esse uso é ótimo para jornalistas que trabalham na apuração de dados fornecidos em tabelas dentro de PDFs. Você copia as informações da tabela no PDF, cola no ChatGPT e pede para que a inteligência artificial produza uma tabela com aquelas informações. Pronto, agora é só copiar e colar para uma planilha, por exemplo.

4. Sugestão de pautas: contextualize sobre o que se tratam as informações fornecidas na tabela anterior e peça para que o ChatGPT dê sugestões de pauta. De novo, a ideia não é seguir exatamente o que a ferramenta propõe. Faça uma análise crítica e utilize as referências para desenvolver suas pautas.

Se quiser continuar essa conversa, responda a esse e-mail! Vou adorar saber o que você pensa sobre o assunto.

Até mais!

Conexão da periferia com os povos-florestas

8 dias, 14 jornalistas e um intercâmbio entre a região amazônica e as periferias de São Paulo. Interessante, né?

Essa foi a experiência vivenciada pela Énois como produtora convidada da Plataforma Sumaúma para fazer o Micélio, um programa de co-formação e imersão de jornalistas florestas, que aconteceu no início do mês de abril.

Eu, Gloria Maria, comunicadora institucional da Énois, vim contar essa história…

“Micélio” é também um fungo que atua no solo e estabelece uma rede de conexões com diversas espécies de seres vivos e, por essa capacidade de conectar, deu nome à metodologia.

Foram dias de trocas e entrevistas sobre jornalismo local e territórios. As pessoas participantes, chamadas também de “micélios”, se dividiram em grupos para acompanhar a Agência Mural, o Periferia em Movimento e Alma Preta, parceiras nessa vivência. 

A Plataforma Sumaúma propõe um jornalismo do centro do mundo, que desloca a concepção do que é centro local e regionalmente. Os centros não são as grandes cidades onde muito se decide, mas pouco se olha para a população, ou as regiões que concentram o poder, a política e a economia do nosso país. Centro do mundo é onde o povo está, suas histórias e suas demandas.

A gente se identificou demais com esse conceito. Aqui na Énois, temos como foco da nossa atuação as periferias e estar com a Sumaúma significou uma conexão entre floresta e periferia, entre centros do mundo.

Eu pude mostrar a minha comunidade e contar sobre a reportagem que estou produzindo para a Agência Mural, a respeito do direito à moradia e a canalização do córrego Antonico, que um dia já foi limpo e cheio de vida e fonte de alimentação para os moradores locais e hoje está poluído.”

A cidade de São Paulo foi erguida em cima de rios que se acabaram em meio às construções. Esse contexto tocou Yãkurixi Xipaya, de 21 anos, jornalista floresta e moradora de Altamira (PA).

“O que mais me marcou foi saber dos rios mortos e ouvir relatos de moradores que já se alimentaram deles, sentindo a pureza da água. Isso me fez refletir muito sobre a importância de lutar pelos rios que sustentam meu povo”, conta Yãkurixi.

Para ela, conhecer as periferias paulistas significou entender que existem lutas semelhantes às da região amazônica e fortalecer uma rede comunitária diversa e inter-regional.

Sol, 28 anos, também jornalista floresta e artista visual do Xingu, compartilha do mesmo significado. “Conhecer a Énois e outras organizações que utilizam a comunicação como ferramenta de ativismo em defesa dos territórios me deixou muito feliz. Isso nos une”, explica.

No último dia, a co-formação de jornalistas florestas contou com a presença da filósofa e escritora, Sueli Carneiro, em uma roda de diálogo sobre o histórico da imprensa brasileira e da luta pela diversidade no Brasil.

“Costumo debochar, dizendo que éramos meio bolchevique, então não tinha espaço para a ética do cuidado nas relações políticas. E ter essa ética hoje em dia, trazida por essa geração de uma maneira muito forte é humanizar a prática política. Isso é positivo.”, afirmou a filósofa sobre as políticas de cuidado implementadas pelas organizações de jornalismo local que estavam presentes.

A Casa Sueli Carneiro e a Casa Ecoativa também foram parceiras da Plataforma Sumaúma na imersão em São Paulo e a gente espera viver mais momentos com essa galera.

Énois!
Até a próxima história, gente!

A Rede Énois e a “potência mulheres” que ela nos traz

Hoje é 8 de Março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, e nossa primeira história por aqui não poderia ser diferente disso. Recentemente, anunciamos a chegada de Sanara Santos à diretoria da Énois, a primeira mulher trans negra e periférica a ocupar um cargo de direção em uma organização de jornalismo do Brasil. Agora, trazemos com orgulho uma outra trajetória também muito significativa e que demarca novas eras, se assim podemos chamar nossas revoluções.

A próxima edição do Prato Firmeza, o guia gastronômico das quebradas da Énois, será coordenada pela primeira vez por uma pessoa da Rede Énois, comunidade que cultivamos reunindo iniciativas parceiras de comunicação local de todo o Brasil. Essa pessoa é mulher, é negra, é mãe e vive no Norte do país.

É Cecília Amorim, companheira que desbrava o jornalismo ambiental na região amazônica e agora está com a gente colaborando na equipe. Cecília retrata muito bem o que chamamos de Rede Énois… Uma comunidade composta majoritariamente por mulheres (51,3% da Rede Énois), pessoas pretas (27,2%), e que tem construído conexões na região Norte (10% da Rede Énois está no estado do Pará, com 140 pessoas).

Chega cá, Cecília

Cecília, a partir de quem é, mobiliza o território em que vive com o jornalismo local. Na Énois, já participou do Redação Abertaescreveu uma Diversa, representou a rede no Congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em 2023, e hoje nos presenteia estando na coordenação do próximo Prato Firmeza.
 

Ela é jornalista e mãe de duas crianças. Nasceu em Imperatriz (MA), mas mora há 30 anos em Belém (PA), desde quando a família decidiu tentar a vida no Norte. Cecília recorda que desde a infância teve o incentivo de estudar. Sua mãe, que era trabalhadora doméstica, ganhava livros doados e lhe presenteava. Aos 13 anos, também passou a trabalhar como doméstica conciliando com os estudos para ajudar a família. Rotina difícil para uma pré-adolescente, mas que é a realidade de muitas meninas Brasil afora.

Muitas também (e que sejam cada vez mais), assim como Cecília, superam essas barreiras e conseguem realizar sonhos…

“Não escolhi exatamente o jornalismo. Eu escolhi escrever e me encontrei dentro do jornalismo”

Em 2020, no início da pandemia da Covid-19, ela foi convidada por três amigos comunicadores (Adison Ferreira, Eraldo Paulino e Felipe Melo) para realizar o podcast Carta Amazônia, que dois anos depois participou do Diversidade nas Redações da Énois.

Segundo Cecília, com esse recursos do programa foi possível repensar a iniciativa como algo maior, e assim nasce o site do Carta Amazônia. Hoje, a iniciativa é uma das organizações selecionadas pelo TechCamp Belém 2023, a Embaixada e Consulados EUA no Brasil, em parceria com a Énois, contempladas com recursos para desenvolver um projeto próprio.

Escola Carta Amazônia de Jornalismo Ambiental está sendo realizada e recebeu 177 inscrições. Um verdadeiro sucesso!!

Desde quando Cecília Amorim passou a entender como a grande mídia cobre o território amazônico, ela trabalha e sonha com um jornalismo local, decolonial e protagonizado por quem vive na região. Um jornalismo que quebra os estereótipos da mídia hegemônica. 

“A grande mídia só chega aqui, mandando seus jornalistas, para falar de tragédia. Mas existe uma Amazônia metrópole, ribeirinha, indígena, floresta, lavrado, dos peixes e da carne. Esse território é muito plural e o jornalismo local é para comunicar que somos muitas realidades e não uma coisa só”.

Falar de luta é também falar sobre conquista. Por isso, contamos hoje a história de Cecília que se mistura com a nossa e move comunicação e territórios para perspectivas mais justas e diversas. Inspirador, né?

Fica com a gente que tem mais chegando!